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(A) :: Negociações EUA-Irão arrancam no Paquistão. Quem vai, o que está em cima da mesa e quais os possíveis resultados?

Negociações EUA-Irão arrancam no Paquistão. Quem vai, o que está em cima da mesa e quais os possíveis resultados?

Islamabad acolhe primeira ronda de negociações entre Washington e Teerão. Estreito de Ormuz, programa nuclear iraniano e libertação de cidadãos norte-americanos são pontos que estarão em cima da mesa.

Manuel Nobre Monteiro
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Islamabad, capital do Paquistão, prepara-se para receber, durante este fim-de-semana, as negociações, que prometem ser históricas, entre o Irão e os Estados Unidos. Apesar dos ataques contínuos de Israel contra o Líbano, e num momento em que foi estabelecido um cessar-fogo de duas semanas entre Washington e Teerão, as autoridades paquistanesas insistem que as negociações de paz vão prosseguir, tal como previsto.

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As primeiras delegações chegaram entre a noite desta quinta e a manhã desta sexta-feira para realizarem reuniões preparatórias. Oficialmente, a primeira ronda de discussões terá lugar no sábado. Eis cinco respostas para entender a dinâmica dos próximos dias.

Quando e onde serão as reuniões?

As negociações oficiais têm início marcado para a manhã de sábado, em Islamabad, na sequência de um convite formal feito pelo primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, que assumiu um papel ativo na tentativa de mediar o conflito.

De acordo com a Al Jazeera, o local escolhido é o Serena Hotel, situado na zona diplomática da capital, conhecida como “Red Zone” (Zona Vermelha, em inglês). Trata-se de uma área altamente segura, onde se concentram os ministérios e as instituições do Estado paquistanês. O hotel foi reservado na totalidade para acolher as delegações, tendo os hóspedes sido obrigados a sair do edifício durante esta semana.

As autoridades do Paquistão decretaram, ainda, feriados locais para reduzir a circulação na cidade, enquanto as forças de segurança reforçaram o controlo e fecharam as principais ruas na zona, com o objetivo de garantir a máxima segurança.

Embora a primeira ronda de negociações decorra este fim de semana, o Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irão admitiu a possibilidade de as negociações se prolongarem por até 15 dias, com novas reuniões em Islamabad.

Quem vai estar presente nas negociações?

A delegação norte-americana será liderada pelo vice-Presidente, JD Vance. Donald Trump encarregou um dos seus mais próximos aliados — e considerado um dos mais céticos face à intervenção militar — de procurar uma solução diplomática para o conflito iniciado a 28 de fevereiro.

Em declarações aos jornalistas esta sexta-feira, o vice-líder dos Estados Unidos afirmou estar “entusiasmado com a negociação” para um acordo de paz com o Irão. “Como disse o Presidente dos Estados Unidos, se o Irão estiver disposto a negociar com boa-fé, estamos dispostos a estender a mão. Mas se nos tentarem enganar vão ver que a equipa de negociação não será assim tão recetiva”, disse, na Base Aérea Andrews, no estado de Maryland.

Vance irá estar acompanhado pelo enviado especial de Trump, Steve Witkoff, e Jared Kushner, figura influente em anteriores negociações no Médio Oriente, como o cessar-fogo entre o Hamas e Israel, no final do ano passado.

Do lado iraniano, a representação será assegurada pelo presidente do parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, antigo comandante da Guarda Revolucionária, e o ministro dos Negócios Estrangeiros, Abbas Araghchi.

Segundo a Al Jazeera, a eventual presença de membros da Guarda Revolucionária Islâmica — que tem liderado a resposta militar iraniana — permanece incerta, o que poderá influenciar o peso político das decisões tomadas nas negociações.

Por fim, do lado paquistanês, além do primeiro-ministro, Shehbaz Sharif, é esperada a participação do ministro dos Negócios Estrangeiros, Ishaq Dar, e possivelmente do chefe do exército, Asim Munir, que tem desempenhado um papel importante nos contactos diplomáticos.

Como serão as negociações? O que está em cima da mesa?

O mesmo jornal adianta que as negociações deverão decorrer num formato indireto, com as delegações norte-americana e iraniana em salas separadas. Membros do Governo paquistaneses atuarão como intermediários, levando propostas e contrapropostas entre os dois lados. Este é um modelo já utilizado noutros contextos de tensão diplomática.

