O líder da oposição húngara e favorito nas eleições legislativas do próximo domingo, Péter Magyar, tem como principal bandeira eleitoral o combate à corrupção, no país considerado o mais corrupto da União Europeia.
No Índice Anual de Perceção da Corrupção de 2025 divulgado em fevereiro, da Transparência Internacional, a Hungria foi pelo quarto ano consecutivo o Estado-membro mais corrupto da UE e 84.º no ranking global, dois lugares abaixo do anterior.
“Esta é a pior pontuação e a mais baixa classificação alguma vez registada pela Hungria. O mau resultado reflete a contínua falha em remediar as deficiências do Estado de Direito e em combater a corrupção sistémica”, segundo a organização não-governamental (ONG).
Além disso, o país registou o declínio mais significativo entre os Estados-Membros da UE nos últimos 13 anos: entre 2012 e 2025, a sua pontuação de resiliência contra a corrupção caiu 15 pontos, aponta.
“A corrupção sistémica, manifestada no roubo organizado de fundos públicos, é a principal razão por detrás do agora persistente declínio económico do país”, acrescenta a organização.
“A corrupção não é inevitável: os que estão no poder devem ser responsabilizados pelo interesse público para que a democracia funcione e para que possamos viver numa sociedade livre e aberta”, disse François Valérian, presidente global da Transparência Internacional, citado no relatório.
Só no ano passado, recorda a ONG, a Hungria perdeu permanentemente mais 1,1 mil milhões de euros no âmbito da política de coesão da União Europeia, devido a “deficiências do Estado de Direito”.
Por outro lado, se o Governo não implementar totalmente as 27 medidas anticorrupção e de restauração do Estado de Direito com que se comprometeu até ao final de 2026, pode ter todo o envelope do Mecanismo de Recuperação e Resiliência criado pela UE no pós-covid.
“O saldo financeiro da Hungria na UE é ainda mais agravado por uma decisão do Tribunal de Justiça da União Europeia datada de 13 de junho de 2024, que ordenou o pagamento de uma multa de 200 milhões de euros, bem como uma multa coerciva de um milhão de euros por dia”, na sequência de uma lei do asilo aprovada por Budapeste, aponta ainda.
O media online independente Válasz publicou em fevereiro um livro intitulado “Os 50 negócios mais sujos da era Orbán”.
“Resumimos a era Orbán neste formato para que possamos entender de que tipo de abusos económicos institucionalizados fomos vítimas, que equivalem à mutilação do país e que reduzem fundamentalmente a margem de manobra dos governos seguintes”, afirma o órgão, segundo o qual um valor equivalente a 28,9 mil milhões de euros “foi desviado”.
“Um guia para a clareza – e um espelho para a elite do NER [sigla em húngaro de Sistema de Cooperação Nacional]”, refere o órgão online sobre a publicação, que vai já na terceira edição.
“Tal como na maioria das aquisições e outros tipos de contratos, são sempre as mesmas pessoas e os mesmos círculos, as mesmas empresas eram as vencedoras. E normalmente, o Estado era lesado e perdia dinheiro sem razão racional”, comentou, em entrevista à Lusa, o jornalista de investigação Péter Magyari, que trabalha no Válasz.
Para ilustrar o privilégio do círculo próximo do primeiro-ministro, Viktor Orbán, o jornalista descreveu: “No que diz respeito às contratações públicas financiadas com fundos de coesão da União Europeia, 20% de todo o dinheiro foi destinado a empresas detidas por 12 indivíduos, que são os companheiros mais visíveis e importantes do senhor Orbán. É uma enorme concentração do dinheiro”.
“Se olharmos para o orçamento nacional, como as empresas foram subsidiadas, como foram feitos contratos de aquisição, como privatizaram diferentes setores, então, é muito mais”, comentou.
Outro exemplo: o genro de Viktor Orbán construiu um complexo de edifícios de escritórios caros em Budapeste, mas entretanto surgiu a pandemia e não houve procura.
O Governo comprou esses edifícios e transferiu serviços da administração pública para lá, “mas não precisavam disso de tudo”, narrou Magyari, rematando: “Foi uma grande perda sem razão, e temos muitas histórias assim”.
O analista do centro de estudos Friends of Europe Gábor Iklódy descreveu, num artigo, que “grande parte do declínio” económico da Hungria “pode ser atribuído a Viktor Orbán, que construiu na Hungria um ‘estado mafioso’, que apelidou de ‘democracia iliberal'”.
“Na prática, o país é hoje marcado pela concentração constante do poder, o enfraquecimento dos mecanismos institucionais de controlo e equilíbrio, a captura política de uma grande maioria do panorama mediático e o surgimento de uma elite económica e política muito unida, alinhada com Orbán e os seus aliados”, considera.
Segundo o especialista, os leais ao partido no poder “foram colocados em posições-chave em instituições estatais, órgãos reguladores e empresas públicas – muitas delas muito para além do ciclo eleitoral para garantir influência a longo prazo, independentemente dos resultados eleitorais futuros”.
Analistas consideram que o desgaste social causado pelas dificuldades económicas pode favorecer o partido opositor Tisza.
Fundado em 2024 por Péter Magyar, um dissidente do Fidesz, o Tisza propõe uma profunda reforma do Estado com a restauração da separação de poderes, a luta contra a corrupção e a recuperação da confiança nas instituições.
O partido, que obteve 30% dos votos nas eleições europeias de há dois anos, denuncia a existência de uma “economia de favores” em que os contratos públicos beneficiam figuras próximas do poder.
Se o Tisza conseguir formar governo, terá de enfrentar o problema de as empresas mais importantes e muitas instituições estatais estarem nas mãos de familiares, amigos e políticos próximos de Orbán.
O primeiro-ministro e os seus próximos negam todas estas acusações.