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(A) :: "Tenho medo de dizer 'Olá, sou da Ucrânia'". Na Hungria de Viktor Orbán, os ucranianos querem poder "sentir-se em casa"

"Tenho medo de dizer 'Olá, sou da Ucrânia'". Na Hungria de Viktor Orbán, os ucranianos querem poder "sentir-se em casa"

Orbán fez de Kiev a seu principal inimiga nas eleições legislativas. Ucranianos seguem com atenção e ansiedade a campanha, mas nem com Magyar esperam "passos enormes" de mudança após as eleições.

Madalena Moreira
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A Igreja Ortodoxa Ucraniana de Budapeste fica numa cave. A entrada faz-se por uma rua lateral, através de uma porta verde com inscrições douradas em ucraniano e húngaro, e dez degraus de pedra. Ao fundo das escadas, está uma grande mesa com dezenas de livros em exposição, todos em ucraniano, e velas, pintadas com o amarelo e azul da bandeira ucraniana. É aqui que o padre Dimitriy recebe o Observador, antes de dar início às celebrações da Quinta-feira Santa.

A Páscoa ortodoxa, celebrada exatamente uma semana depois da Páscoa católica, é a “maior festa cristã”, declara o padre Dimitriy, sentado numa das cadeiras, por agora vazias, que estão encostadas às duas paredes laterais da pequena igreja, repleta de ícones e imagens. Contudo, no próximo domingo, a celebração religiosa irá dividir a atenção da comunidade ucraniana na Hungria com um tema muito menos sagrado, mas não menos importante: as eleições legislativas húngaras. Esta comunidade, no 6.º distrito de Budapeste, tem cerca de 200 paroquianos, estima o padre Dimitriy, mas no país todo são várias dezenas de milhares — um número que cresceu a pique nos últimos quatro anos, depois de a Rússia ter invadido a Ucrânia.

A Ucrânia foi atirada para o centro da campanha eleitoral na Hungria pelo primeiro-ministro Viktor Orbán, que definiu o Presidente ucraniano como o principal inimigo da sua campanha. Volodymyr Zelensky é, aos olhos do Governo húngaro, um belicista e Péter Magyar, o opositor que desafia o Fidesz, vai, em apoio à Ucrânia, arrastar a Hungria para uma guerra. “As gerações mais velhas acreditam totalmente nesta propaganda e é um bocadinho assustador”, declara Olga ao Observador num jardim do outro lado da cidade, onde passeia todos os dias. A psicóloga e mãe de três filhos, que prefere não partilhar o apelido, chegou à Hungria para se juntar ao marido ainda antes de a guerra ter começado. Ao longo dos últimos cinco anos diz ter testemunhado uma mudança gradual nas atitudes dos húngaros em relação aos ucranianos, que se acentuou, primeiro com a guerra e ainda mais com a campanha eleitoral.

Porém, Olga não vê nas eleições uma hipótese de mudar radicalmente esta realidade da comunidade ucraniana. Tem esperança de uma mudança se o líder for outro? “Eu espero que sim”, declara. Mas o riso cético que se segue à breve resposta inicial dá a entender a explicação que só chega já no final da conversa: aquilo por que espera é muito diferente daquilo que acredita que pode acontecer no futuro a curto prazo.

O “perigoso” Zelensky e o medo, de Budapeste à linha da frente da guerra

Olga passeia o cão da família no mesmo parque todos os dias, que tem um jardim com uma fonte no centro, vários caminhos de gravilha ladeados por bancos de madeira pintados de vermelho e um grande parque infantil num dos cantos. E todos os dias, durante os últimos meses, passa pelos mesmos cartazes pendurados nos candeeiros, com os candidatos locais e os líderes dos partidos. Mas além dos rostos em ponto pequeno dos políticos húngaros, há um outro que se repete por Budapeste e pelo país inteiro, em grandes cartazes e até outdoors.

Perigosos“, lê-se por toda a cidade, com uma faixa vermelha sobre o rosto a preto e branco de Volodymyr Zelensky e do líder da oposição, Petér Magyar. “Vamos pará-los! Só o Fidesz”, lê-se por baixo ou ao lado das imagens. A foto de Zelensky escolhida para o cartaz não foi inocente, reflete Olga, enquanto fala sobre a sua rotina diária. O Presidente ucraniano surge a preto e branco, sem sorrir e a olhar diretamente para a câmara, “como vemos nos filmes, quando um tipo mau é levado para a prisão”, atira.

Olga diz perceber que é fácil para muitos húngaros ver em Zelensky — e, por associação, nos ucranianos — um inimigo quando se vê diariamente os cartazes do Fidesz, se ouve as declarações do primeiro-ministro e do seu Governo e se consome a imprensa pró-Orbán. “[Orbán] utiliza esta publicidade para desviar atenção dos problemas locais“, argumenta, movendo uma mão de um ponto para o outro, num gesto de movimento.

