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(A) :: A Guia para a utilização de linguagem inclusiva da NOVA

A Guia para a utilização de linguagem inclusiva da NOVA

Há uns tempos, alguém reparou que a Universidade Nova de Lisboa tinha uma Guia para a utilização de linguagem inclusiva. O resultado é surreal

Carlos Maria Bobone
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A polémica já tem um tempo, e a guia (reparem que eu uso o feminino) ainda mais. Talvez não seja um problema: poderia até ter sido uma benção, em primeiro lugar, porque já teria havido tempo para acabar com esta tontice, em segundo, porque permite dar conta do processo todo.

E o processo é o seguinte: há uns tempos, alguém reparou que a Universidade Nova de Lisboa, inclusiva para tudo menos para o inglês da SBE, tinha uma Guia para a utilização de linguagem inclusiva. Ouviu-se um pequeno sururu, foram entrevistadas eminências (também feminino, e para uma palavra que significa importante) que se apressaram a garantir que nada daquilo era obrigatório, e até o Polígrafo montou uma peça sobre o documento.

A primeira parte engraçada é origami em que o Polígrafo conseguiu transformar o papel, para conseguir apontar a setinha para o falso. Em vez de tratar de saber se a guia é falsa ou verdadeira, pegou numa palavra específica – “todes”, que na verdade não é bem uma palavra, mas uma variação açoriana de outras duas – para acalmar as hostes e garantir que esta não aparece na dita guia; depois, assegura também que a guia não é obrigatória e consegue a proeza de transformar uma verdade incontestável (a existência de uma guia de linguagem inclusiva) numa falsidade, através da mudança da pergunta para qualquer coisa que ninguém perguntou. Imagine o leitor que lhe acontece o que me aconteceu a mim: aterra-lhe no whatsapp um documento que, depois de garimpar por entre emojis zangados, vê que tem o nome “Guia para a utilização de linguagem inclusiva”. Pergunta “será o guia (agora uso o masculino para me mostrar arejado e utilizador de palavras intersexo) verdadeiro?”, ou pergunta “será a guia obrigatória?”. O Polígrafo, pelos vistos, preocupa-se mais com a liberdade do que com a verdade: há toda uma filosofia política aqui subentendida.

A parte mais engraçada, contudo, não é a pirueta interpretativa; é o próprio documento. A Universidade Nova decidiu distribuir pelos alunos, docentes, funcionários e quem mais a quisesse ouvir um pequeno manual de instruções de relações humanas e, como a Universidade lhe chama, “comunicação institucional”. Percebe-se que uma Universidade se preocupe com quem por lá anda; percebe-se que uma universidade se preocupe com o que os alunos escrevem e dizem; não se percebe que uma universidade preocupada com estas coisas lavre um documento tão ridículo.

A grande preocupação da Universidade (que, tem uma longa tradição de combate à discriminação, já que recusou desde o princípio, brava e pioneiramente, chamar-se Universidada ou Universidado) é a de promover uma “cultura de respeito, compreensão e inclusão” em toda a universidade, mesmo que para isso tenha de tornar todas as conversas incompreensíveis e de se sujeitar a perder todo o respeito de qualquer pessoa sensata. Para conseguir tão nobre objectivo, espreme das mais superiores cabeças do país vinte páginas de “alternativas ao uso dos masculinos genéricos” e “sugestões e técnicas” para assegurar a inclusão de todas as pessoas nos documentos, como se a inclusão se conseguisse com truques, e a tolerância e inclusão deixassem de ser matéria de comportamentos e mentalidades, mas resultado de se ter ou não um bom dicionário de sinónimos.

Portanto, a ideia de inclusão da Nova é bastante modesta; preocupada com a discriminação nos seus alunos, em vez de atacar o problema com seriedade, acrescenta umas perninhas aos “o”, como o aluno cábula que modifica a nota do professor a ver se escapa ao ralhete dos pais; no entanto, o que é engraçado é que está muito empenhada na promoção desta ideia brilhante. Não só assegura às almas ansiosas e privadas de capacidade de completar os exercícios de primeira classe em que se transformam masculinos em femininos e vice-versa que a ferramenta seja “acessível” e possa ser utilizada por “qualquer instituição externa à Nova” (qual manual de Chicago, isto sim pode fazer escola!), como faz o documento com todo o aparato crítico: antes dos sinónimos, vêm três páginas de “enquadramento” e outras duas de “conceitos fundamentais”, tão obscuros e a precisar de esclarecimento como “discriminação” ou “estereótipos de género”, inovadoramente definidos como “ideias sociais e culturais preconcebidas (…) que são atribuídas a mulheres e homens com base no seu sexo, em detrimento das características individuais”.

