Neste artigo, centramos a análise na intervenção técnica que foi sendo implementada ao longo do processo. Através do testemunho de Artur, procuramos compreender como se (re)constrói uma relação entre um pai e uma filha alienados quando esta já se encontra profundamente fragilizada. Mais do que um conjunto de encontros “supervisionados” ou “acompanhados”, a intervenção técnica revela-se aqui como um processo estruturado, progressivo e exigente, marcado por avanços, recuos e momentos de grande intensidade emocional. É nesse percurso, feito de pequenas aproximações e constantes desafios, que se torna possível observar, de forma concreta, as várias fases da recuperação de uma relação afetiva e de proximidade entre a filha e o pai, ambos alienados. Neste caso, a intervenção técnica pode ser compreendida como um processo estruturado, que acompanha diferentes etapas ou fases da reconstrução da relação entre pai e filha, num contexto de rutura já instalada. O processo de intervenção do técnico tem várias etapas.
Numa primeira etapa, surge a identificação da rutura e da necessidade de mediação. No seu testemunho, o Artur evidenciou esse momento crítico: “Quando tentei aproximar-me dela, a minha filha dizia que não queria estar comigo…O tribunal acabou por indicar uma técnica para acompanhar esse processo de aproximação”. A Menção ao facto de ser necessária a intervenção do tribunal revela que a relação já não conseguia sustentar um contacto direto. A referência à recusa da filha alienada indica um afastamento emocional já cristalizado, exigindo a criação de um espaço de aproximação com proteção. Nesta fase, a função da intervenção técnica é a de conter a situação, evitar um maior dano emocional e permitir que o contacto possa existir, ainda que de forma mediada.
Segue-se uma outra etapa correspondente ao primeiro contacto acompanhado, geralmente breve e emocionalmente intenso. O Artur descreveu esse momento de forma particularmente expressiva: “Quando finalmente cheguei, ao fim de muitos meses, quase dois anos sem ver a minha filha… coloquei-lhe um livro à frente, mas ela pegou no livro e atirou-o diretamente para o lixo…” (…) A técnica pediu-me que me sentasse na outra ponta da mesa. Era uma mesa comprida, retangular. A Matilde ficou num lado, eu no outro. E ela disse apenas à técnica: ‘Eu posso ir embora? Isto já acabou.’ … ‘Quem me dera que ele não fosse o meu pai.’ Nesse momento, fiquei sem chão”. Neste momento revela-se a dimensão da rutura emocional. A rejeição expressa pela criança traduz o impacto do afastamento prolongado. A intervenção técnica assume aqui um papel essencial de regulação emocional, protegendo o espaço do encontro e evitando que a situação se agrave.
Após este primeiro contacto, inicia-se uma terceira etapa, centrada na estabilização e continuidade do processo. A técnica enquadra a intervenção como um trabalho prolongado no tempo: “Já passaram 12 anos e ainda hoje não é fácil falar sobre isto. Nesse dia, a técnica deu a sessão como terminada, durou cerca de dois minutos. Pediu-me que esperasse, saiu com a minha filha e entregou-a à mãe. Depois disse-me: ‘Temos aqui um longo trabalho pela frente, mas já vi situações piores do que a sua. Enquanto me deixarem trabalhar, vou fazer tudo o possível para que se cumpra o que o tribunal estipulou’”. Esta perspetiva introduz um elemento fundamental: a ideia de que a reconstrução da relação não acontece de forma imediata, mas através de repetição, consistência e tempo. É a continuidade dos encontros que permitirá reduzir a ansiedade e criar alguma previsibilidade na relação.
Numa quarta etapa, observa-se o início de uma reaproximação progressiva, através de momentos estruturados e acompanhados, com recurso a atividades de que a criança gosta ou de que gostava antes da rutura, o que é uma estratégia fundamental para facilitar a interação. O Artur referiu-se a este momento: “Em setembro de 2015, já tinha passado mais de um ano desde o início deste processo. Nessa altura, comecei a acompanhar a minha filha Matilde em pequenas rotinas do dia a dia, como ir buscá-la à escola, sempre com a presença da técnica (…) Estávamos juntos durante aquele tempo limitado, uma hora, mais ou menos. Cheguei a levá-la ao jardim, sempre acompanhado pela técnica (…) Tudo foi acontecendo de forma gradual, passo a passo, com o apoio constante da técnica (…) “Começámos com encontros acompanhados, às terças e às quintas. Aos poucos, as coisas foram evoluindo, primeiro uma hora, depois duas”. Nesta fase, a reconstrução da relação acontece de forma lenta e cuidadosamente estruturada. O tempo limitado dos encontros, a repetição dos momentos e a presença constante da técnica criam um ambiente seguro, onde o contacto pode ser retomado sem pressão. A relação deixa de ser marcada apenas pela rejeição e começa a caracterizar-se por pequenas oportunidades de aproximação. À medida que o processo evolui, a mediação através de atividades assume um papel central: “Mais tarde, já fazíamos atividades juntos com a técnica. Lembro-me de irmos fazer surf, de irmos andar de karting… era ela que organizava essas atividades, criando oportunidades para estarmos juntos e reconstruirmos a relação”. Estas experiências partilhadas permitem que a relação se construa na ausência do confronto direto. A interação passa a acontecer de forma mais natural, através de momentos vividos em conjunto, o que facilita a proximidade emocional. A criança deixa progressivamente de estar apenas numa posição de resistência e começa, ainda que de forma gradual, a participar na relação. No conjunto, esta etapa mostra como a intervenção técnica, através da estrutura, da repetição e da escolha de atividades significativas, cria condições reais para a reconstrução de uma relação afetiva que tinha sido interrompida.
