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Os anos 90 da onda rosa ao acidente de Cherbakov

De que cor era um táxi em Lisboa nos anos 90? Depende. Ao quinto álbum da série "Lx", Joana Stichini Vilela e Pedro Fernandes guiam-nos pelos factos, aventuras e anti-heróis que povoaram a década.

Observador
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“Tou xim?” Pode atender à vontade, são os anos 90, movidos a otimismo desenfreado, inevitáveis choques de realidade e anúncios televisivos para a posteridade. Numa Lisboa em que tudo é possível, assoberbada de ideais e de missões que ficam por cumprir, vive-se sem pensar no que virá depois. Ao quinto álbum da série “Lx”, a cápsula do tempo volta a encher-se de protagonistas, cronistas e preciosidades. E ainda de factos, tendências, aventuras e anti-heróis. Dos escândalos no poder à maior catedral de consumo, da Expo 98 à era das raves, dos super concertos de estádio à grande festa de Maria João Saviotti, do buzinão na ponte a um Big Show de audiências, a década arranca com uma falsa partida, assiste ao desfecho trágico de Cherbakov, e despede-se com os auspícios e vaticínios que marcaram a entrada do novo milénio. Melhor, só se tivesse sido guionada pelas Produções Fictícias.

Da autoria de Joana Stichini Vilela e design gráfico com assinatura de Pedro Fernandes, pré-publicamos cinco excertos desta edição com chancela Dom Quixote, que chega às livrarias na próxima terça-feira, 14 de abril. 

MISE SAVIOTTI

Numa festa à grande e à italiana para celebrar os 50 anos de vida, a ex-cabeleireira Maria João Saviotti reúne no Convento do Beato os novos ricos e o antigo jet-set. O país mudou. A má-lingua nem por isso.

São os 50 anos da milionária Maria João Saviotti, uma ostensiva celebração no Convento do Beato, com 600 convites enviados e promessas de Veneza em Lisboa. Consta que será a primeira grande festa privada desde a Revolução, mas nada como os saudosos bailes Patiño e Schlumberger, que no final dos anos 60 atraíram o jet-set mundial. A elite não perdoa. Se no jornal Se7e se diz que houve quem fizesse tudo por um convite, no conservador O Independente conta-se as ausências realmente importantes: Kiki Espírito Santo, Teresa Lavradio, Belicha Costa Lobo. A aniversariante pode ter casas em Roma, Lisboa e Cascais, um iate e até um jacto privado, mas comenta-se que é inculta e indiscreta. Pior que tudo, uma ex-cabeleireira. Não há fome que não dê em intriga.

Casada há 15 anos com o italiano Stefano Saviotti, depois de cinco a viverem juntos, Maria João acompanha-o desde o primeiro hotel em Portugal, o D. Pedro Machico, na Madeira, em 1973. Pouco se sabe sobre como se conheceram. As más-línguas percorrem os cabeleireiros onde trabalhou: o Tabot, na Avenida António Augusto Aguiar; um salão próprio no drugstore Sol a Sol, na Avenida da Liberdade; outro, no primeiro centro comercial, o Apolo 70, perto do Campo Pequeno. Público e consensual é que ele só tem olhos para ela. Com a fortuna a crescer à medida do império, a Maria João Saviotti, née Machado, falta-lhe apenas a aprovação dos pares. E como em tudo, dá tudo.

Responsável pela decoração dos hotéis D. Pedro, passa três meses a planear o Ballo di Autunno. Três dias antes, 50 operários começam a montar o cenário: anjinhos renascentistas, 500 cadeiras douradas estofadas a veludo vermelho, o chão coberto a alcatifa da mesma cor. E no grande dia, ele de smoking, ela a condizer com o décor, recebem os 437 confirmados ao som de um quarteto de cordas com músicos da Gulbenkian e do São Carlos. Lá fora, estão 20 agentes da PSP. Seguranças são oito. Ao chegarem aos lugares, os convidados são surpreendidos por máscaras venezianas para as brincadeiras. Comem tortellini e depois faisão, servidos por 80 empregados disfarçados a rigor. Passadas as sobremesas – doces e 50 kg de queijos italianos – chegam as bailarinas brasileiras e as odaliscas. O pezzo forte é o bolo de aniversário, um corpo escultórico entre o menir e o croquembouche, a bordo de uma gôndola.