O Enquadramento

Coisa rara no documento, o “enquadramento” é de facto uma palavra bem escolhida, porque não há maneira mais quadrada de olhar para a questão. A precisão, porém, acaba no título, porque logo a primeira frase é um prodígio gramatical. Assegura-nos o documento que “A linguagem é um elemento central da nossa comunicação, que nos permite expressar na forma verbal ou não-verbal o que sentimos, pensamos e, também o seu contrário” – o que nos deixa sem saber se a linguagem nos permite expressar o que não pensamos, ou se “o seu contrário” só cumpre ali a função de mostrar desde o princípio como se usa linguagem inclusiva, em que tudo pode significar também o seu contrário, sem estereótipos de sentido. Depois da ganga genérica e de umas citações de pó-de-arroz literato, vem o primeiro problema sério do documento. O documento defende que as palavras têm o poder de “aumentar a nossa empatia” ou, mesmo “quando não são intencionalmente usadas de forma depreciativa”, “podem oprimir”. Nunca, neste enquadramento, se põe a hipótese de as palavras quererem traduzir uma realidade. Ou enaltecem, ou oprimem, o que atira a linguagem para um território curioso, quase medieval no modo de entender a linguagem, de mundos possíveis e ideais, nunca daquilo que verdadeiramente existe.

Por outro lado, ao mesmo tempo que se fala do poder transformador da linguagem, reconhece-se que a linguagem “reflete normas sociais e culturais”. Acrescenta-se, contudo, que os papéis de que nascem os estereótipos “têm vindo a alterar-se”. Todos nós percebemos o objectivo desta passagem: explicar que a linguagem tradicional, além de injusta, já nem sequer é legítima, porque não representa os homens e as mulheres como eles são hoje, devendo por isso ser mudada. Acontece, no entanto, que esta admissão contraria a própria tese. Se, de facto, os homens e as mulheres já não correspondem aos estereótipos que a linguagem perpetua, como é que conseguiram libertar-se deles, mesmo com a pesada carga da civilização patriarcal, presente até nos ínfimos pormenores gramaticais, em cima deles?

Uma pessoa sensata diria que talvez a linguagem inclusiva não seja tão importante assim para a tal transformação que os redactores do documento já vêem acontecer; uma pessoa sensata, porém, não escreveria este documento, pelo que quem escreve este documento acaba a subscrever esta tese de uma maneira bastante mais bizarra, trapalhona, mas de facto mais próxima daquilo que pretende para a linguagem.

No seu afã de respeitabilidade, o documento garante que “a evidência científica” – científica, atenção, a palavra aqui não é nada neutra – “demonstra que investir numa comunicação inclusiva (…) pode desempenhar um papel crucial na mudança de atitudes”. Repare-se no pormenor delicioso. “Pode”. Ou seja, a “evidência científica” demonstra que “pode”, o que é o mesmo que dizer que também “pode ser que não”. Por outras palavras, a “evidência científica” demonstra coisa nenhuma, como aliás se admite pouco depois, ao dizer que “No caso português (…) verifica-se, contudo, a necessidade de realizar mais estudos que sistematizem e aprofundem o impacto de políticas linguísticas de inclusão social”, o que em linguagem não-inclusiva significa “ainda não conseguimos massacrar os estudos até que eles digam o que nós queremos”.

As orientações

Quem está à espera de soluções muito sofisticadas, que se desengane. A grande ova de Colomba que a Nova tem para dar aos seus docentes e discentes atormentados com as ofensas involuntárias que possam perpetrar passa por dizerem “docentes”, sem artigo, em vez de “os docentes”, substituir “o director” por “a direcção”, “Exmo. Director Geral” por “à direcção geral”, que de caminho perde a excelência sintética, “os colaboradores” por “as colaboradoras e os colaboradores” e mais exemplos deste brilhantíssimo arsenal que prova que a Universidade Nova encara todos os seus frequentadores como idiotas. Podemos passar por cima de tudo o que o documento tem de preconceituoso, ao assumir que “funcionário de limpeza” é uma função pouco dignificante, e por isso deve ser privada do uso do feminino, ou de toda a discussão sobre o real papel dos masculinos e femininos numa linguagem patriarcal, que fariam do Alemão, em que tanto dos géneros são diferentes dos latinos, uma língua muito mais inclusiva e imune a fenómenos de intolerância que a linguagem discriminatória promove como, por exemplo, o nazismo; passando por cima desta discussão, há uma coisa contudo que não pode deixar de ser dita sobre o documento.

