A suspensão parcial do PDM de Coimbra é a tentativa de densificar onde faz sentido, no centro e nos eixos de maior acessibilidade, libertando solo para espaço público e reduzindo a dependência do automóvel.
Durante as tempestades de fevereiro, o país descobriu em Ana Abrunhosa uma qualidade rara na política portuguesa: a coragem de decidir sob pressão. Perante a ameaça de uma cheia centenária, a presidente da Câmara de Coimbra não hesitou. Preparou a evacuação de milhares de pessoas, assumiu o risco político do alarme e fixou um objetivo claro: zero vítimas. Conseguiu-o. A sua gestão da crise foi elogiada transversalmente, do Presidente da República aos comentadores nacionais, porque num momento de adversidade, o que salva uma comunidade não é a ideologia; é a liderança.
Essa mesma capacidade está agora a ser testada de outra forma. Hoje, no Salão Nobre dos Paços do Concelho, é apresentada publicamente a proposta de suspensão parcial do Plano Diretor Municipal de Coimbra. Não há cheias nem sirenes. Mas a decisão que está em cima da mesa pode determinar o futuro da cidade tanto ou mais do que a gestão de qualquer catástrofe. Porque gerir uma emergência é reagir ao presente; planear uma cidade é decidir o futuro. E decidir o futuro, num país que se habituou a adiar, exige uma coragem diferente, mais silenciosa, menos fotogénica, mas igualmente rara.
Comecemos pelo que é justo reconhecer. Há críticas legítimas. Quando se altera o quadro de regras de uma cidade, as pessoas têm o direito de perguntar se a previsibilidade se mantém, se o interesse público está protegido, se não se está a abrir a porta a decisões erráticas. A oposição alertou para esses riscos e fez bem em alertar, porque é exactamente esse o seu papel. Numa comunidade, a confiança constrói-se com transparência, não com atalhos.
Mas reconhecer a legitimidade das críticas obriga também a ser honesto sobre aquilo que elas omitem: o custo do imobilismo.
O PDM em vigor foi pensado para uma Coimbra que já não existe. Em 2025, cerca de um terço dos processos urbanísticos que chegaram ao executivo municipal eram pedidos de dispensa de estacionamento. Um terço. Isto não é um pormenor técnico; é o retrato de um plano tão desajustado da realidade que obriga a cidade a pedir exceções para funcionar. Quando a exceção se torna regra, o plano deixou de servir a cidade. É a cidade que está a servir o plano.
O preço dessa servidão não é abstracto. Mede-se em projetos de reabilitação que não saem do papel porque esbarram em normas pensadas para outro tempo. Mede-se em investimento que procura outros concelhos porque Coimbra não consegue responder com a agilidade que o mercado exige. Mede-se em jovens e famílias que querem viver no centro mas não encontram oferta acessível, porque as regras actuais dificultam a construção onde ela é mais necessária. A cidade muda na mesma, só que muda por inércia, sem desenho, pagando mais caro em tempo, em solo e em qualidade urbana.
O bloqueio, em urbanismo, nunca é neutralidade. É uma escolha. E é a mais cara de todas, porque os seus custos não aparecem numa factura; diluem-se no tempo, na degradação silenciosa dos bairros, no esvaziamento do centro, na perda de competitividade que ninguém contabiliza até ser tarde demais.
Coimbra tem hoje à sua frente uma confluência de oportunidades que raramente se repete, e que não esperará por ela. O Metrobus rasgou um corredor estruturante de mobilidade pela cidade. Mas uma linha de transporte público não cria cidade sozinha. Cria-a se à sua volta nascerem habitação, comércio, serviços e espaço público. Se isso não acontecer, se o corredor ficar ladeado pelos mesmos vazios e pelas mesmas fraturas de sempre, teremos gasto centenas de milhões numa infraestrutura moderna que atravessa uma cidade que não soube responder-lhe. E dentro de uma década, em vez de celebrarmos a transformação, estaremos a perguntar o que correu mal.
As tempestades de fevereiro acrescentaram urgência a uma questão que Coimbra já não podia ignorar: a sua relação com o rio. Durante décadas, o Mondego foi tratado como uma ameaça a conter. As cheias vieram lembrar que essa estratégia tem um prazo de validade. Adaptar-se às alterações climáticas não é construir muros mais altos; é requalificar as frentes ribeirinhas com inteligência, com espaços que acolham as pessoas e soluções que protejam em vez de apenas resistir. É transformar o rio num activo da cidade, em vez de o gerir como um passivo. E depois há a questão que mais directamente toca a vida das pessoas: a habitação. Há quem sustente a economia de Coimbra e não consiga viver onde trabalha. Há famílias para quem o centro da cidade se tornou um luxo. A resposta a estas pessoas não pode ficar suspensa até que uma revisão burocrática, que ninguém sabe quando termina, decida que já é permitido construir onde é preciso.
Recentemente, escrevi nestas páginas que reconstruir o país exactamente como estava antes das tempestades era uma insanidade. Que a urgência não podia ser desculpa para a repetição. A suspensão parcial do PDM de Coimbra é a tentativa de não cometer esse erro. É a tentativa de densificar onde faz sentido, no centro e nos eixos de maior acessibilidade, libertando solo para espaço público e reduzindo a dependência do automóvel. De transformar o corredor do Metrobus em cidade viva, não em cicatriz. De requalificar as margens do Mondego com exigência de desenho urbano, ligando bairros, equipamentos e espaços verdes numa rede que faça sentido. Não é um substituto do planeamento; é um mecanismo transitório, com prazo definido, que permite agir já enquanto a revisão estrutural do PDM avança em paralelo. Uma ponte entre o que Coimbra precisa hoje e o quadro definitivo que está a ser construído.
A decisão de avançar, apesar das críticas, mereceu um voto de confiança da maioria que governa Coimbra. E um voto de confiança, numa democracia, não é um cheque em branco. É um compromisso. O compromisso de que a flexibilidade será acompanhada de critério. De que a densificação resultará em habitação verdadeiramente acessível e não em especulação. De que o desenho urbano será exigente com a cidade que Coimbra quer ser e não apenas com a cidade que o mercado quer vender.
O país que elogiou Ana Abrunhosa durante as cheias vai agora acompanhar, com o mesmo interesse, a forma como Coimbra constrói cidade no rescaldo da tempestade. O que começou como uma decisão municipal tornou-se, pela sua ambição e pelo momento em que surge, num caso que será seguido muito para além das margens do Mondego.
Se Coimbra conseguir mostrar que é possível aproveitar uma crise para construir melhor, com mais habitação, mais mobilidade, mais resiliência e mais qualidade urbana, estará a oferecer ao país algo que lhe faz muita falta: um exemplo. Um exemplo de que a coragem política não se esgota na gestão de emergências; prolonga-se na capacidade de olhar para uma cidade e decidir que ela merece mais do que a repetição do que já tinha. Coimbra escolheu não esperar. E ao fazê-lo, aceitou que o escrutínio sobre o que faz com essa oportunidade será proporcional à coragem que teve ao assumi-la.