A festa é de arromba. Pelo menos para os que resolvem divertir-se. Mais do que quem é quem, quer saber-se quem esteve. E foram muitos. O patrão dos média Francisco Pinto Balsemão, o ministro Mira Amaral, o ex-ministro e advogado André Gonçalves Pereira, o empresário Jorge de Mello, o retratista Pedro Leitão e as aristocratas Teresa Schönborg-Wiesentheid e Claudine Cadaval. E ainda: Proença de Carvalho, o homem tudo; Humberto Coelho, o homem bola; e Amarílis, a ex-Taveira. Ausência notada, a de Margarida Prieto – née Damásio –, amiga íntima com quem a aniversariante cortou relações.

Costuma dizer-se que de dinheiro não se fala, mas esse é, retomam os críticos, um dos pecados de Saviotti. Uma das inspirações, assume, é a ex-mulher de Donald Trump, a socialite e self-made woman Ivana Trump. Novo-riquismo, resumem. Não se sabe ao certo quanto custou o festejo, mas os valores andam nas centenas de milhares de contos. O Independente arrisca 300 mil para 10 horas de festa. «Maria João», lê-se, «é daquelas mulheres que pensam que já não há barreiras, muito menos barreiras inultrapassáveis. No Portugal de hoje, nesta democracia do sucesso, é capaz de ter a verdade na mão».

LET’S LOOK AT THE PRODUCTIONS 

Podia ser uma cena de ficção. O aspirante a argumentista que espera à porta da rádio para entregar os seus textos ao rei da comédia. A resposta simpática mas vazia. O desânimo e a persistência. Podia, mas é realidade.

«O Herman [José] recebia dezenas de candidaturas», lembra Nuno Artur Silva (NAS). «Acabo o curso, vou dar aulas de português e sigo com as minhas coisas.» Já na faculdade criara um grupo de teatro e escrevera peças com o futuro jornalista Rui Cardoso Martins. Em 1990, através do jornalista Pedro Rolo Duarte, reúne-se com o director de programas da RTP, José Nuno Martins, mas nada. E, em 1991, mais uma «daquelas coisas malucas que eu fazia», Nocturnos.

Num Jardim Botânico às escuras, o público segue guiado por lanternas. Aqui e ali, surpresas. Uma performance da bailarina Vera Mantero. Mário Cesariny a dizer um poema seu. Ao final da noite, aparecem os actores Miguel Guilherme e José Pedro Gomes: «Tu é que és o Nuno Artur? Vamos ter um programa com o Joaquim Letria. Precisamos de alguém que escreva um sketch por semana».

António Feio substituirá Miguel Guilherme, mas NAS mantém-se. Até que é Herman José que quer conhecê-lo. Depois de O Tal Canal, Hermanias, Humor de Perdição e Casino Royal, está cansado de escrever. Prepara um concurso, Parabéns, e quer arrancar com um monólogo. «Pergunto quem são os outros. E ele, “quais outros? Desenrasca-te”», lembra.

"O 'gandanóia' vinha de 'paranóia'. Era uma coisa da malta do surf, que ouvi um dos meus alunos da António Arroio. O Marques Mendes fazia bodyboard e lembrei-me."
José de Pina

Quando dá por si, também está a escrever as entrevistas históricas e As Músicas do Herman na Rádio Comercial. Aflito, recorre aos amigos: José Miguel Viterbo, que conhecia do Liceu Pedro Nunes, Rui Cardoso Martins, da faculdade, e José de Pina, do prédio em frente, em Campolide. «Ele estava desesperado», diz Pina, formado em cinema, que às tantas se surpreende, «tu queres ver que eu dou para isto?» E reconhece, «O Nuno teve essa intuição. Digo-lhe que foi o meu Júlio Isidro».

