Os chimpanzés Ngogo, o maior grupo conhecido de chimpanzés selvagens do mundo, parecem estar presos no que pode ser a primeira ‘guerra civil’ alguma vez observada no mundo primata. E tem tanto de rara, como de violenta. Já dura há dez anos e a descoberta foi documentada por vários académicos num novo estudo publicado esta quinta-feira na revista Science.
Em 1995, cientistas começaram a acompanhar o grupo de chimpanzés Ngogo que vive no Parque Nacional Kibale, no Uganda. Na altura a sua população era de cerca de 100 num território de aproximadamente 26 quilómetros quadrados, o que, segundo os especialistas, representava uma densidade populacional impressionante – “Eles estavam por todo o lado”, diz John Mitani, primatólogo da Universidade de Michigan e um dos fundadores do Ngogo Chimpanzee Project, no New York Times.
O grupo continuou a crescer ao longo dos anos, sendo agora de cerca de 200 primatas. Até 2015, e como é costume nas relações intragrupais destes animais, os chimpanzés viviam harmoniosamente, sem conflitos significativos, “agiam como um só”, observa Mitani.
Embora já houvesse uma organização por comunidades – que os cientistas denominaram de clusters Ocidental, Central e Oriental – e cada chimpanzé tivesse uma afinidade mais próxima com cada um destes grupos, a verdade é que machos e fêmeas dos diferentes clusters acasalavam. Os machos de todos os aglomerados patrulhavam as fronteiras do território e caçavam juntos e chegaram mesmo a lutar contra um grupo vizinho de chimpanzés, expulsando-os e expandindo a área ‘sob domínio’ dos Ngogo.
Mas em junho de 2015, os ‘primeiros alarmes’ soaram: Mitani e Aaron Sandel, primatólogo da Universidade do Texas e coordenador do estudo, estavam a seguir machos do cluster Central quando estes se encontraram com outro grupo do cluster Ocidental. “De repente” uma luta começou, “foi um caos total”, recordou Mitani. Os chimpanzés ocidentais acabaram por fugir, com os chimpanzés centrais em perseguição atrás deles. Em retrospetiva esse momento foi o primeiro sinal do que se tornou um longo e sangrento conflito entre o grupo outrora unido, reflete Sandel, citado no The Guardian.
Inicialmente, pensaram tratar-se de uma situação pontual. Porém, os confrontos foram-se tornando regulares e a violência passou a ser sistémica, tão comum que os chimpanzés jovens manifestavam sinais de nervosismo só de ouvir os sons dos machos adultos ao longe. Em 2018, os confrontos tornaram-se mortais.
Os investigadores descobriram que os primeiros indícios de tensões surgiram em 2014, quando, cinco machos adultos morreram. Segundo Sandel “estas mortes abruptas provavelmente enfraqueceram as relações entre os clusters” e alteraram a estrutura social e hierárquica do grupo que o mantinha coeso e unido. “Depois houve também um surto de doenças em 2017 que possivelmente tornou a separação inevitável ou acelerou-a um pouco”, cita o The Guardian.
Em 2018, a separação consolidou-se – os chimpanzés ocidentais de um lado e os chimpanzés centrais (aos quais se ‘aliaram’ os orientais) do outro: não interagiam, não acasalavam entre si e ocupavam partes totalmente diferentes da floresta.
Com os dois grupos rigidamente estabelecidos, membros do grupo ocidental realizaram 24 ataques ao grupo central ao longo dos sete anos seguintes, matando pelo menos 17 primatas bebés e sete adultos desta fação, muito embora esta fosse, no início, numericamente superior.
Os números ultrapassam largamente tudo o que já se observou anteriormente entre chimpanzés, sublinham os especialistas. Para além de que, em consequência dos sucessivos ataques, “os chimpanzés centrais têm agora a menor taxa de sobrevivência alguma vez documentada numa comunidade selvagem de chimpanzés”, lembra Brian Wood, antropólogo evolutivo da Universidade da Califórnia, no The Guardian.
Com base em evidências genéticas, estas “guerras civis” entre chimpanzés provavelmente só ocorrem a cada 500 anos, mas a atividade humana, através da desflorestação ou alterações climáticas, por exemplo, pode tornar estes conflitos mais comuns, alertou Sandel.
Apenas uma vez antes se tinha observado algo semelhante. Nos anos 70 do século passado, a renomada primatóloga Jane Goodall documentou confrontos entre cerca de duas dezenas de chimpanzés do mesmo grupo, na Tanzânia. Mas como nos anos subsequentes não se registaram outros conflitos do género, classificou-se a situação como um acaso.
https://observador.pt/2024/07/12/situacao-dos-chimpazes-em-africa-e-hoje-pior-do-que-ha-60-anos-declara-jane-goodall/
*editado por Filomena Martins
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