O Irão apresentou um plano de dez pontos que inclui, entre outras exigências, o controlo do Estreito de Ormuz, a retirada das forças norte-americanas do Médio Oriente e o fim das operações contra os grupos aliados de Teerão, como o Hezbollah.

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Os Estados Unidos, por seu turno, insistem na eliminação do programa nuclear iraniano, nomeadamente através da entrega do stock de urânio enriquecido. Esta é uma condição considerada essencial para Washington, mas que Teerão não está disposta a aceitar.

Outro ponto decisivo será a libertação de cidadãos norte-americanos detidos no Irão, algo que a administração Trump tenciona pedir, avançou o Washington Post. Citando fontes próximas, o jornal norte-americano explica que, caso as negociações se revelem difíceis, há preocupação quanto à eventualidade de o pedido ser adiado.

Acredita-se que haja pelo menos seis cidadãos norte-americanos sob custódia iraniana. A Casa Branca afirma ter esperança de que, apesar de haver a probabilidade de estes cidadãos terem sido levados pelo Irão para serem usados como moeda de troca em futuras negociações com Washington, sejam libertados como um gesto de boa vontade por parte de Teerão.

Numa declaração que denuncia a “longa e vergonhosa história de Teerão de deter injustamente cidadãos norte-americanos e outros cidadãos estrangeiros”, o Departamento de Estado dos Estados Unidos exortou o Irão a “libertar imediatamente todos os norte-americanos” detidos no país.

Porquê no Paquistão?

Quando o anúncio de um acordo de cessar-fogo entre os EUA e o Irão chegou às redes sociais de Donald Trump e Abbas Aragchi, na noite da passada terça-feira, os dois lados saudaram os esforços do mesmo homem: Shehbaz Sharif. O primeiro-ministro do Paquistão terá sido o responsável pela mediação que resultou na abertura do Estreito de Ormuz esta quarta-feira e a suspensão das hostilidades entre os dois países.

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Como intermediário nas negociações entre os Estados Unidos e o Irão, o primeiro-ministro paquistanês apostou na boa relação com o Irão, muitas vezes referido como um “país irmão”. A proximidade geográfica, com uma fronteira de cerca de 900 quilómetros com o Irão, e a presença de uma significativa população xiita reforçam a sua posição como interlocutor credível para Teerão.

Simultaneamente, Donald Trump mostra-se satisfeito com o trabalho do chefe das forças armadas paquistanesas, Asim Munir, afirmando que este conhece o Irão “melhor do que a maioria”. O país mantém estatuto de aliado estratégico dos Estados Unidos fora da NATO, o que facilita o diálogo com Washington. O facto de não acolher bases militares norte-americanas também contribui para a perceção de neutralidade.

De acordo com o The Guardian, o vice-ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Saeed Khatibzadeh, garante que as intervenções do Paquistão para manter a paz e o cessar-fogo têm continuado nos bastidores, afirmando que o Paquistão interveio para impedir que o Irão retaliasse contra os ataques ao Líbano.

Quais são os possíveis resultados destes encontros?

Apesar da importância das reuniões deste fim-de-semana, um acordo definitivo é visto como improvável a curto prazo. A desconfiança entre as partes mantém-se elevada, agravada por episódios recentes, como os ataques israelitas no Líbano, que ameaçam fragilizar a trégua.

Ainda assim, especialistas ouvidos pela Al Jazeera admitem a possibilidade de progressos limitados. Entre os cenários mais esperados estão um entendimento parcial sobre o programa nuclear iraniano ou um acordo para reabrir o Estreito de Ormuz, essencial para estabilizar os mercados.

O maior obstáculo poderá ser precisamente Israel, que continua a ter um papel ativo no conflito. “Israel está a agir como um sabotador para destruir o processo [de paz]”, afirmou Masood Khalid, antigo embaixador do Paquistão na China. “O seu ataque implacável do Líbano visa desencadear um cenário em que as partes endureçam ainda mais as suas posições e o processo seja sabotado. Nesta fase, só podemos estar cautelosamente otimistas, uma vez que as negociações serão certamente complicadas e poderão ter de ser prolongadas para além do prazo de 15 dias”, explicou.

Sahar Khan, analista e investigadora do Instituto de Assuntos Globais, afirmou que “a falta de confiança é o maior obstáculo”. “Neste momento, tanto Washington como Teerão estão a tentar demonstrar que ‘venceram’ ao fazerem exigências maximalistas, mas se este cessar-fogo se mantiver e eles se reunirem efetivamente, esse será o passo mais importante”

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