Segue-se uma quinta etapa, de avaliação e informação para o tribunal, onde a técnica assume também um papel formal de observadora. Como referiu o Artur: “A técnica fazia sempre relatórios do que ia acontecendo. À medida que esses relatórios eram enviados para o tribunal…”. Os relatórios são instrumentos centrais no processo judicial, permitindo acompanhar a evolução da relação e apoiar a tomada de decisões. No entanto, esta visibilidade do processo pode também gerar novas tensões., tal como as descreveu o Artur: “Quando chegava o momento das atividades, a Matilde acabava por colaborar… mas… à medida que esses relatórios eram enviados para o tribunal, a mãe ia criando incidentes…”. Este momento evidencia como a evolução positiva da relação pode coexistir com o agravamento do conflito entre os pais. À medida que surgiam sinais de aproximação entre pai e filha, aumentavam também as reações e os obstáculos criados pela mãe, mostrando que o processo não era linear. Assim, esta etapa revela uma dupla dimensão: por um lado, a consolidação da intervenção técnica através da monitorização e avaliação; por outro, a fragilidade do processo, exposto a dinâmicas de conflito que podem comprometer os avanços alcançados.
Numa sexta etapa, surgem sinais claros de evolução na relação, marcando o início de uma progressiva autonomização do contacto entre pai e filha. Artur descreveu-a assim: “Aos poucos, as coisas começaram a melhorar. Pelo Carnaval, a Matilde já dormiu em minha casa pela primeira vez. Foi um momento importante. Depois disso, começou-se a preparar a possibilidade de ela passar mais dias comigo durante a semana, para além dos fins de semana. Nessa altura, os relatórios da técnica já eram mais favoráveis ao pai do que à mãe”. Este momento representa um avanço significativo no processo. A aceitação do contacto bem como a permanência da criança em casa do pai indicam uma mudança no seu posicionamento emocional. A relação, que inicialmente estava marcada pela rejeição, começa a dar lugar a uma aproximação possível. Ainda que gradual e frágil, esta evolução mostra que, com tempo, continuidade e apoio adequado, é possível reconstruir uma relação afetiva anteriormente interrompida.
Por fim, surge uma sétima etapa marcada pela instabilidade e interrupção do processo técnico, comprometendo a continuidade do trabalho desenvolvido. Artur referiu-se a esse momento com o seguinte testemunho: “Como os relatórios começaram a ser favoráveis para mim, a mãe lançou uma nova acusação… disse que a técnica tinha uma relação comigo… Perante isso, o juiz decidiu afastar aquela técnica e nomear duas novas”. Este episódio revela como a evolução positiva da relação pode desencadear novas formas de conflito. A mudança de técnicos quebra a continuidade da intervenção e fragiliza o processo, interrompendo o trabalho que vinha a ser construído de forma gradual. Ao mesmo tempo, o Artur reconheceu o papel fundamental da técnica no percurso até então realizado: “E assim foi. Essa técnica …, é alguém por quem tenho uma enorme gratidão. Foi reportando ao tribunal e o processo foi avançando (…) A técnica…, fazia sempre relatórios do que ia acontecendo. À medida que esses relatórios eram enviados para o tribunal, a mãe ia criando incidentes por diferentes motivos”. Este testemunho evidencia a importância da intervenção técnica na estruturação e acompanhamento do processo, mas também a sua vulnerabilidade perante dinâmicas de conflito persistentes. A interrupção da intervenção não representa apenas uma mudança de profissionais, mas a quebra de um espaço de confiança essencial para a reconstrução da relação.
Em síntese, o percurso de acompanhamento do caso do Artur evidencia que a intervenção técnica em situações de alienação parental é um processo longo, exigente e vulnerável a interrupções. A reconstrução da relação entre pai e filha não acontece de forma linear, mas através de avanços e recuos, num caminho marcado por fragilidade e persistência. A sua eficácia depende da continuidade do acompanhamento especializado, da estabilidade da intervenção e da capacidade de criar um espaço seguro, onde essa relação possa ser reconstruída de forma gradual, passo a passo.