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Com "portagem" de Ormuz, Irão não quer dinheiro – quer dar um tiro na hegemonia do dólar (e a China dá uma mãozinha)

Os EUA beneficiam, há décadas, de um "privilégio exorbitante" pelo facto de o dólar ser a moeda de reserva internacional. Mas a guerra no Médio Oriente pode levar à afirmação do "petroyuan".

Edgar Caetano
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Se fosse cobrada pelos EUA e pelo Irão, em “parceria”, como o próprio Trump chegou a admitir, uma “portagem” no Estreito de Ormuz seria uma “coisa linda”. Com o fracasso das negociações deste fim de semana, o Presidente dos EUA diz, agora, que quaisquer valores que o Irão cobre – sozinho – pela passagem naquele local são “ilegais” e uma “extorsão mundial“. Mas o principal objetivo do Irão não é extorquir ninguém: é dar uma machadada na hegemonia do dólar na economia mundial, com a ajuda da China, que quer aproveitar esta guerra para fazer afirmar o seu “petroyuan“.

As primeiras notícias de que o Irão estava a começar a cobrar uma “portagem” no estreito surgiram já no mês passado. A agência Bloomberg escreveu a 24 de março que o país estava a pedir cerca de dois milhões de dólares por embarcação, uma cobrança que estava a ser feita de forma ad hoc, ou seja, caso a caso, em que alguns navios passavam sem que lhes fosse pedido nada e outros eram pressionados a pagar.

A notícia acrescentava que alguns navios tinham, discretamente, decidido pagar o valor pedido para poderem passar e levar a mercadoria ao destino, mas não ficou claro como é que o fizeram. Logo aí se indicou que os pagamentos que estavam a ser pedidos equivaliam a um dólar por cada barril – os tais dois milhões de dólares, uma vez que os petroleiros mais comuns a atravessar o estreito transportam quantidades que equivalem a cerca de dois milhões de barris.

Só alguns dias mais tarde, já no início de abril, é que foi noticiado – por jornais como o Financial Times e a mesma Bloomberg – que as autoridades iranianas estavam a exigir que os pagamentos fossem feitos em criptomoedas ou, então, em yuans chineses. O objetivo era simples: contornar o sistema financeiro ocidental, que há várias décadas usa a moeda norte-americana como o sangue que lhe corre nas veias, em particular o mercado energético mundial.

O “privilégio exorbitante” que a hegemonia do dólar dá aos EUA

Cerca de 80% das transações no comércio energético global são feitas em dólares norte-americanos, segundo uma estimativa feita em 2023 pelo banco JPMorgan Chase. Esta elevada percentagem não surgiu por acaso, é fruto do chamado sistema do “petrodólar” que foi estabelecido a partir da década de 1970 entre os EUA e a Arábia Saudita. A ideia fundamental é que o petróleo produzido pelos árabes fosse sempre faturado em dólares e os lucros (os petrodólares) seriam, tendencialmente, reinvestidos em dívida soberana dos EUA, os títulos do Tesouro norte-americano.

Isso faz da divisa norte-americana a principal moeda de reserva internacional, algo que tem vantagens que podem resumir-se de forma simples: os EUA conseguem, dessa forma, comprar ao mundo inteiro usando a sua própria moeda – uma moeda que só eles podem emitir, mais ninguém. A maioria dos países, se quiser comprar petróleo e outros bens, precisa de ganhar acesso a dólares – exportando produtos (e recebendo em dólares) ou procurando trocar as suas moedas por dólares – ao passo que os EUA podem pagar quase tudo usando moeda que é criada por si.

O resultado indireto deste sistema é que os outros países – em rigor, os seus bancos centrais – precisam de acumular reservas de dólares para sustentar o valor das suas próprias moedas (fazem o mesmo acumulando reservas de ouro, por exemplo). E, por essa via, ao comprarem títulos do Tesouro dos EUA estão a contribuir para gerar uma procura por dívida soberana norte-americana que ajuda o país a financiar-se a custos mais baixos.

Um antigo ministro das Finanças de França, Valéry Giscard d’Estaing, chamava a tudo isto o “privilégio exorbitante” de que os EUA beneficiam pelo facto de a sua moeda ser hegemónica. O domínio do dólar permite ao Estado federal dos EUA, em termos simples, viver além das suas possibilidades, mantendo défices da conta corrente recorrentes que, sem essa procura externa pela divisa, levariam os mercados financeiros a “castigarem” o valor da respetiva moeda.

Há, ainda, outro efeito que tem grande relevância no caso do Irão. A centralidade da divisa dos EUA obriga a que uma grande parte das transações financeiras mundiais, incluindo aquelas que envolvem matérias-primas como o petróleo, tenham de passar pelo sistema financeiro norte-americano – o que torna as sanções aplicadas pelos EUA mais penalizadoras para quem delas é alvo, como é o Irão, há muito tempo.

