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(A) :: A internacional populista morreu de patriotismo 

A internacional populista morreu de patriotismo 

A chamada internacional populista não começou a desfazer-se por escrúpulo democrático, ou excesso de lucidez moral, mas porque os interesses dos seus membros deixaram de caber no mesmo slogan.

Nuno Miguel Lemos
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Durante quase uma década, a direita populista gostou de se imaginar como uma espécie de Comintern ao contrário. Menos livros, menos disciplina, mais fronteiras, mais ressentimento e muito melhor capacidade de comunicação. De Washington a Budapeste, de Roma a Paris, de Brasília a Buenos Aires, a promessa parecia simples. Havia finalmente uma linguagem comum para transformar ansiedade social, fadiga institucional e frustração económica num projeto político vencedor. O nome dessa linguagem não era propriamente conservadorismo, soberanismo ou patriotismo. Era trumpismo. E durante algum tempo funcionou.

Trump não criou esta constelação, mas deu-lhe aquilo de que ela mais precisava, legitimidade. Até 2016, muitos destes movimentos eram tratados como aberrações nacionais, fenómenos barulhentos mas periféricos, úteis para contaminar o debate, não para governar. A vitória de Trump mudou isso. Se o homem podia chegar à Casa Branca a insultar aliados, desprezar instituições, radicalizar a linguagem da imigração e vender nacionalismo como produto de massas, então o resto do mundo percebeu depressa a lição. O impensável tinha deixado de o ser. A partir daí, cada país começou a traduzir o modelo para o seu sotaque. Uns copiaram a estética, outros a táctica, outros a ideia mais funda de que a política já não era a arte do compromisso, mas a gestão permanente de uma guerra cultural.

Steve Bannon tentou até dar forma organizacional a esta fantasia com The Movement, a célebre tentativa de montar em Bruxelas uma internacional de nacionalistas. A ideia era absurda e por isso mesmo reveladora. Nacionalistas adoram cooperação internacional desde que não implique ceder nada, ouvir ninguém ou aceitar que o parceiro estrangeiro tenha interesses próprios. O falhanço de Bannon não foi um acidente operacional. Foi a primeira demonstração prática de uma contradição estrutural. Uma aliança de nacionalismos dura enquanto for decorativa. Quando começa a ter consequências, racha.

Foi isso que aconteceu. A chamada internacional populista não começou a desfazer-se por escrúpulo democrático, nem por excesso de lucidez moral. Começou a desfazer-se quando os interesses dos seus membros deixaram de caber no mesmo slogan. As tarifas de Trump trataram do resto. De repente, muitos dos seus admiradores europeus descobriram aquilo que nunca deviam ter esquecido, America First não é uma palavra de ordem ecuménica. É uma hierarquia. E numa hierarquia imperial, os aliados vêm depois. Giorgia Meloni percebeu-o quando foi forçada a criticar tarifas que atingiam diretamente a economia italiana. O mesmo instinto de sobrevivência apareceu noutros pontos da direita europeia. Quando a fraternidade ideológica começa a destruir emprego, encarecer energia e impor custos eleitorais concretos, o entusiasmo transatlântico passa depressa de convicção a embaraço.

A guerra no Irão acelerou tudo. E acelerou com requinte, porque corroeu um dos mitos mais úteis do trumpismo, a ficção de que Trump representava uma direita muscular mas anti-guerras. Muitos populistas europeus conseguiram vender durante anos uma posição curiosa, suficientemente agressiva para parecer forte, suficientemente ambígua para parecer prudente. O conflito no Irão tornou essa ambiguidade muito mais cara. Em vez de aparecer como o homem que punha fim às aventuras externas, Trump passou a carregar o peso político de mais uma escalada, mais um risco energético e mais uma fonte de instabilidade para eleitorados europeus cansados de pagar por crises alheias. Foi aí que o trumpismo deixou de ser apenas tóxico em abstrato e passou a ser dispendioso em concreto.

Mesmo os partidos que durante anos viveram de afinidade cultural com o trumpismo começaram a recalcular. Em França, a aproximação tornou-se demasiado onerosa para quem quer parecer presidenciável. Na Alemanha, a AfD percebeu que uma relação demasiado exuberante com Washington já não rendia dividendos líquidos. Na Hungria, Orbán continua a ser o último grande bastião sentimental desta rede, mas até esse bastião parece hoje mais vulnerável do que o habitual. A visita de JD Vance a Budapeste, em pleno aperto eleitoral, foi eloquente.

Quando uma rede política internacional precisa de importar apoio americano à pressa para salvar o seu símbolo europeu, já não estamos perante ascensão. Estamos perante contenção de danos.

Houve ainda a questão da Gronelândia, que talvez tenha prestado o serviço intelectual mais útil de todos. Durante anos, boa parte desta direita tratou a soberania como dogma sagrado, desde que fosse a sua. Bastou, porém, que a pulsão imperial americana começasse a tocar território europeu para muitos destes partidos redescobrirem subitamente a dignidade das fronteiras, o valor da integridade territorial e até certos reflexos de prudência diplomática. Foi um momento pedagógico. A soberania, para esta família política, nunca foi exatamente um princípio. Foi uma ferramenta. E ferramentas descartam-se quando atrapalham o aliado mais forte.

Convém, ainda assim, não ler esta fratura como se fosse uma derrota definitiva. O que está a morrer não é o populismo de direita. É a sua ficção ecuménica. Cai a ideia de um bloco coerente, disciplinado e historicamente inevitável. Sobrevive, e provavelmente reforça-se, a versão mais eficaz deste fenómeno, a versão nacional, adaptável, menos dependente de Washington, mais ajustada ao mercado eleitoral doméstico. Isso pode até torná-lo mais perigoso. Um populismo demasiado colado a Trump herda-lhe os excessos, as guerras e as tarifas. Um populismo que aprende com o trumpismo mas se descola da sua marca pode conservar a substância e vender-se com embalagem mais sóbria. Para quem o enfrenta, esse produto é politicamente mais difícil de combater.

Talvez a verdadeira lição seja esta. A internacional populista morreu não por falta de fé, mas por excesso de patriotismo. Enquanto serviu para fazer fotografias, conferências e slogans comuns, a família aguentou-se. Quando começou a produzir custos reais, percebeu-se o óbvio. O nacionalismo é uma doutrina centrípeta. Aproxima-se dos outros por conveniência e afasta-se deles por natureza. Trump deu à extrema-direita global uma gramática, uma estética e um centro. Mas, ao comportar-se menos como símbolo e mais como potência, revelou a contradição que a sustentava. Uma internacional de nacionalistas podia parecer temível. Duradoura é que nunca poderia ser, e ainda bem.