De um dia para o outro, o telefone não pára. «Toda a gente queria uns miúdos para escrever», conta NAS. É altura de avançar. Deixa o ensino e, em 1993, passam a assinar Produções Fictícias (PF). «Tinha o nome na cabeça desde sempre.» Também é preciso tomar decisões. Por exemplo, compram uma máquina de escrever electrónica ou um computador? E contratar gente. Até porque, em 1994, criam para o Parabéns Herman Zap e Boião de Cultura.

Corta para: jantar em casa da radialista Margarida Pinto Correia, que insiste em apresentar o rapaz tímido de 22 anos que faz na CM Rádio As Aventuras de Abílio Mortaça, Vendedor de Enciclopédias a Nuno Artur Silva. Ainda a noite não acabou e já Nuno Markl foi convidado para colaborar com as PF. «Isso seria quando?», pergunta. «Amanhã, podes?», diz o outro. «Foi inacreditável», conta. «Tinha crescido a ver O Tal Canal».

Com Cardoso Martins no jornal Público, Markl dá por si entre Pina — «um lobo» — e as discussões «seinfeldianas» de Nuno Artur e Viterbo. «Uma vez estiveram horas a debater se era melhor o campo ou a praia. Tive de me retirar para a cozinha e ficar a olhar para uma chávena a rodar no microondas.» São maratonas de trabalho, muitas vezes madrugada dentro, na casa minúscula de NAS, nas Janelas Verdes, sem espaço para uma cama sequer. «Ele tinha um colchão encostado à parede, que empurrava para o chão.»

Anos decisivos Em ascensão, Nuno Artur Silva desafia o colega de faculdade Carlos Fogaça a fazerem das PF uma empresa. Instalam-se na Travessa da Fábrica dos Pentes, Amoreiras. E em 1996 e 1997 criam dois porta-aviões para a RTP, já com as privadas a todo o gás.

Primeiro, e depois do falhanço da SIC, uma versão do britânico Spitting Image: Contra-Informação, cinco minutos diários de sátira política e social, criados por Pina e Cardoso Martins. Virá destabilizar o duo o enfant-terrible João Quadros

Na estreia, em Abril de 1996, Toneca Guterres, Martelo Rebelo de Sousa, Manuel Escuteiro e Dona Odete discutem a regionalização. A galeria incluirá dezenas de figuras, de Acabado Silva e Bimbo da Costa ao mini Marques Pentes, sempre a exclamar «gandanóia, chefe!».

Herman Enciclopédia, Contra-Informação, O Homem Que Mordeu o Cão, Major Alvega e Gato Fedorento são apenas alguns dos êxitos que saem das Produções Fictícias, a agência criativa que começa num T0 nas Janelas Verdes e acaba a escrever grande parte do humor e ficção portugueses dos anos 90 e seguintes.

Em 1997, é a vez de Herman Enciclopédia, que NAS — então, consultor criativo da RTP — o convence a fazer em troca de um talk-show. O desafio reúne a equipa toda mais sangue novo: Maria João Cruz, Eduardo Madeira e Filipe Homem Fonseca. Há personagens de Herman Zap, outros são novidade, como o Diácono Remédios, eternizado na frase da mãe do humorista, «Ó filho, não havia necessidade…»

«O Herman estava desesperado. Não queria um padre, porque era demasiado», conta José de Pina. «Vou àquelas conversas de preparação para o casamento e aparece um senhor que diz, “Quero já avisar que não sou padre, sou diácono”». Mal pode, liga a Nuno Artur, «acho que temos a solução!».

Herman Enciclopédia é arrasado pela crítica. Preocupado mas optimista, o director geral das PF acha que é uma questão de tempo. E é. Bordões como «Este homem não é do Norte» e «Let’s look at the trailer» passam a ouvir-se na rua.A imprensa também se converte. Com a segunda temporada nomeada para os Globos de Ouro da SIC e achando que não tem hipótese, Herman pede a Vítor de Sousa que vá por ele. Para as PF só há dois lugares, mas NAS tem uma ideia.