Por outras palavras, o domínio do dólar funciona como uma extensão das ferramentas da política externa norte-americana.

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Para a administração Trump, porém, esta procura excessiva por dólares faz com que a cotação da moeda, face às outras divisas, seja “artificialmente” elevada – o que, aos olhos de vários economistas que aconselham Trump, prejudica a competitividade das empresas exportadoras norte-americanas e contribui para aumentar o défice comercial do país. No fundo, Trump quer sol na eira e chuva no nabal: quer preservar o dólar como moeda de reserva internacional, hegemónica no comércio internacional, mas quer, ao mesmo tempo, baixar a cotação da divisa para tornar as exportações mais competitivas.

Irão e China. “Parceiros estratégicos” contra a “coerção” feita pelos EUA

O Irão convive há décadas com pesadas sanções financeiras – é um dos países mais sancionados do mundo e um dos poucos casos em que o Departamento do Tesouro dos EUA sanciona todo o país e não apenas algumas entidades ou indivíduos. Em 2012, os bancos iranianos foram desconectados do sistema SWIFT (Society for Worldwide Interbank Financial Telecommunication Network), o sistema usado pela generalidade dos bancos mundiais para comunicar e validar transações transfronteiriças.

Mais tarde, em 2016, no âmbito das negociações em torno do acordo nuclear iraniano, os bancos voltaram a ter um acesso parcial ao SWIFT, graças ao levantamento de algumas sanções. Mas logo em 2018, quando os EUA saíram desse acordo (que tinha sido celebrado por Obama), os bancos iranianos voltaram a ver fechado o acesso a essa e outras infraestruturas de pagamentos mundiais. Esses constantes avanços e recuos levaram as autoridades iranianas a desenvolver mecanismos alternativos, para estarem menos dependentes de sistemas com acesso imprevisível.

O resultado foi um circuito complexo de canais alternativos, uns mais regulares do que outros. Algumas transações feitas pelo Irão passam por jurisdições que não se importam de assumir algum risco de serem apanhadas nas sanções, como bancos chineses. Outros movimentos de dinheiro passam por intermediários que ajudam o Irão a mascarar os beneficiários, como confirmou uma análise das autoridades norte-americanas publicada em outubro de 2025.

Portagens em criptomoedas? Bitcoin e outras "criptos" já movimentam milhares de milhões na economia iraniana

A exigência do Irão de que as portagens no Estreito de Ormuz fossem pagas em criptomoedas virou os holofotes para a importância que os ativos digitais, como a bitcoin, já têm naquela economia, uma das mais fortemente sancionadas do mundo.

O ecossistema de criptomoedas do Irão tem crescido rapidamente nos últimos anos, numa resposta às sanções, à desvalorização da moeda e a ameaças militares externas, atingindo o equivalente a cerca de 7,8 mil milhões de dólares no ano passado (cerca de 6,7 mil milhões de euros), de acordo com dados da Chainalysis citados pelo The Wall Street Journal.

Numa nota enviada ao Observador, Henrique Valente, analista da ActivTrades Europe, afirmou que “apesar da relevância do anúncio [de que as portagens seriam pagas em criptoativos], a reação [dos preços da bitcoin e outras] foi bastante contida e o mercado continua a encarar a bitcoin como um ativo sensível à liquidez global e dependente das compras de um pequeno número de grandes fundos de investimento”.

“Os criptoativos subiram em consonância com os restantes ativos de risco, mas sem inverter a tendência descendente que tem marcado o setor desde o máximo de 126 mil dólares atingido pela Bitcoin em setembro do ano passado”, afirmou Henrique Valente, acrescentando que, “ainda assim, o setor poderá ganhar relevância num contexto de fragmentação crescente do sistema financeiro global”.

Porém, a sustentabilidade económica do Irão será sempre um desafio enquanto um país que lhe impõe tamanhas sanções, os EUA, domina a principal ficha de jogo, o dólar. E é aqui que entra a China, país que em outubro de 2024, na 16.ª cimeira dos BRICS, defendeu a necessidade de “reformar a arquitetura financeira internacional“, que estava “desatualizada” por já não refletir as mudanças no equilíbrio de poder global que houve nas últimas décadas.

Isso passa, na cabeça de Xi Jinping, por fazer do yuan uma moeda globalmente poderosa, para limitar a eficácia da “coerção unilateral” levada a cabo pelos EUA.

Ora, os dois países assinaram em 2021 um acordo de “parceria estratégica”, uma parceria que tem a duração de 25 anos e que tem feito aumentar de forma significativa o comércio entre os dois países. Quatro em cada cinco barris de petróleo que o Irão produz são comprados pela China, a preços especiais e com parte dessas transações já feitas em yuan.

