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Confiscadas pela República e esquecidas pelo franquismo: obras de valor artístico "realmente importante" voltam a igrejas de origem

Obras dadas como desaparecidas em 1938 acabaram no Museu do Prado. Restituição integra compromisso do Governo espanhol na devolução de obras saqueadas durante a guerra e no início da ditadura.

Mariana Furtado
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Quase 90 anos depois do primeiro pedido de devolução — feito ainda à ditadura franquista — e após pelo menos duas outras tentativas frustradas, duas obras das igrejas de Yebes e Pareja, na província espanhola de Guadalajara, vão finalmente regressar ao seu primeiro lar. Confiscadas pelas autoridades republicanas durante a Guerra Civil Espanhola e depois desviadas (e esquecidas) pelo regime franquista, permaneceram décadas emprestadas ao Museu do Prado, em Madrid. Agora, o Governo espanhol devolve-as numa cerimónia em Sigüenza. Mas a entrega não será imediata: primeiro, as obras ficarão no Museu Diocesano de Arte Antiga, enquanto as paróquias preparam as instalações necessárias para as armazenar e exibir.

As obras incluem o painel “Cristo diante de Pilatos” — criado por um artista desconhecido por volta do ano de 1450, mas atribuída ao Mestre de Lupiana — e dois fragmentos de “A Anunciação”, uma pintura a óleo sobre painel do século XVI, roubados da igreja paroquial de Pareja. Depois de saírem das respetivas cidades, nenhuma foi incluída nos autos de devolução sob responsabilidade dos serviços de património franquista, escreve o elDiario.es. Ambas foram dadas como desaparecidas no ano de 1938.

Milhares de obras de arte mudaram de mãos durante e após a Guerra Civil Espanhola (1936-1939). Confiscadas pelas autoridades republicanas para evitar saques ou destruição, muitas acabaram mais tarde desviadas pelo regime franquista para museus, ministérios, escolas ou particulares próximos da ditadura. Segundo o investigador Arturo Colorado, citado pelo ABC, a Igreja Católica recebeu irregularmente mais de 2.000 peças, enquanto outras paróquias continuam a reivindicar obras que lhes pertenciam.

Foi o caso das igrejas de Yebes e Pareja, cujo processo de restituição integra o compromisso do Governo espanhol, estabelecido pela Lei da Memória Democrática de 2022, de realizar auditorias e inventários de bens em todo o país e facilitar a devolução das obras saqueadas durante esse período da história espanhola.

Em julho de 2023, as duas paróquias solicitaram formalmente a devolução das duas obras de arte, mas a burocracia exigiu tempo, sobretudo para encontrar uma brecha na agenda do ministro da Cultura espanhol, Ernest Urtasun. “Não foi um caminho fácil; houve procedimentos, exigências legais e formalidades, como deve ser, mas quando há vontade política, sensibilidade e colaboração institucional, as coisas avançam”, explicou Urtasun, de acordo com o El País.

O atraso na devolução não se deveu à falta de vontade do museu que as conservou até agora. O diretor, Miguel Falomir, sempre apoiou o caso Yebes e Pareja, destacando desde o início o valor artístico do painel do século XV: “Realmente importante”. Durante a cerimónia desta quinta-feira, Falomir acrescentou que uma comissão interna do Prado já identificou “mais de 100 obras elegíveis” para restituição. “Quem encontrar uma obra no Prado que não deveria estar lá deve saber que teremos o maior prazer em devolvê-la aos seus legítimos proprietários”, concluiu.

Esta é a quarta devolução liderada pelo atual ministério. “Não será a última. Não estamos apenas a devolver bens materiais, mas também parte da memória e da identidade partilhadas desses povos. Elas nunca deixaram de lhes pertencer”, disse, reforçando a promessa: “Continuaremos até que não reste uma única peça saqueada nos depósitos das nossas instituições”.

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