Herman enganara-se e ganha mesmo. Quando, no Coliseu dos Recreios, se levantam para aceitar o prémio Vítor de Sousa e uma loiraça de vestido transparente, o espanto é geral. «Olá! Eu sou a Helen e vim representar as PF», lê de um guião a modelo contratada por Nuno Artur. «Como, nesta gala, as pessoas querem, sobretudo, ver e ser vistas, os rapazes das PF não se sentem fisicamente à altura, e entenderam que o melhor contributo que podiam dar era a minha presença. Aliás, sugerem que outros nomeados mais feios que eles sigam de futuro este exemplo.»

Com o nome nas bocas do país, as PF vivem o seu melhor momento. Em 1998 entra um jovem «muito bom», conta Nuno Artur. Markl lembra-se de dar de caras com um desconhecido a contar uma história de família, já com personagens e vozes. «Comecei a rir até às lágrimas», diz. «“Quem é este gajo?”»

O director junta o novato, Ricardo Araújo Pereira, a Markl e Quadros em Herman 98, o tal talk-show. Entretanto, concretiza o sonho de entrar na ficção, com Major Alvega, escrito por Pina e Homem Fonseca. Além dos programas de Herman, segue-se um sem fim de êxitos, de Conversa da Treta e Bar da Liga a Manobras de Diversão, já no século XXI. Também os talentos se multiplicam: Miguel Góis, José Diogo Quintela, Nuno Costa Santos, Tiago Rodrigues, Bruno Nogueira, Joana Marques, etc, etc. Em 2010, criam o Canal Q, no cabo

A solo Entre mil projectos, surge um imprevisto na repartição dos egos. Os autores sentem que o nome das PF se sobrepõe aos seus. «Disse-lhes, “para seres falado, tens de ser performer”», conta NAS. «O Markl era conhecido por causa de O Homem que Mordeu o Cão [na Rádio Comercial], os “Gatos” [Gato Fedorento] ficam famosos quando aparecem». «É como as bandas. O pessoal começou carreiras a solo», diz Pina. Noutra perspectiva, Markl lamenta os cortes de relações. «Foi quase como ver os pais separarem-se. Eu fui o desgraçado que continuou a dar-se com todos».

Para a história, fica a primeira agência criada a partir da escrita. «Inscrevemos qualquer coisa na cultura pop dos anos 90 e início do século», diz NAS. «Ainda é tão bizarro como funcionou», conclui Markl. «É quase uma fábrica de comédia, com os seus funcionários e horário. Tenho óptimas memórias. Rádio Comercial, Produções Fictícias: há uma parte do que sou que é isto.»

«TENHO 22 ANOS E ESTOU INVÁLIDO»

O treinador Bobby Robson trá-lo para o Sporting como uma grande esperança mundial. De forma trágica, a noite em que os jogadores se despedem do Mister torna-se também a do adeus de Cherbakov ao futebol profissional.

Presunto e queijo da Serra, santola recheada e arroz de marisco, manga e fruta da época. Nas bebidas, «não mais de 12 garrafas» de vinho branco, garante um dos empregados do Porto de Santa Maria, mais os digestivos. O jantar de terça-feira, 14 de Dezembro de 1993, no Guincho, é uma homenagem ao treinador do Sporting, Bobby Robson. Os jogadores não se conformam com o despedimento súbito, ditado pelo presidente Sousa Cintra, depois de eliminados da Taça UEFA. No campeonato, seguem em primeiro, a par do Benfica, com quem jogam sábado.

"Na madrugada de 15 de Dezembro, o adorado Cherbakov, o prodígio de 22 anos, o ucraniano sozinho em Lisboa, faz tudo errado. Pega no carro alcoolizado, não põe o cinto de segurança, sobe a Avenida da Liberdade em excesso de velocidade, até que, à passagem do terceiro sinal vermelho, um Renault Clio vindo do Conde Redondo lhe bate de lado."

Um dos mais próximos de Mister Robson é Serguei Cherbakov, melhor marcador do Mundial sub-20 de 1991, que o britânico vai buscar a um modesto clube ucraniano, o Shakthar. Nesta noite, volta a encorajá-lo, «Daqui a 10 anos regressas como um rei à tua terra». E repete, «Se tiveres juízo…»

Há discursos e lágrimas. Já passa da meia-noite quando os jogadores se separam do ex-treinador. Cherba, como lhe chamam amigos e adeptos, volta com Balakov a Alvalade, onde deixara o carro. O búlgaro convida-o para ir lá a casa, mas o jovem quer sair. Liga a Yuran e Kulkov, os amigos russos do Benfica, que lhe dizem que não podem, que sábado têm um jogo importante.

