Depois de seis semanas retidos, devido ao bloqueio do Estreito de Ormuz pelo Irão em resposta à ofensiva militar dos Estados Unidos e de Israel, alguns dos 20 mil trabalhadores de petroleiros encurralados relatam exaustão psicológica, insegurança e até esgotamento nervoso.
Em entrevista ao The Guardian, um trabalhador admitiu que, face às condições de perigo, a maior parte da tripulação do navio em que se encontra não se atreveria a atravessar o Estreito, “mesmo que recebesse ordens para navegar”. O tripulante falou com o jornal britânico pela primeira vez há cerca de um mês, quando disse que qualquer esperança de uma partida iminente já se tinha dissipado, se é que alguma vez chegou a ser real.
“Dei o meu aviso prévio há exatamente um mês”, contou o marinheiro ao jornal. “Informei o comandante que não estou disposto a navegar pelo estreito. É uma questão de segurança, tudo se resume à segurança”.
O trabalhador contou que se pode “tentar minimizar o impacto que a situação tem na saúde mental”, mas que se está a tornar “impossível“. Há menos de duas semanas, quando um navio petroleiro do Kuwait carregado com 300 mil toneladas de petróleo foi incendiado por um míssil iraniano, a tensão a bordo terá atingido um novo patamar.
Após o ataque ao petroleiro Al-Salmi, a poucos quilómetros de onde se encontrava, o homem ligou para uma linha de ajuda pela primeira vez. “Estava um pouco sobrecarregado e não tinha a certeza se conseguiria lidar com o que estava a sentir. É importante para mim que os outros não me vejam chorar. Ajudou, pelo menos, desabafar com um estranho”, revelou.
Entretanto, um outro membro da tripulação do mesmo navio sofreu um esgotamento nervoso e está a ser acompanhado de perto pelos colegas. “Não tenho dúvidas de que este problema específico está a acontecer à nossa volta devido ao stress desta situação. As linhas telefónicas de apoio aos tripulantes estão a tentar ajudar, mas desde o início que todos sabíamos que não seria suficiente”.
A Federação Internacional dos Trabalhadores dos Transportes recebeu cerca de mil pedidos de tripulantes de cerca de 300 embarcações diferentes, de acordo com o The Guardian. A maior parte das preocupações dizia respeito a salários ou acesso a mantimentos, como alimentos e água, mas cerca de 20% das pessoas procurava repatriamento.
“Todos fazem o seu melhor para ajudar, mas o que realmente queremos é tirar as pessoas desta situação”, admite David Appleton, um responsável da Nautilus International, empresa que representa a tripulação de navios. “Para além do impacto psicológico que a ameaça de violência causa nas pessoas — o facto de se estar ali praticamente indefeso – há também a incerteza e a dúvida sobre quanto tempo é que isto vai durar”, acrescentou.
A deterioração da saúde mental dos tripulantes a bordo dos petroleiros encalhados no Golfo intensificou os apelos para que os responsáveis pelos navios substituam as tripulações por pessoas dispostas a trabalhar na região. As normas marítimas impedem que as companhias obriguem os trabalhadores a atuar em zonas de risco, mas há quem, por desespero, ainda aceite o trabalho, escreve o The Guardian.
A maioria dos potenciais substitutos, segundo um tripulante, são ucranianos, “homens que estão longe de casa e a gastar dinheiro em países europeus porque não podem regressar”.
“Não tenho condições mentais para realizar qualquer tarefa intensa depois de tudo isto. É a situação mais difícil em que já me encontrei”, contou ainda ao ao jornal britânico.