Aquilo que intrinsecamente é bom também se pode tornar um obstáculo em alguns momentos, aquela que foi a base para a melhor versão de FC Porto também potenciou a forma como se vivem as piores fases. Um dos grandes méritos de Francesco Farioli e de toda a estrutura do futebol portista na presente temporada foi uma espécie de resgate de identidade da equipa face à última época. Mais: foi um regresso à essência que define o ADN dos azuis e brancos, tantas vezes abordado como chave para as vitórias mas que, face à sua ausência, acelerou as derrotas. Hoje, Porto é Porto. Ainda assim, e dentro dessa completa metamorfose do plantel à forma de jogar, passando pela atitude, pelo compromisso e pelo espírito de sacrifício, os dragões tornaram-se também mais “emocionais”. Exemplos práticos recentes? A euforia no festejo do golo de Fofana, o desespero após o empate do Famalicão aos 90+9′ por Rodrigo Pinheiro. Podia esse deslize ter impacto no futuro?
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Em condições normais, não. É certo que, nas duas últimas vezes em que o FC Porto não conseguira ganhar, o jogo seguinte também não trouxe a vitória. No entanto, são mini ciclos curtos, circunscritos e que não tinham depois uma projeção para as respetivas provas. Era para isso que, mais uma vez, Francesco Farioli colocava o seu foco, numa mudança de competição do Campeonato para a Liga Europa, numa mudança de chip depois de um deslize para a vitória, numa alteração de nomes que iria promover a habitual rotatividade em todos os setores. Tudo com uma mensagem clara, que passava ao lado do histórico negativo dos azuis e brancos contra formações inglesas desde 2004 (oito eliminações consecutivas): não só a equipa não estava a vacilar como ia lutar para conquistar as três competições em que está inserido, por cá e na Europa.
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“Quando terminámos o ciclo de jogos com o Sp. Braga, precisei de acalmar alguns colegas vossos porque todos estavam entusiasmados com as vitórias na Liga, frente ao Estugarda. Agora também não podemos fazer um drama. Claro que queríamos ganhar, sofrer na última bola do jogo dói ainda mais, mas temos de virar a página rapidamente depois de uma exibição fraca e depois de um resultado menos positivo. Temos de dar o valor real às coisas. No final, é sempre importante termos esse choque de realidade. Estamos no início de abril, numa posição que, há uns meses, toda a gente assinava por baixo. Agora temos a possibilidade de competir e ganhar três competições, com a mesma ambição e com a mesma clareza de que estamos onde estamos por aquilo que fizemos até aqui”, apontara o técnico italiano. “Estamos onde devíamos estar em termos de nível, comprometimento, vontade de ganhar e capacidade de avançar na prova”, acrescentara.
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“Sentimos que não jogámos ao nosso nível com o Famalicão e foi isso que disse no final do jogo. Claro que o golo do Fofana poderia ter mudado o jogo mas não a exibição. Já falámos da dificuldade que existe nos jogos logo a seguir às competições europeias e as emoções estavam lá no alto. Vimos que todas as equipas de topo tiveram dificuldades. Quando jogamos só 5% abaixo do nível habitual, notamos uma quebra e o Famalicão tem qualidade. Foi importante regressar rapidamente àquilo que precisamos de melhorar. Agora vem aí novamente outra competição, frente a um adversário que nos vai forçar a adaptar alguns pormenores, que mudou nos últimos jogos. Foram dias ocupados para podermos preparar todos os cenários e estarmos prontos”, destacara também Farioli, recuperando os reparos que deixou à exibição da equipa no último jogo.