Já no Renault 21 de 1988, o médio sportinguista dirige-se para o Fontória, na Praça da Alegria. Nessa noite há ballet húngaro com um «incipiente striptease». Depois do fecho, pelas três da manhã, atravessa até ao Maxime, onde encontra um amigo. Entre whiskies e cervejas, despedem-se já passa das quatro. Deixará o bar perto das cinco. «Toda a gente sabia que o Cherba saía todas as noites e que bebia», lembraria um companheiro. «Mas ele dava-se bem com toda a gente.»

Só que na madrugada de 15 de Dezembro, o adorado Cherbakov, o prodígio de 22 anos, o ucraniano sozinho em Lisboa, faz tudo errado. Pega no carro alcoolizado, não põe o cinto de segurança, sobe a Avenida da Liberdade em excesso de velocidade, até que, à passagem do terceiro sinal vermelho, um Renault Clio vindo do Conde Redondo lhe bate de lado. «Não tenho tempo de reacção, porque ele vem muito depressa», diz o condutor, José Lameiras, animador da TSF. O Renault 21 desliza, dá uma volta de 180º e vai bater numa carrinha parada no vermelho, do outro lado da avenida. Lá dentro, Cherba anda aos tombos.

O socorro é rápido mas serve de pouco. Pouco depois de às 5h43 dar entrada no Hospital de São José, o diagnóstico é devastador: está paraplégico. Tem lesões irreversíveis na oitava e nona vértebras dorsais, além de um pneumotórax e hemorragias no abdómen. A notícia espalha-se depressa. Porfírio e Balakov estão entre os primeiros a chegar. «Porfírio, tenho 22 anos e estou inválido», desabafa. É Yuran quem telefona ao pai. O director clínico do Hospital, Sá Figueiredo, é o mais optimista possível: «É jovem, há muito que contar com a capacidade física dele e com a vontade de vir a andar. Agora, jogar futebol não prevejo».

Sábado, antes do início do dérbi na Luz, Cadete exibe a camisola de Cherbakov, a multidão emociona-se e o primeiro golo é de Figo, que celebra em sua honra. Mas os leões acabam derrotados por 2-1.

O que se segue é doloroso a todos os níveis. O Sporting deixa logo de lhe pagar. O Independente avança que é o clube quem informa a seguradora da taxa de alcoolemia de 0,78 gramas por litro, impedindo a indemnização. Em Janeiro há um jogo de solidariedade, mas as receitas são parcas para o necessário. Amigos e Robson juntam-se para ajudar o ex-futebolista. Os progressos são lentos e poucos.

«Ele chegou como jogador extraordinário com um futuro brilhante mas voltou para casa como um jovem de 22 anos confinado a uma cadeira de rodas para o resto da vida», lamentará o treinador britânico na sua autobiografia. «E estava eu preocupado por ter sido despedido.»

EM ESTADO DE SÍTIO

O buzinão na Ponte 25 de Abril e as manifestações dos estudantes são apenas a face mais visível da insatisfação. Na primeira metade da década, o país torna-se um campo de batalha com um inimigo comum, o Governo.

Guerra da Fruta

Os protestos começam em 1989. Agricultores do Oeste manifestam-se contra a fruta importada enquanto a portuguesa apodrece nos armazéns. Em Outubro, vão de tractor a Lisboa, à margem de qualquer confederação. E logo em Janeiro seguinte o ministro da Agricultura, Álvaro Barreto, sai do Governo, o sexto de que faz parte. As manifestações sucedem-se à medida do impacto da liberalização no mercado. Em 1991, liderados pela Confederação Nacional de Agricultura (CNA), com influência do PCP, vitivinicultores despejam vinho no Terreiro do Paço. No ano seguinte é a Confederação de Agricultores de Portugal (CAP), mais à direita, a manifestar-se contra a Política Agrícola Comum (PAC). Em 1993, os protestos espalham-se pelo país e culminam com milhares em Lisboa, onde em vez do primeiro-ministro os espera a polícia. Portugal é o país mais rural da CEE, com uma população agrícola familiar de quase dois milhões (20%), mas onde as despesas são das mais elevadas. Os agricultores sentem-se incapazes de competir e reivindicam melhores condições de produção. Cavaco diz que pedem «o impossível».

