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(A) :: O que está em causa é mais importante do que Trump

O que está em causa é mais importante do que Trump

Quem preza o Ocidente e a democracia liberal deveria desejar uma vitória americana, independentemente do que pense de Donald Trump.

Rui Ramos
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A ditadura iraniana esteve sujeita, durante mais de um mês, a uma campanha aérea que eliminou quase todos os seus líderes e uma grande parte dos seus recursos militares. Ficou sem defesa aérea, e os mísseis e drones com que atacou foram, de modo geral, anulados pela defesa dos países vizinhos. Sofreu mesmo a humilhação de nem ter conseguido impedir os EUA de resgatarem dois pilotos bem dentro do seu território. Mas a ditadura mantém-se, e criou insegurança suficiente no golfo Pérsico para interromper a circulação marítima. Agora, aproveita a pausa da guerra para simular vitória. Era de esperar. O que talvez seja de admirar mais é a precipitação com que uma parte das elites políticas ocidentais deu razão aos mullahs nessa reclamação espúria. Porquê?

Porque desde o início que, para essas elites, o que esteve em causa nesta guerra não foi a teocracia sanguinária e corrupta de Teerão, mas a presidência de Donald Trump. Por isso, embora não tivessem torcido pelos mullahs, torceram para que as coisas corressem mal e Trump, com os preços a subirem, tivesse de desistir. No New York Times, escrevia-se ontem que este tinha sido o “Suez” de Trump. Era uma alusão à operação militar que, em 1956, confirmou o eclipse do poder da Inglaterra e da França no Médio Oriente. Seria desejável isso acontecer aos EUA, só para Trump perder as legislativas de Novembro?

Valerá a pena repetir que não é Trump que está em causa? Que é a ditadura clerical do Irão, um regime apocalíptico que matou em Janeiro milhares de iranianos, que prometeu destruir Israel, que tem atacado e subvertido a vizinhança, que é um aliado crucial de Putin, e que é o foco do radicalismo islâmico que inspira o terrorismo entre os muçulmanos? O Ocidente tentou lidar com a ditadura iraniana através de sanções. Inutilmente. Resta-lhe a força militar. Se agora se concluísse que também essa não é suficiente, por relutância dos EUA em suportar os custos da guerra, o problema não é só de Trump nem só para Trump. Não é só de Trump, porque se os EUA não podem ganhar esta guerra sob Trump, nunca a ganharão sob nenhum outro presidente, a quem, além de faltar os meios, faltaria também a vontade. O problema não é só para Trump, porque é a Europa quem já está ao alcance dos mísseis iranianos, uma Europa quase sem armas e com grandes populações muçulmanas, a quem os jihadistas não deixariam de tentar mobilizar com um insucesso americano. Talvez mais gente saiba isto do que parece. Talvez por isso não tenhamos tido as marchas contra a guerra de 2003.

Se nada correr bem, terá sido culpa de Trump por ter tentado desarmar agora os tiranos de Teerão? A guerra é uma opção terrível, mas a inacção teria sido apenas um caminho mais silencioso para a derrota. Os que dizem que só se deveria atacar o regime iraniano quando dispusesse comprovadamente de armas nucleares nem percebem que nesse momento já não seria possível atacá-lo sem arriscar uma guerra nuclear. O sucesso também não estaria garantido se o presidente dos EUA fosse menos bombástico. Nenhuma conversa mais gentil teria persuadido os governos europeus, paralisados pelo medo da imigração muçulmana e dos custos do rearmamento, a ajudar.

Repito: o nevoeiro da guerra ainda não se levantou. A ditadura iraniana certamente que não está mais forte. Trump pode ter alcançado, ou vir a alcançar, os seus objectivos (acima de todos, degradar a capacidade do Irão de projectar poder). Quem preza o Ocidente e a democracia liberal deveria desejar isso, independentemente do que pense de Donald Trump. O que está em jogo é muito mais importante do que o número de congressistas e senadores que o partido de Trump pode eleger em Novembro.