"Lembro-me de uma vez em que estávamos aqui no parque, sentámo-nos com uma manta a comer fruta e a falar na nossa língua nativa e uma mulher sem-abrigo... Talvez estivesse bêbada, não sei, mas lembro-me da reação do meu filho, porque ele percebe húngaro muito bem e ela começou a insultar-nos."
Olga, ucraniana a viver em Budapeste

Os cartazes anti-Zelensky do Fidesz já fizeram correr muita tinta. No 11.º distrito de Budapeste, por exemplo, as autoridades locais procuraram introduzir uma lei que tinha como objetivo reduzir a propaganda política nos espaços públicos, utilizando como justificação o facto de as mensagens sobre guerra motivarem sentimentos de ansiedade nas crianças. Como mãe de três crianças pequenas e psicóloga, o tema preocupa Olga, mas o medo e a ansiedade que sente não é causado pelos cartazes com desenhos de tanques que se viam durante as primeiras semanas de campanha, mas por incidentes muito mais concretos.

“Lembro-me de uma vez em que estávamos aqui no parque, sentámo-nos com uma manta a comer fruta e a falar na nossa língua nativa e uma mulher sem-abrigo… Talvez estivesse bêbada, não sei, mas lembro-me da reação do meu filho, porque ele percebe húngaro muito bem e ela começou a insultar-nos“, descreve, apontando o sítio, um simples pedaço de relva, onde o incidente aconteceu. Depois, Olga utilizou a estratégia que disse ter ensinado aos filhos: não interagir e se necessário chamar a polícia.

Tratou-se de um incidente isolado mas, na comunidade ucraniana de que faz parte, circulam histórias mais violentas de mães com filhos pequenos que terão sido agredidas em transportes públicos. “Tento utilizar inglês quando passeio com os miúdos e com o cão. Como tenho amigos [da Ucrânia], não pensava muito de onde sou, mas depois de a guerra começar, apercebi-me que tenho medo de dizer ‘Olá, sou da Ucrânia’. É melhor falar apenas em inglês”, conclui Olga com um encolher de ombros resignado.

Na igreja ortodoxa, o medo também bate à porta, segundo o padre Dimitriy. Mas ao medo de um ucraniano na Hungria sobrepõe-se um medo ainda maior, aquele que sentem pelos “soldados, defensores e por todos os cidadãos da Ucrânia”, afirma com um sorriso nervoso, de quem não pode, nem consegue, ignorar o que se passa na sua terra natal, a mais de 300 quilómetros.

A comunidade ucraniana “não se mistura com os habitantes locais”

À medida que as 18h se aproximam, os fiéis vão chegando à igreja ucraniana. Ao fundo das escadas, colocam o casaco num bengaleiro encostado no canto e são recebidos com familiaridade pelo padre Dmitryi, que ainda veste apenas uma simples batina preta. Atrás do altar, num espaço ao fundo da igreja tapado com duas cortinas que não estão corridas, são visíveis os paramentos que vai colocar depois de as portas se fecharem para o início das celebrações pascais. As pessoas que vão entrando não chegam aos 200 paroquianos que o padre Dmitryi mencionou ao Observador — é mais provável que esse número apareça apenas na celebração da Vigília Pascal, na noite de sábado para domingo.

Um homem sai da igreja para atender um telefonema antes da missa começar. Alguns jovens de calças de ganga e camisolas com capuz chegam sozinhos. Um grupo de homens entra em silêncio, benzem-se antes de descerem os degraus. Duas mulheres de meia idade cruzam a esquina apressadas e antes de entrarem na igreja retiram da mala um lenço para pôr na cabeça: o de uma tem flores castanhas, o outro é azul. Todos recusam falar ao Observador, indicando, por palavras ou por gestos, que não falam inglês.

A realidade que Olga testemunha todos os dias é muito semelhante. Os três filhos andam na escola pública húngara e todos têm na turma pelo menos uma outra criança ucraniana, mas Olga diz ser a única no grupo de pais ucranianos que fala inglês. Mais do que isso, muitos nem sequer falam húngaro. “Eu acho que a comunidade ucraniana não se mistura com os habitantes locais. Pelo que vejo é o oposto, eles mantêm a distância”, diz, depois de enumerar de cabeça as diferentes famílias com que se cruza no espaço escolar. “Eu perguntei aos meus amigos da Ucrânia e eles preferem não conhecer gente nova, não se apresentarem, [preferem] analisar primeiro” a realidade à sua volta.