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Em paralelo, existia também um outro fator diferente em relação ao que se tinha visto ao longo da época: a defesa que parecia feita de aço não só a nível de golos sofridos mas também de oportunidades consentidas aos adversários mostrava números diferentes do que já tivera, com oito golos consentidos nos últimos oito encontros. “Não fizemos muitas mudanças. Claro que era difícil manter o registo defensivo que tínhamos, em que raramente sofríamos um golo ou um remate à baliza. É algo que requer um nível de atenção que retira muita energia aos jogadores. No último jogo, não sofremos muitas oportunidades. Mas, nas poucas que sofremos, houve falta de atenção aos detalhes. O mais importante é voltar com o mesmo espírito, vontade e tentar não sofrer. Isso é essencial neste período da temporada. Já foi antes, será daqui para a frente nos próximos meses. Continuamos com a mesma fome e paixão que colocamos em campo”, assegurara.
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Foi isso que se viu na entrada. Fofana foi o motor de todo o jogo ofensivo enchendo o meio-campo e tendo sempre a capacidade de encontrar os espaços que criavam depois os desequilíbrios na defesa dos ingleses, William Gomes voltou a ter uma exibição com a corda toda a partir da direita do ataque mas nada voltou a ser igual depois do momento infeliz de Martim Fernandes, que entre uma noite para esquecer fez um autogolo caricato num atraso mal medido para Diogo Costa antes de sair lesionado. A partir daí, não mais essa cadência ofensiva foi encontrada, sendo que as várias oportunidades de golo perdidas fizeram sobretudo lembrar a falta de Samu nesta equipa do FC Porto para desfazer o empate que vai seguir para Nottingham.
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Ficha de jogo
FC Porto-Nottingham Forest, 1-1
1.ª mão dos quartos da Liga Europa
Estádio do Dragão, no Porto
Árbitro: Marco Guida (Itália)
FC Porto: Diogo Costa; Martim Fernandes (Alberto Costa, 19′), Thiago Silva, Bednarek, Zaidu; Fofana (Alan Varela, 74′), Pablo Rosario, Gabri Veiga (Froholdt, 58′); Borja Sainz (Pepê, 58′), William Gomes e Moffi (Deniz Gül, 58′)
Suplentes não utilizados: Cláudio Ramos, João Costa, Kiwior, Prpic, Tiago Silva, Francisco Moura e Rodrigo Mora
Treinador: Francesco Farioli
Nottingham Forest: Ortega; Abbott, Murillo (Milenkovic, 46′), Morato; Bakwa (Neco Williams, 60′), McAtee (Sangaré, 74′), Yates, Domínguez; Gibbs-White (Hutchinson, 60′), Ndoye e Chris Wood (Igor Jesus, 46′)
Suplentes não utilizados: Sels, Hudson-Odoi, Lucca, Aina, Whitehall, Sinclair e Hanks
Treinador: Vítor Pereira
Golos: William Gomes (11′) e Martim Fernandes (13′, p.b.)
Ação disciplinar: cartão amarelo a Gabri Veiga (15′)
Entre muitas alterações nos dois conjuntos, ainda mais da parte dos ingleses que mantiveram apenas Gibbs-White em relação ao onze inicial que venceu em Londres o Tottenham para a Premier League (mas desta vez com o regressado Chris Wood no ataque), o tempo em que tudo eram sorrisos e rosas perante o regresso de Vítor Pereira ao Dragão não demorou a mudar para uma entrada com faca nos dentes do FC Porto, que em menos de 50 segundos estava na c ara do golo: Fofana abriu bem na direita encontrando o espaço numa saída rápida em transição, assistiu Moffi no centro da área mas o avançado permitiu a defesa a Ortega, que travou de seguida a recarga de Borja Sainz. Havia mais FC Porto em campo aproveitando os vários movimentos erráticos dos ingleses em termos defensivos justificados pela falta de rotinas entre os centrais titulares, com a oportunidade seguinte a resultar de uma das melhores jogadas coletivas dos azuis e brancos de novo com Fofana como motor antes da assistência de Gabri Veiga para o remate fraco na área de Borja Sainz (6′).