Guerra dos Porcos

Começa com um bloqueio da auto-estrada do Norte. Seguem-se cortes na zona de Vila Franca de Xira. É uma decisão de suinicultores de todo o país, reunidos em Outubro de 1993 no Montijo. Por causa das importações, o sector «está à beira da ruína total». Em Famalicão, há quem pegue fogo a um pesado dinamarquês carregado. Horas antes, já a GNR tivera de escoltar até Lisboa um camião espanhol, interceptado perto de Vendas Novas. «Pois que puseram a gente na CEE, que ponham factores de produção iguais aos dos nossos parceiros comunitários», reivindica um suinicultor alentejano, dando voz aos demais. Do Governo não vêm respostas. Quanto aos 106 milhões de contos de apoios europeus, o ministro Arlindo Cunha diz que serão distribuídos depois da reorganização do sector.

Guerra do Carapau

De novo as importações e a liberalização do mercado. Na lota de Matosinhos, a «rebolta [sic] é espontânea». Em Julho de 1994, pescadores de arrasto exigem a demissão do ministro Azevedo Soares. «Em Espanha têm subsídios e regalias que lhes permitem colocar o peixe no mercado a um preço-base com o qual não podemos competir», explica um dirigente sindical. Basta ver. Em 1993, o carapau está a 168$00/Kg (menos 72% que em 91), mas o espanhol sai por 120$00/Kg. Perderam o rasto aos subsídios comunitários e, enquanto em Portugal se abatem embarcações, aqui ao lado preparam-se para receber 1400 novos barcos, prevêem a modernização de 1800 e a reabilitação de 900 abandonados. Sem contar com o investimento de 900 milhões de pesetas.

Guerra do Lixo

Em Julho de 1994, a população de Sines faz um ultimato à ministra do Ambiente: retirem-nos da lista de possíveis locais para um incinerador de resíduos tóxicos, se não «Poderá contar, muito em breve, com “Pontes” em Sines e arredores», em referência ao buzinão. Teresa Patrício Gouveia diz que não cede a pressões. Semanas antes, o medo de um aterro industrial perto de Oliveira do Bairro e Vagos levara ao boicote das eleições europeias. Ao todo 14 mil eleitores, se lhes juntarem os habitantes de três aldeias da zona de Setúbal, a pedirem água canalizada.

ONDA ROSA

Nas legislativas de 1995, o país vota na mudança.

É a maior vitória socialista de sempre. Com 43,76% dos votos contra 34,12% do PSD, António Guterres torna-se em 1995 chefe do Governo de Portugal, o primeiro do PS desde 1983. Ao fim de anos de campanha interna e uma inteligente caminhada até às eleições de 1 de Outubro, vai buscar 1 milhão e 300 mil votos ao eleitorado flutuante. Gente que em 1991 votara em Cavaco Silva, nos pequenos partidos, abstivera ou ainda não tinha idade para votar. Ao todo, são mais 40 lugares na Assembleia da República, que lhe permitem governar à-vontade. Outro vencedor é o PP de Manuel Monteiro, que triplica os deputados. Quanto ao principal derrotado, Fernando Nogueira, assume a derrota por inteiro, embora carregue o peso de uma década de cavaquismo. «Sendo a diferença de dez pontos, a conclusão pode ser outra e bem mais consoladora: o desejo de mudança era tão forte no eleitorado que nenhum outro líder possível do PSD teria vencido», analisa o semanário Expresso.

