Duas mulheres negras gloriosas descem a rua em passeios opostos. Uma delas empurra um carrinho de bebé e veste um vestido preto de alças que lhe descobre os pés. Tem um boné preto e um corpo atlético. A outra mulher é uma grávida em fim de tempo. Veste um vestido azul claro esvoaçante e um casaquinho cor de rosa, calça sandálias coloridas, tem as unhas dos pés pintadas da cor do batom. À espera de que abra o sinal para atravessar a passadeira, pousa as mãos na barriga.
Uma carregava o bebé acabado de nascer. A outra ia de esperanças, a iluminar a rua, com as suas tranças pelo meio das costas. Eu seguia dentro do carro, e fiquei-me a admirá-las. De onde teriam vindo as duas mamãs belas, mães daqueles pequenos portugueses, um na barriga, outro, pequenino, num dos seus primeiros passeios pela rua? Foi o tempo de abrir o semáforo vê-las passar a espalhar alegria. Transportavam a graça das novas mamãs. A que estava grávida ia tão importante, na sua tez jovem, carregando mistérios. Aquela que empurrava o carrinho, braços musculados, tão forte e serena.
Quatro da tarde e a Primavera anuncia-se nas primeiras andorinhas. A rua é migrante, como os pássaros que vão e vêm, e há quem leve a mal. Será que a rapariga de esperanças já escolheu o nome do seu bebé? Como será que se chama o bebé que segue no carrinho?
Quem decide o curso da vida dos imigrantes não chega a contabilizar a graça que difundem, as formas do cuidado que trazem de longe, curiosas e belas também por serem novas e diferentes. São belezas que vejo enquanto passo de carro. Logo deixo de as ver. Abre o sinal. Sigo.
Mas transporto-as comigo toda a semana. Penso naqueles dois meninos que elas levam e no país que os aguarda. Na beleza gratuita que espalham pela rua e na sorte de quem a apanha. A sua memória enche-me de força, tão formosas, tão seguras.
Mais uma grávida tem o bebé dentro da ambulância: na fotografia, lá estão os bombeiros amigos, bem-dispostos, risonhos, reparo que é uma mulher negra. Algumas desigualdades justapõem-se, convergem, ampliam-se.
Haverá pessoa mais abaixo na pirâmide do que uma mulher negra doente, incapaz de trabalhar?
Na fila de um self-service, uma mulher negra estrangeira é maltratada pela empregada negra mal-disposta, sem paciência para a indecisão da cliente sobre o prato que há de escolher. Apetece-me dizer alguma coisa, mas não chego a dizer. É uma impaciência performativa: a empregada fala-lhe, falando para os clientes portugueses que vêm atrás na fila. Na mesa, minutos depois, reparo que a cliente está com o marido e que o único prato que escolheu era para o seu filho, a quem dá de comer. Talvez tenham ido ao hospital ali perto. Têm um ar preocupado e deslocado. Pai e mãe não almoçam. Partilham fruta que trouxeram de casa.
Senhoras da limpeza dos centros de saúde da zona de Lisboa fazem greve, devido aos atrasos no pagamento dos salários. Ouço a porta-voz. Pararam — e os centros de saúde fecharam. É assim que me sinto, irmã das moças que descem a rua e das que parem em ambulâncias, daquelas a quem descontam no vencimento quando limpam as casas de banho dos doentes, das que são maltratadas nos restaurantes. Quem falará por elas? Mamãs que abrem a cidade.
Caminhando pela rua, sou uma delas. Entro no café para beber a bica, uma jovem negra dirige-se ao balcão e oferece-se para trabalhar na cozinha. Sai derrotada, depois de a dona do café dizer que não precisa de mais ajuda. Acompanho-a com os olhos. Pára à porta das lojas, avenida fora. Entra a medo e oferece o seu trabalho. Sou sua irmã, apenas tive sorte. Não me lêem neste jornal e no entanto sinto muitas vezes que a única tribuna digna seria a de eu saber como revelar aos outros precisamente a beleza que vejo nestas mulheres quando as vejo passar por mim e me ignoram ou, por ternura, me cumprimentam sem me conhecerem. Não falar por elas — mas ser capaz de dar a ver a sua força, a sua altivez, a sua grandiosidade, a sua enorme dignidade.