(c) 2023 am|dev

(A) :: Epic Fury, zero resultados

Epic Fury, zero resultados

No plano estratégico, o ponto mais relevante é que, apesar de danos significativos infligidos ao Irão, não há evidência clara de que os objectivos centrais tenham sido atingidos.

Rui Martins
text

Quando Pete Hegseth declarou que os Estados Unidos tinham alcançado uma “vitória decisiva” sobre o Irão, a afirmação soou mais a um slogan político do que a uma descrição séria do resultado estratégico. Não apenas para os críticos da administração Trump, mas para qualquer analista que compare os objectivos declarados com os resultados observáveis no terreno. A questão central mantém-se, contudo, bastante simples: o que mudou, de forma concreta e favorável para Washington e para o mundo, depois deste conflito?

A Operação Epic Fury foi, muito provavelmente, um dos conflitos mais caros por dia da história militar dos EUA. O CSIS estimou cerca de 3,7 mil milhões de dólares nos primeiros quatro dias: perto de 900 milhões por dia (!). Nas semanas seguintes, outras estimativas colocaram o custo total entre 22 e 31 mil milhões de dólares nas primeiras cinco semanas, com projecções que apontam para valores na ordem dos 50 mil milhões. Importa, no entanto, ser preciso: os números iniciais mais baixos cobriam sobretudo munições e não a totalidade dos custos operacionais, logísticos e de perdas.

Mas a factura deste conflito não é apenas financeira. O consumo de mísseis interceptores foi suficientemente elevado para levantar dúvidas sérias sobre o estado de prontidão americana noutros teatros. Estimativas indicam que os EUA dispararam cerca de 198 interceptores THAAD nos primeiros 16 dias, o que poderá corresponder a uma parte substancial do stock disponível antes do conflito. Outros sistemas, como os SM-3, também foram utilizados em volume relevante. O ponto essencial é claro: o ritmo de consumo expôs limitações industriais e logísticas, mesmo que não seja possível afirmar, com rigor, que o stock total teria sido esgotado em poucas semanas caso o conflito se prolongasse. Existe ainda um problema estrutural de reposição. As entregas de interceptores THAAD para os EUA atravessam um hiato prolongado, com lacunas identificadas entre 2023 e 2027, apesar de planos de aumento de produção. Isto significa que parte do material consumido não será rapidamente substituído, criando pressão sobre a capacidade de resposta futura neste e noutros cenários.

Também no plano de equipamentos estratégicos houve impactos relevantes. Sistemas de radar AN/TPY-2 (cada um com custo próximo dos 485 milhões de dólares e tempos de produção de vários anos) foram danificados ou destruídos em operações no Golfo. Em alguns casos, a extensão dos danos permanece incerta, mas o efeito agregado é inequívoco: degradação de capacidade que não é rapidamente recuperável.

O custo humano directo também existiu e não pode ser negligenciado com ligeireza: As estimativas mais consistentes apontam para 13 militares americanos mortos e mais de 350 feridos. Não se trata de perdas massivas à escala de guerras anteriores, mas são suficientemente relevantes para desmentir a ideia de um conflito “limpo” ou sem custos humanos.

No domínio aéreo, houve perdas confirmadas, incluindo pelo menos um F-35 danificado, 4 F-15s perdidos, 1 ou 2 C-130 bem como destruição ou danos de aeronaves em operações de combate e resgate. No entanto, não existe base sólida para afirmar números exactos elevados de aeronaves destruídas como dado fechado. O que se pode afirmar com segurança é que houve perdas materiais não negligenciáveis, incluindo em plataformas de elevado valor.

Se o custo para os EUA é mensurável, o impacto na economia global é mais difuso, mas igualmente significativo. Antes da guerra, cerca de um quinto do petróleo mundial transitava pelo Estreito de Ormuz. Após o conflito, os fluxos ficaram fortemente perturbados e ainda longe de uma normalização plena, com reduções substanciais na capacidade de transporte em determinados momentos.
O ataque iraniano ao complexo de gás natural de Ras Laffan, no Qatar, teve impacto particularmente relevante. Os danos retiraram cerca de 17% da capacidade de exportação de GNL do país, que representa aproximadamente um quinto do comércio global deste recurso. As estimativas apontam para um período de reparação entre três e cinco anos, com efeitos prolongados nos mercados energéticos.

O impacto propagou-se rapidamente. Os preços da energia subiram em várias economias, obrigando países a medidas de emergência. O Japão libertou reservas estratégicas de petróleo, as Filipinas declararam estado de emergência energética, e outros países asiáticos adoptaram medidas de contenção de consumo. A consequência mais consistente é um cenário de crescimento mais fraco e inflação mais elevada à escala global, ainda que com elevada incerteza nos números exactos.

Para além do petróleo, a disrupção afecta cadeias críticas. O Qatar é um dos principais produtores mundiais de hélio, essencial para semicondutores, e a região desempenha um papel relevante na produção de fertilizantes. O efeito combinado ultrapassa claramente o sector energético.

Num contexto destes, surgem também sinais de comportamento especulativo nos mercados. Investigações do Financial Times identificaram operações de grande escala em futuros de petróleo realizadas pouco antes de declarações públicas de Trump sobre negociações e cessar-fogo. Não há prova directa de ilegalidade, mas o padrão levanta dúvidas sobre assimetria de informação e antecipação de decisões políticas com impacto no mercado.

No plano estratégico, o ponto mais relevante é outro: apesar de danos significativos infligidos ao Irão, não há evidência clara de que os objectivos centrais tenham sido atingidos. É certo que o programa nuclear foi afectado, com instalações danificadas, mas não foi eliminado. Uma parte significativa do material enriquecido permanece não totalmente verificada, e a capacidade residual continua a ser uma incógnita.

Ao mesmo tempo, o núcleo do regime — o aparelho repressivo interno — permaneceu intacto. A destruição de meios navais e aéreos não altera substancialmente a capacidade de controlo interno. As estruturas de segurança, judiciais e paramilitares continuam operacionais, e a repressão interna prosseguiu, incluindo execuções relacionadas com protestos recentes.