«O Homem que ganhou as eleições»

José Sócrates desafia-o para uma campanha pro bono sobre ecologia. Depois, convida-o para almoçar com o secretário-geral do PS. Há pouco tempo em Portugal, o brasileiro Edson Athayde, de 24 anos, vai ao engano. «O chefe dos secretários?», pensa. «Que país estranho…»

«Foi em 1991. Só a meio do almoço percebi que “secretário-geral” é o presidente do partido. Falámos sobre comunicação, marketing político. O [António] Guterres gostou e convidou-me para almoçar de tempos a tempos. Sempre no Conventual, na Praça das Flores. Foram três anos nisto. Tornou-se um amigo, um irmão mais velho.

Ele ouvia muito. Gostava de perguntar. Aí, em ‘94 falou, “queria que fizesse a minha campanha”. [Na publicidade], ligar-se a um partido era um problema. Uns 80% da facturação da Young & Rubicam (Y&R) vinham de clientes ligados ao Estado. Mas não proibiram. Respondi ao PS, “até posso aceitar, mas não recebo”. Não queria ser mandado. E andava entre Barcelona e Madrid [na direcção da Y&R Espanha].

O Guterres pediu-me para ver um tempo de antena e detestei: “Iluminação errada, não tem teleponto, não escreveu a coisa antes. É de fugir. Obrigado, mas não.” No dia seguinte, o [Jorge] Coelho liga-me, “você vai ser o responsável. Contrata quem quiser.”

"Na tarde das eleições, fui do aeroporto de Lisboa para o Altis. O meu amigo João Gobern tinha ficado de entrar comigo. Não sabia que não podia, por ser jornalista. Saio do elevador, tinha aparecido a projecção da SIC e estavam batendo palmas. O Guterres vira-se para ver quem estava entrando e diz, “palmas para o homem que ganhou as eleições”. Antes de o tirarem dali, o Gobern tomou nota e depois publicou."
Edson Athaíde

Quando fiz o primeiro cartaz só não doeu tanto porque andava ocupado com meus anúncios. Era uma foto do Guterres a preto e branco com uma frase enorme, “O homem que sabe o que quer para o país”. Só me lembro do Coelho, “Você não imagina o que fez”. E ria. “Agora todo o mundo sabe que o secretário-geral do PS se chama Guterres”. Havia um déficit de notoriedade. Falei, «O próximo a gente faz mais fofinho».

Fiquei responsável pelos cartazes e tempos de antena. Introduzi um registo mais videoclipado. Tínhamos de ter um tema, as cores nacionais. Alguém falou, “A gente está usando, ‘pela nova maioria’”. E eu disse, “A nova maioria é nossa”. O “nossa” é o povo. “[o cartaz] vai ter só povo.”

Eles fizeram uma pesquisa sobre o que preocupava os portugueses. Primeiro, emprego; segundo, trabalho. A maioria achava que emprego e trabalho eram coisas diferentes. Em oitavo ou nono, a educação, a paixão do Guterres. “Então fala da educação e de uma das consequências, que é a qualificação dos jovens para o mercado de trabalho. Sem se perceber, está falando de economia, de emprego. Talvez até de trabalho”.

Na altura, o país era mais ágil, com menos níveis de aprovação. O Guterres nunca aprovou nada. A única peça pré-aprovada foi a última, porque as eleições não foram fáceis. Comecei a escrever, a escrever. Ele é uma figura racional, mas muito humana. E ficou, “Razão e coração”. Fui até o Largo do Rato [sede do PS] e o [António José] Seguro achou esquisito. Entra o Coelho e fala, “puta que o pariu!” Liga para o engenheiro, “Aprova? Está aprovado”. E, para minha surpresa, foi mega. Era o zeitgeist [espírito do tempo]. Estávamos a sair da tecnocracia por uma outra coisa. Só esteve na rua uma semana.

Na tarde das eleições, fui do aeroporto de Lisboa para o Altis. O meu amigo João Gobern tinha ficado de entrar comigo. Não sabia que não podia, por ser jornalista. Saio do elevador, tinha aparecido a projecção da SIC e estavam batendo palmas. O Guterres vira-se para ver quem estava entrando e diz, “palmas para o homem que ganhou as eleições”. Antes de o tirarem dali, o Gobern tomou nota e depois publicou.»