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O corredor central defensivo do Forest e os espaços entre laterais e centrais de lado na estrutura a cinco eram autênticas passadeiras para os jogadores portistas, que à terceira conseguiram ser mais eficazes e chegaram mesmo o primeiro golo: Fofana combinou com Borja antes de abrir de calcanhar para a desmarcação de rutura de Gabri Veiga, o espanhol cruzou rasteiro no espaço entre guarda-redes e defesas e William Gomes, sozinho ao segundo poste, só teve de encostar para tornar-se o melhor marcador dos azuis e brancos na Liga Europa (11′). O FC Porto chegou à vantagem com mérito, o Nottingham Forest respondeu quase de imediato num golo “caído do céu”: Martim Fernandes recebeu de Thiago Silva, não encontrou linhas de passe, fez o atraso para Diogo Costa mas mediu mal a força e o local, marcando na própria baliza num lance insólito que acabaria por alterar aquela que estava a ser a tendência predominante da partida até esse momento (13′).
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Martim Fernandes vivia aqueles dias em que o melhor era mesmo não sair de casa, saindo pouco depois por lesão num lance em que Gabri Veiga fez falta sobre Ndoye mas o suíço acabou por atingir depois na zona do tornozelo o lateral, que seria substituído por Alberto Costa (18′). No meio de todos esses infortúnios, houve um novo Nottingham Forest: mais competitivo, mais ligado entre setores, mais capaz na reação à perda e nas transições defensivas, mais adulto na forma de contrariar a dimensão ofensiva dos dragões. Não houve mais ascendente acentuado dos azuis e brancos na partida, as oportunidades deixaram também de ser frequentes e seria mesmo preciso esperar pelos descontos da primeira parte para voltar a ver mais uma bola de golo, de novo com Fofana a ganhar o espaço na direita e a cruzar para o cabeceamento de Moffi que saiu para as mãos de Ortega (45+1′). O intervalo chegaria mesmo com um empate a um no resultado e com o FC Porto a tentar recuperar a entrada forte na partida que desacelerou na sequência do autogolo de Martim.
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Froholdt ainda deu sinais de que poderia entrar cedo no campo mas só Vítor Pereira mexeu ao intervalo. Por um lado, pela necessidade de gerir ainda a condição física de Chris Wood, avançado que esteve muito tempo de fora e está agora a regressar. Por outro, para encontrar um perfil diferente de “patrão” da defesa, saindo Murillo para a entrada de Milenkovic. A formação britânica ganhou outra capacidade de gerir o jogo a partir de trás mas nem por isso evitou aqueles que eram os dois principais argumentos do FC Porto: os movimentos vindo de trás à procura do espaço de Fofana e as diagonais de William Gomes, que rematou com perigo mas ao lado logo no arranque do segundo tempo (50′). Ainda assim, e apesar desse susto, McAtee teria o outro sinal de perigo num remate de meia distância defendido por Diogo Costa (58′) antes de Farioli mexer pela primeira vez na equipa com entradas de Froholdt, Borja Sainz e Moffi… com algumas “azias” à mistura.
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A partir daí, apesar do ascendente dos azuis e brancos no jogo, a primeira aproximação com perigo foi dos ingleses, com Igor Jesus a ver um golo anulado num lance de insistência com Diogo Costa no chão após levar um toque na cabeça do avançado brasileiro antes do golo (63′), mas só a baliza do Nottingham Forest teve lances de perigo: Ortega defendeu mais um bom remate de William Gomes (70′), Deniz Gül teve uma jogada de insistência na área com uma tentativa em arco que saiu pouco por cima (72′), Froholdt atirou cruzado na área após assistência de Pepê mas o tiro saiu a rasar o poste (81′), Alan Varela teve uma boa combinação no corredor central com Pablo Rosario mas disparou rasteiro para defesa de Ortega (84′), Bednarek cabeceou na sequência de um livre lateral de novo para as mãos do guarda-redes contrário (90+1′). Apesar de insistência, o empate não mais seria desfeito e a eliminatória vai em aberto para Inglaterra.
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