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(A) :: Ser Presidente é o emprego mais fácil do mundo

Ser Presidente é o emprego mais fácil do mundo

Ouvindo as muitas declarações de António José Seguro na sua primeira Presidência Aberta, ficou evidente que ele exercerá o cargo como um misto de Isabel II, estafeta da DHL e Américo Thomaz.

Miguel Pinheiro
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Durante décadas, uma das principais e mais extenuantes funções constitucionais de Isabel II era acenar. Sempre que entrava num carro, sempre que saía de um carro e sempre que andava num carro, a Rainha de Inglaterra tinha a obrigação de olhar em volta e movimentar a mão direita como forma de cumprimento, reconhecimento ou simpatia. Já no final do seu reinado, Isabel II recebeu um presente que a deixou “encantada” pelo potencial de poupança de esforço: uma mão falsa. Na descrição da Princesa Ana, tratava-se de “uma luva recheada, colocada num manípulo de madeira, de modo que se podia mexer a extremidade da alavanca e a mão movia-se para a frente e para trás”.

Esta semana, todos aqueles que tiveram a coragem patriótica de acompanhar a primeira Presidência Aberta de António José Seguro chegaram, com um elevado grau de certeza, à conclusão de que o socialista (peço desculpa, penso que ele não gosta que o tratem assim) precisa de um artefacto semelhante. É que já se percebeu que Seguro vai mesmo ser o Presidente do “sorri e acena, sorri e acena” — a dada altura, a mão não vai aguentar. Ouvindo-o por estes dias, ficou evidente que ele exercerá o cargo como um misto de Isabel II, estafeta da DHL e Américo Thomaz.

António José Seguro é uma Rainha de Inglaterra porque quando, a dada altura, começaram a fazer-lhe demasiadas perguntas sobre aquilo que já deveria estar a ser feito para evitar uma tragédia na época de fogos, o Presidente da República proclamou, com notório alívio: “Não tenho poder executivo.” Noutro momento, confrontado com a necessidade de se realizarem alterações na Proteção Civil, tendo em conta os falhanços nos fogos e nas tempestades, o Presidente acenou e sorriu: “Já falou com o Governo?”

O novo Presidente está também a aperfeiçoar a capacidade de entregar objetos de um lado para o outro. Quando dez autarcas da região de Leiria lhe puseram nas mãos um “caderno reivindicativo”, Seguro apressou-se a informar que faria chegar “uma cópia ao senhor ministro da Administração Interna”. Não seria preciso um esforço excessivo: por acaso, Luís Neves permanecia obedientemente ao lado do chefe de Estado, como se fosse uma estátua de cera do Museu Tussauds.

Nestes dias, houve ainda as vacuidades. Ao falar sobre os atrasos na reconstrução depois da tempestade, António José Seguro filosofou: “Não há só um inverno. Todos os anos há um inverno. Temos de retirar ilações daí”. De facto, “todos os anos há um inverno” e, de facto, “temos de retirar ilações” dessa extraordinária sucessão das estações. Mas o novo Presidente da República nunca “retira ilações” que vão para lá da sóbria constatação das particularidades do calendário. Nisso, faz lembrar um antecessor, o almirante Américo Thomaz. Nas suas memórias, Marcello Caetano escreveu que Thomaz “percorria incessantemente o país fazendo inaugurações e recebendo homenagens”. Nesses momentos, “proferia curtos discursos de improviso”, sendo que eles “não podiam manifestamente deixar de exprimir sempre os mesmos sentimentos de congratulação e agradecimento, com alguns lugares‑comuns”. Procurando sempre uma fita para cortar, o último Presidente do Estado Novo chegou a inaugurar, com pompa, as lavandarias do Hotel Sheraton, em Lisboa. Ficou conhecido por frases tão perscrutadoras como a de Seguro sobre o inverno. Por exemplo: “Hoje, visitei todos os pavilhões, se não contar com os que não visitei.”

Concordar com quem nos aborda na rua, entregar cartas a terceiros e dizer obviedades é, sem dúvida, o emprego mais fácil do mundo. Mas a razão pela qual António José Seguro se refugia nesta forma de funcionamento não é por incompetência ou preguiça — é por falta de força política. Os partidos de esquerda repetem e insistem que o Presidente da República foi eleito com mais de dois terços dos votos e que, por isso, a sua santa ascensão a Belém anulou e defenestrou a maioria de direita no Parlamento. Mas Seguro sabe que, na verdade, aquele resultado é uma soma de muitas vontades contraditórias. De um lado, recebeu o voto dos socialistas, que pretendem converter o Presidente em opositor de Montenegro. Do outro lado, recebeu o voto daqueles que tinham como única motivação na vida não apoiar Marques Mendes, primeiro, nem André Ventura, depois, e que pretendem ter um Presidente que não provoque sarilhos nem crises. Se o Presidente se mover para a direita, perde uns apoiantes; se se mover para a esquerda, perde os outros. Paralisado e impotente, resta-lhe ajeitar o nó da gravata e contemplar melancolicamente um inverno a suceder ao outro. Vão ser cinco anos muito longos.