Dados de plataformas de tráfego marítimo, como a Kpler e a TankerTrackers, indicam que o Irão continua a exportar o seu petróleo para a China a um ritmo praticamente inalterado, apesar do bloqueio do estreito por onde passa um quinto do petróleo consumido em todo o mundo. No outro lado da balança comercial, o Irão compra à China maquinaria, equipamentos eletrónicos, químicos e componentes industriais.

“O dólar é a nossa moeda, mas é o vosso problema”

“O Irão tem como objetivo infligir um golpe aos EUA mas, por outro lado, tem uma clara preferência pelo yuan porque, dessa forma, consegue evitar as sanções financeiras impostas pelos EUA e fomentar a amizade com a China, que tem feito muitos esforços por redenominar o seu próprio comércio, e dos BRICS, para o yuan”, afirmou Kenneth Rogoff, professor em Harvard e antigo economista-chefe do FMI, à Al Jazeera.

Rogoff escreveu recentemente um livro cujo título é inspirado numa outra frase icónica que simboliza as implicações do domínio da divisa: “O dólar é a nossa moeda, mas é o vosso problema“, uma frase cunhada por John Connally, que em 1971 era secretário do Tesouro dos EUA.

Para o professor de Harvard, a guerra no Irão é um choque energético com efeitos inflacionistas globais — mas é, também, um acelerador de tendências mais profundas, como a fragmentação do comércio e a erosão gradual da hegemonia da moeda dos EUA. Na prática, isso poderá levar a uma alteração tectónica capaz de aumentar as fricções no comércio internacional, já que a relativa estabilidade do sistema que existe hoje assenta no facto de haver uma moeda dominante, o que ajuda a uniformizar as “regras do jogo” na economia mundial.

think tank Atlantic Council salienta que, do ponto de vista dos EUA, perder o estatuto de moeda de reserva internacional “tornaria a presença militar global mais difícil de financiar”, o que levaria à “perda da influência” geopolítica em que assenta a sociedade ocidental, designadamente a europeia.

Ainda assim, a tese de Rogoff é que não haverá um colapso do dólar mas, sim, a ideia de que o auge da sua posição como reserva incontestável já passou. Na realidade, os dados do FMI mostram que o dólar continua a dominar as reservas globais com cerca de 57%, muito à frente do euro, com cerca de 20%. O yuan chinês continua a ter uma posição muito residual, abaixo de 2%.

Porém, a preponderância do dólar entre as reservas mundiais já foi superior a 70%, no início dos anos 2000 – o que aponta para um declínio lento e gradual, não um colapso, essa é a tese de Kenneth Rogoff. O economista acrescenta que, além das tensões geopolíticas e das pesadas tarifas anunciadas há cerca de um ano pela Casa Branca, o avolumar da dívida federal dos EUA e os desafios à independência da Reserva Federal podem, gradualmente, colocar em causa o domínio do dólar.

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Algo que também reforça essa visão de declínio (lento) do dólar como ativo de reserva é a valorização do ouro nos últimos anos, que é um sinal que, apesar de não oferecer qualquer retorno (juro), o metal amarelo é cada vez mais visto como uma alternativa segura.

Quanto ao euro, o think tank Atlantic Council salienta que “embora a Europa ofereça estabilidade institucional e seja atrativa para a diversificação comercial, a emissão limitada de dívida conjunta, os mercados de capitais fragmentados e as pressões externas da China comprometem o alcance global do euro”. “Sem uma maior união política e uma estratégia a longo prazo, o euro pode manter-se forte regionalmente, mas limitado como moeda global”, vaticina o organismo.

Já o yuan continua a ser limitado por fatores como os controlos de capitais aplicados pelo regime, que fazem com que seja uma moeda menos “livre” para transacionar, em comparação com o dólar. Essa é uma das principais razões por que Dan Alamariu, analista da Alpine Macro, citado pela Fortune, acredita que há algum “exagero” nos receios de que o dólar pode, subitamente, perder o lugar de ativo de reserva por excelência, mesmo com o que está a acontecer no Médio Oriente.

Tendo em conta que o petrodólar assenta, parcialmente, nas garantias de segurança que os EUA dão aos países do Golfo, os bombardeamentos que foram feitos pelo Irão, a vários desses países, podem colocar essas garantias em causa. É por isso, diz o especialista, que “o petrodólar enfrenta nesta fase um risco mais grave, mas [os países do] Conselho de Cooperação do Golfo têm, nesta fase, mais razões do que nunca para manter intactos os seus laços com Washington, tendo em conta a proximidade entre a China e o Irão”.

Nesta fase, na opinião de Dan Alamariu, “a ideia de um petroyuan ou de um petroeuro, como substitutos do petrodólar, parece um pouco esticada“.

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