Há uma pergunta que os analistas da política comercial americana evitam formular com clareza porque a resposta é desconfortável: se os tarifários de Trump não fecharam o défice comercial dos EUA — e não fecharam, permanece perto de um trilião de dólares —, qual era o plano B?
A resposta era o Golfo.
Quando Trump visitou Riade, Abu Dhabi e Doha em Maio de 2025, o que estava a ser construído não era apenas um espectáculo diplomático. Era a única alavanca real que a administração possuía para demonstrar melhoria mensurável na balança comercial americana durante este mandato. Os países do GCC comprometeram vários triliões de dólares em investimentos e compras nos Estados Unidos. Não em produtos genéricos — em inteligência artificial, defesa, aviação, infraestrutura tecnológica. Exactamente as categorias onde a América ainda tem vantagem competitiva real.
A lógica era coerente. A Arábia Saudita assinou um contrato de defesa de 142 mil milhões de dólares. A Humain, subsidiária do PIF saudita, fechou parcerias com a Nvidia e a AMD para construir infraestrutura de IA. O Qatar comprometeu-se a mais que duplicar os seus investimentos anuais nos EUA ao longo da próxima década. Estes não eram números de relações públicas. Eram encomendas reais a exportadores americanos em sectores onde os tarifários não conseguem produzir nada — porque não há capacidade instalada para substituir importações em chips avançados, sistemas de defesa de última geração, ou plataformas de inteligência artificial em quatro anos de mandato.
O quid pro quo implícito, formulado de forma directa por um economista citado pela Bloomberg, era simples: “Não ponham o Médio Oriente em chamas.”
A 28 de Fevereiro, Washington fez exactamente isso.
Observadores externos têm assinalado um fosso crescente entre as expectativas estratégicas do Golfo e as acções recentes de Washington. Kristian Coates Ulrichsen, do Baker Institute, observou que a região tinha estendido uma extraordinária boa vontade a Washington — financeira, política, simbólica — na expectativa de que os seus interesses centrais fossem considerados nas decisões americanas. O conflito começou menos de três meses depois de a Arábia Saudita ter elevado o seu pledge para um trilião de dólares.
Isto importa para além do registo diplomático. Do ponto de vista estritamente comercial, os pledges do Golfo eram o único instrumento credível através do qual a administração Trump poderia demonstrar melhoria real na balança comercial durante este mandato. Os tarifários falharam demonstravelmente na redução do défice estrutural. O reshoring de manufatura em sectores onde os EUA já não têm capacidade produtiva competitiva não acontece num ciclo político de quatro anos. Mas os fundos soberanos do GCC a dirigir capital para infraestrutura de IA americana, procurement de defesa e tecnologia energética poderia ter gerado ganhos de exportação mensuráveis em 24 meses.
Essa janela está agora sob pressão severa.
A dimensão tecnológica é particularmente significativa. Os programas Vision do GCC — a Vision 2030 saudita, a UAE 2031 — tinham identificado IA e infraestrutura digital como eixos centrais da transformação económica regional. O envolvimento americano não era periférico: estava arquitectonicamente integrado. As parcerias da Humain com designers de chips americanos, os compromissos da AWS e Microsoft na região, as cadeias de fornecimento de semicondutores em discussão — tudo isto pressupunha um ambiente operacional estável.
A instabilidade regional prolongada força os gestores de programa da Vision 2030 e da UAE 2031 a decisões que prefeririam não tomar: como garantir a continuidade de fornecimento crítico quando um parceiro tecnológico central opera num quadro geopolítico imprevisível. Não é uma questão de preferências estratégicas — é gestão básica de risco de infraestrutura. E é uma questão que reorienta o foco para a resiliência doméstica e a segurança energética regional, precisamente no momento em que o investimento externo na economia americana ganhava momentum.
Trabalho com esta região há mais de uma década, em tecnologia e telecomunicações. O que distingue os países do GCC de quase todos os outros mercados emergentes é a velocidade e seriedade com que transformam intenção em execução quando as condições o permitem. O comprometimento com IA e infraestrutura digital é real, financiado, e estrategicamente urgente. Mas exige estabilidade. E exige um parceiro que entenda que as relações do Golfo se gerem em horizontes de décadas, não de ciclos eleitorais de quatro anos.
O défice comercial americano permanece perto de um trilião de dólares. A única alavanca credível para o mover ficou comprometida a 28 de Fevereiro. E os países do Golfo — pragmáticos por definição — estão a avaliar as suas opções com a frieza habitual.
Se Trump quiser mesmo os triliões do Golfo, tem de fazer uma coisa que não estava nos seus planos: garantir a paz no Médio Oriente. Não por convicção. Por aritmética.