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Plano Nocional de Leitura (XLV)

Todos os leitores de Pessoa sabem que no fim de “O menino da sua mãe” o protagonista “jaz morto e apodrece.”   Mas antes de morrer o soldado era uma pessoa.

Miguel Tamen
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Dizemos que os poemas curtos tendem a ser lapidares e se calhar sem pensar muito achamos que mereciam ser gravados em pedra ou em bronze.  Mas lápides dessas são geralmente funerárias, o que, como vários autores alvitraram, torna as nossas celebrações poéticas, pelo menos as mais curtas, parecidas com epitáfios. Na sua grande maioria os epitáfios são descrições breves de pessoas de quem pouca gente se lembra, ou que podem nem ter existido; e isso também acontece com os poemas.

Um caso português famoso é o do poema “O menino da sua mãe”, de Fernando Pessoa, um poema de 1926 contra a guerra que descreve um soldado morto.  O soldado é um soldado desconhecido, excepto para as pessoas que o conheciam (no poema de Pessoa, a mãe e a criada).   Para quem lê poesia o conhecimento dos homenageados é menos importante que o ar de família entre os poemas; e por isso os desconhecidos e os epitáfios parecem-se todos uns com os outros.

O extraordinário embora menos conhecido “A morte do pescador”, de Vitorino Nemésio (1901-1978), publicado num livro em 1955, parece-se com “O menino da sua mãe.” O poema fala da morte de um pescador cuja alcunha é Mestre Negrinho; e “Menino da sua mãe” é também um nome “que a mãe lhe dera”. Há ainda uma outra semelhança entre o tom de Pessoa em “É boa a cigarreira. / Ele é que já não serve”, a propósito do soldado, e o trocadilho arriscado com que acaba o poema de Nemésio: “Era o Mestre Negrinho: / Agora, clareou.”  O humor dos dois é parecido.

Mas dois epitáfios podem parecer-se entre si e os seus autores estarem a falar de mortos de espécie diferente.   A diferença entre “já não serve” e “agora clareou” não é como a diferença entre um soldado e um pescador.  Na realidade os protagonistas de Pessoa e de Nemésio não pertencem bem à mesma espécie.  O pescador é uma mistura de espécies: “Levou a vida de cão / No seu coração de pomba / (Pobre até fede!): / Agora cheira a cação / E a neve tomba / No caixote que o expede.”   Ao contrário do soldado, nunca foi bem uma pessoa.

Todos os leitores de Pessoa sabem que no fim de “O menino da sua mãe” o protagonista “jaz morto e apodrece.”   Mas antes de morrer o soldado era uma pessoa; e como em quase todos os poemas contra guerra, morrer é deixar de ser uma pessoa. Ora no poema de Nemésio, exactamente ao contrário, o pescador só começou a ser uma pessoa quando “clareou.” Na primeira estrofe tinha sido expedido como uma carta; na última, porém, “alguém desceu um fio de linho / À cova aberta, e lá o pescou.”  Pode ser que Deus tenha sido o agente; mas o epitáfio de Nemésio não foi alheio à clarificação.