Num texto do final da passada semana, o ex-Presidente da República e ex-Primeiro Ministro acusa o maior partido da oposição de ser uma força “desprovida de ideologia coerente” e “impreparada tecnicamente”, alertando para o perigo do populismo. Segundo ele, o verdadeiro bloqueio às reformas seria a oposição — PS e Chega —, enquanto o Governo de Luís Montenegro encarnaria o espírito reformista que o país precisa.
É uma narrativa politicamente confortável. É também analiticamente duvidosa.
O fenómeno protagonizado pelo Chega, que o Professor Cavaco Silva deplora, não é uma anomalia portuguesa: é europeu. Em toda a Europa Ocidental, os partidos socialistas e social-democratas sofreram nos últimos dez anos um declínio eleitoral sem precedentes desde o pós-guerra. O PS francês desabou de 29% para 6%. O SPD alemão perdeu quase dez pontos. O PvdA holandês colapsou de 25% para 3,5%. Em Portugal, o PS caiu de 36,3% em 2019 para 22,8% em 2025. Em paralelo, a direita conservadora e nacionalista cresceu em toda a parte — o RN passou de 13% para 33% em França; o FdI de 2% para 26% em Itália; o Chega de 1,3% para 22,8% em Portugal. O crescimento do Chega não é um acidente de retórica: é a expressão local de uma crise de representação que varre a democracia liberal europeia.
Os dados do século XXI são, a este respeito, implacáveis. Em 2000, o PIB per capita português em paridade de poder de compra corresponderia a 85% da média da UE. Em 2025, estima-se em 81%. Vinte e cinco anos de governação PS/PSD não produziram uma convergência com a média da UE. No mesmo período, a Irlanda passou de 131% para 230% da média europeia. A Espanha manteve-se consistentemente dez pontos acima de Portugal. A produtividade laboral portuguesa continua 32 pontos percentuais abaixo da média da UE — e o fosso não se fechou em nenhum dos vinte e cinco anos do período. A causa é estrutural: Portugal continua excessivamente dependente de setores de baixo valor acrescentado — o turismo representa cerca de 22% do PIB, a construção e o imobiliário outros 12% — enquanto a indústria de alta tecnologia permanece em cerca de 4%, menos de um quarto da média europeia.
Os salários refletem esta realidade. O salário médio anual situa-se em cerca de 25.500 euros — contra 40.500 euros na mediana da UE. O salário mínimo de 920 euros mensais continua entre os mais baixos da Europa Ocidental. Cerca de 2 milhões de portugueses, mais de 20% dos nascidos no país, vivem hoje no estrangeiro. Portugal exporta capital humano qualificado — formado com dinheiro público — e importa mão-de-obra essencialmente de baixa qualificação para alimentar os setores tradicionais que perpetuam o baixo valor acrescentado. É a dupla penalidade do modelo PS/PSD.
A saúde e a habitação: dois retratos do Estado falhado
Poucos setores ilustram melhor este falhanço do que a saúde e a habitação. No SNS, havia em Dezembro de 2024 cerca de 190.000 utentes em lista de espera para cirurgia — um aumento de 2,6% face ao ano anterior. Nas cirurgias cardíacas, 58,9% dos utentes aguardavam há mais tempo do que o prazo legalmente garantido. Em oncologia, 17,2% superavam o limite legal. Portugal gasta em saúde cerca de 10% do PIB — percentagem próxima da média europeia —, mas o valor absoluto por habitante, em paridade de poder de compra, é 22% inferior à média da OCDE, reflexo direto do PIB reduzido. O resultado é um sistema cronicamente pressionado: 15% da população não tem médico de família no SNS; os gastos de bolso representam 29% do total da despesa em saúde, um dos rácios mais elevados de toda a UE.
Na habitação, a crise é ainda mais visível. Entre 2015 e 2025, os preços de compra em Portugal mais do que duplicaram, enquanto na UE o aumento foi de 60%. Em Março de 2026, a mediana nacional aproxima-se dos 2.100 euros por metro quadrado; em Lisboa, um apartamento novo custa em média mais de 6.000 euros por metro quadrado. Um português com salário médio precisa de mais de 6 anos de salário bruto para comprar 70 metros quadrados — e gasta, em Lisboa, cerca de 43% do rendimento bruto mensal numa renda para a mesma área. A causa principal não é o mercado livre: é o Estado. O parque público de arrendamento representa apenas 2% do total de habitações em Portugal, contra 17% em França e 30% nos Países Baixos. O Golden Visa e o Regime dos Residentes Não Habituais canalizaram capital estrangeiro para os imóveis portugueses e expulsaram os residentes dos centros urbanos.
O bloqueio tem nome e tem história
Ao lado deste retrato económico e social, há uma degradação institucional que Cavaco Silva prefere ignorar. Em 2024, Portugal obteve 56 pontos no Índice de Perceção da Corrupção da Transparency International — o pior resultado de sempre, que coloca o país na 46.ª posição mundial. Em vinte anos de medições, a perceção de corrupção não cessa de piorar. Nas energias, nas comunicações, na banca os portugueses pagam, em paridade de poder de compra, mais do que a média da Europa Ocidental. Estes sobrecustos resultam de décadas de regulação ineficaz e de proximidade excessiva entre poder político e interesses económicos instalados.
Neste contexto, é sintomático que Luís Montenegro, durante toda a sequência eleições legislativas e presidenciais desde 2024, tenha sistematicamente recusado um acordo formal de governação para toda a legislatura, mantendo o seu “não é não” — e bloqueando o entendimento com a segunda força que os eleitores elegeram para o parlamento.
Entendimentos cruzados ou governação por blocos?
A questão que se impõe é, por isso, de natureza sistémica: é exequível esperar entendimentos programáticos entre partidos de poder em alternância quando as bases eleitorais, as culturas organizativas e as agendas políticas divergem de forma crescente? Ou será mais realista, e mais produtivo para a governabilidade, que a democracia portuguesa evolua para uma lógica de blocos — um bloco de direita (AD, Chega, IL) e um bloco de esquerda (PS, BE, CDU, Livre) — à semelhança do que já acontece, de facto senão de direito, em vários países europeus?
A experiência europeia recente sugere que a segunda hipótese é mais honesta e mais eficaz. Na Suécia, o governo de direita governa com apoio parlamentar dos Democratas Suecos sem os incluir no executivo — modelo de entendimento estruturado por blocos que garante governabilidade sem coligações formais. Em Itália, Meloni governa uma coligação de direita com maioria estável. Em contraste, os modelos de grande coligação ao centro tendem a produzir paralisia reformista e a acelerar o crescimento das alternativas radicais. A recusa de Montenegro em estabelecer um entendimento estruturado com a segunda força parlamentar eleita por quase um em cada quatro portugueses não é uma postura reformista. É uma escolha de bloqueio.
O diagnóstico do Sr. Professor Cavaco Silva contém elementos válidos — a importância da produtividade, das reformas estruturais e da qualidade das instituições. Mas evita o essencial: não identifica as causas, não nomeia os responsáveis, e descarrega no ruído político o paradigma de estagnação e empobrecimento relativo que foi sendo construído ao longo de anos por quem governou. Portugal não está atrasado por causa dos novos partidos. Está atrasado porque, durante décadas, os velhos partidos que governaram não transformaram o modelo económico, não reformaram o Estado, permitiram a degradação institucional, e não criaram condições para reter talento.
Sem um reconhecimento claro desta responsabilidade histórica, qualquer apelo a reformas corre o risco de ser apenas mais um capítulo de um discurso repetido — e inconsequente.