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O isolamento da comunidade e os ataques de que dizem ser alvo por alguns húngaros contrastam com o sentimento pró-Ucrânia que se faz sentir nas zonas mais turísticas de Budapeste. A bandeira ucraniana repete-se ao lado da bandeira da União Europeia na fachada das embaixadas dos outros 27 Estados membros da União Europeia e numa pequena rua do centro, a igual distância entre o Danúbio e uma praça movimentada da capital, uma grande bandeira ucraniana pinta o vidro de um edifício. “Budapeste ajuda! Centro de informação e comunicação”, lê-se em inglês, húngaro e ucraniano na fachada do escritório. Trata-se de um projeto da agência das Nações Unidas para os Refugiados que procura ajudar com conselhos legais, apoios práticos e atividades lúdicas e de integração todos os ucranianos refugiados na Hungria.

Apesar de os projetos oficiais, impulsionados por organizações internacionais ou pelo Governo ucraniano, serem fáceis de encontrar, não são esses apoios que Olga e o padre Dmitryi mencionam como exemplos de uma comunidade solidária. Dão antes mais um sinal de uma comunidade fechada sobre si mesma e destacam as atividades lúdicas que desenvolvem nas respetivas comunidades e os apoios que recolhem com regularidade para enviar quer para a Ucrânia, quer para entregar aos refugiados recém-chegados à Hungria.

"Acho que a Hungria, ainda antes de tudo isto ter começado, já era um país pró-Rússia e depois de a guerra ter começado não acho que muito tenha mudado."
Olga, ucraniana a viver em Budapeste

O desejo de eleições “justas e pacíficas” e, se possível, a queda de Orbán

Ao passar perto da fonte no centro do parque onde conversa com o Observador, Olga detém-se e indica um grupo de pessoas sentadas num banco do outro lado da fonte e um homem que caminha próximo, com um andar incerto. Identifica as pessoas como tendo problemas de toxicodependência e equipara o problema a outros que a preocupam todos os dias na passagem pelo jardim: as pessoas sem-abrigo, que estão a dormir em alguns dos bancos, à sombra das árvores, e os caixotes do lixo a transbordar, que representam um problema de higiene pública.

São estes os “problemas locais” que Olga mais identifica e que acredita que não estão a ter a atenção necessária por parte do Governo. E são estes os problemas que acredita que vão poder ser resolvidos no caso de o partido da oposição chegar ao poder. Por esse motivo, não esconde que gostaria de ver Viktor Orbán perder as eleições, ainda que não o diga palavra por palavra. Mas a esperança de mudança com Péter Magyar, candidato principal da oposição, esvai-se quando a questão se estende à realidade da comunidade ucraniana na Hungria e ao medo diário que diz sentir.

“Acho que a Hungria, ainda antes de tudo isto ter começado, já era um país pró-Rússia e depois de a guerra ter começado não acho que muito tenha mudado”, aponta Olga, que pausa, à procura de um exemplo concreto que ilustre como a relação entre Ucrânia e Hungria é complexa. Acaba por apontar a história de autonomia e disputas territoriais na região dos Cárpatos.

A proximidade de Orbán à Rússia de Vladimir Putin tornou-se, contudo, mais visível desde que a Ucrânia foi invadida. E, ao longo da campanha eleitoral, sucederam-se revelações e acusações: a Rússia estará a interferir diretamente na campanha do Fidesz, o Kremlin terá proposto simular uma tentativa de assassinato de Orbán para estimular a sua popularidade, o ministro dos Negócios Estrangeiros da Rússia e da Hungria mantêm contacto regular, Moscovo e Budapeste assinaram um acordo de cooperação. Os exemplos de proximidade são tantos que Olga duvida que a posição dos húngaros sobre o conflito mude na próxima segunda-feira e que sejam dados “passos enormes”. Mas, se esse for o caso, pelo menos não terá de continuar a olhar todos os dias para o rosto de Zelensky com as letras gordas que dizem ser “perigoso”, desabafa, com um toque de humor.

O tema sobre o futuro da comunidade ucraniana também parece pesar sobre o padre Dimitriy, mas enquanto líder religioso, evita fazer avaliações políticas tão abertas. Questionado sobre qual o cenário pós-eleitoral mais desejável, cruza as mãos sobre o colo e faz uma pausa. O silêncio estende-se durante mais de um minuto e toma conta da igreja ainda vazia, enquanto o sacerdote procura as palavras certas para expor a sua posição. No final, diz que no domingo, no dia mais sagrado para os cristãos ortodoxos, também vai rezar para que as eleições sejam “justas e pacíficas”. Repete a expressão três vezes ao longo da resposta. E remata: a força política que vencer deve “servir a Hungria e o povo húngaro”, mas também garantir que o “povo ucraniano pode viver aqui e sentir-se em casa“.