É que além de falso, artificial, mal-feito, pouco pensado, além de meter mais água que um passador, é um documento tão cobarde, que acaba a contradizer os seus próprios propósitos. É óbvio que certas formulações, de tão complicadas, só podem ser sentidas por quem é alvo delas como fruto de um profundo sentimento de superioridade. Eu enquanto pessoa portadora de doença (para usar a terminologia da Nova) só me posso sentir uma aberração ao ver-me tratado com tanta complexidade verbal. Que diferença real há entre dizer “os imigrantes” e “as pessoas imigrantes”, para lá de garantir consolo aos alunos mais preguiçosos na hora de escrever ensaios com limite mínimo de palavras? Substituir “índios” por “pessoas nativas”? Só as “pessoas nativas” é que são “nativas”? As outras não nascem? Ou nascem, mas se o fizerem em Lisboa, passam a ser “índias”, e não “nativas”, de Lisboa?

A cereja no topo do bolo (expressão que não sabemos se é recomendável, ou se deverá fazer companhia a “ver-se grego” e “macho-alfa”, que a Nova nos aconselha a não usar) é a recomendação de substituirmos “estudantes africanos” por “estudantes de nacionalidade angolana/moçambicana”. Este é o exemplo mais ridículo, não só pela arbitrariedade de achar o país menos discriminatório do que o continente, mas porque todos percebemos o que está em causa. O que o documento quer é explicar-nos que não devemos usar a palavra negro, muito menos a palavra preto. No entanto, já está tão enodado nos seus próprios trâmites, que nem para uma explicação assertiva e directa é capaz de usar as palavras que quer proscrever, tornando a comunicação, no mínimo bizarra. Um documento que quer mostrar-nos que não devemos usar certas palavras, mas acha-as tão más que nem nos quer dizer quais são.

Todo o documento é um autêntico jardim de delícias (a linguagem não verbal também daria pano para mangas, desde que fossem mangas de camisas de forças), mas há um aspecto que nos parece particularmente revelador. Quando quer mostrar todo o seu aparato científico e abre a sua cauda de pavão intelectual, a citar decretos-lei e recomendações governamentais, o que o documento involuntariamente nos dá é um retrato de duas páginas da ineficácia de toda esta inutilidade, misturada com uma exposição descarada do escândalo de desperdício de recursos a que este assunto já levou. O documento mostra-nos cinquenta anos, da Convenção sobre a eliminação de todas as formas de discriminação sobre as mulheres, ao ano de 2019, em que uma lei torna obrigatória – obrigatório! Uma lei! – a alteração da expressão “direitos do homem” para “direitos humanos” nas versões em língua portuguesa de todas as convenções internacionais a que Portugal se encontra vinculado, cinquenta anos, dizíamos, de documentos sobre linguagem não discriminatória. Organismos, resoluções de conselhos de ministros, num exemplo flagrante da massa burocrática a repetir-se em loop, sem estar minimamente preocupada com os resultados daquilo que diz.

A linguagem é, obviamente, importante, e diz alguma coisa sobre as sociedades. Mas se assim é, o que importa não é apresentar como evidências os pressupostos e discutir as trivialidades. O ridículo deste caso é nem se perceber que a desculpa do “não é obrigatório”, como se alguém gastasse tempo e dinheiro a produzir isto para depois não ser usado (ou talvez gaste, mas seria pior ainda!), sem coragem para explicar directamente aquilo que se quer, só torna mais opressiva a mudança. É claro que a linguagem expressa um modo de vida e um certo tipo de sociedade. Se queremos mudar esta sociedade, podemos discuti-la, mas poupemo-nos ao ridículo de andar a tentar fazê-lo com truques destes, pela calada. Porque calada é o que qualquer pessoa fica, se tentar levar a sério um manual destes.