Preocupado com o actual estado do mundo (e quem não está?), o Festival de Cannes, pelas vozes da sua presidente, Iris Knobloch, e do seu delegado-geral, Thierry Frémaux, lembrou esta manhã, em Paris, que foi em tempos de incerteza, em 1939, na antecâmara da II Guerra Mundial, que Cannes foi lançado (uma primeira edição que seria cancelada em seguida, para só voltar após o fim do conflito) e que a sua missão continua a mesma: juntar filmes e artistas do mundo inteiro, “não como um luxo, mas por necessidade”, palavras de Knobloch. “Quando o mundo se ensombra e perde as suas coordenadas, mostrar filmes de todos os horizontes não é um gesto anódino, antes uma revelação do que a humanidade tem de mais precioso: a sua capacidade de sonhar e de pensar livremente.”
Em seguida, Thierry Frémaux apresentou um promitente programa de 21 longas-metragens, cinco francesas, três nipónicas, salientando-se também a mais forte presença espanhola de sempre a concurso, num momento em que a cinematografia do país vizinho atravessa óptimo momento. No lote estão alguns dos cineastas mais promissores do cinema contemporâneo. E nenhum desagua dos grandes estúdios de Hollywood para o concurso pela Palma de Ouro.
Veja-se o caso do francês Arthur Harari, que depois da extraordinária teatralização da sobrevivência a céu aberto vista no sublime Onoda — em torno do dito soldado japonês que passou 29 anos na selva, julgando que a II Guerra Mundial continuava — regressa a Cannes pela porta grande com L’inconnue. É um thriller fantástico, preparado com Léa Seydoux a partir de uma novela gráfica escrita pelo cineasta e pelo seu irmão Lucas Harari. Niels Schneider interpreta um fotógrafo solitário que se descobre enclausurado num corpo que não é o dele mas sim o da desconhecida do título.
De França, chega mais sangue novo à competição, novas obras de cineastas que já visitaram Cannes nas secções paralelas, mas não a sua plateia principal: é o caso de Histoires de la nuit, de Léa Mysius (Hafsia Herzi e Benoît Magimel cruzam-se com Monica Bellucci num thriller de horror passado em meio rural) ou de Garance, nova longa-metragem da actriz e realizadora Jeanne Herry (filha de Miou-Miou e do cantor Julien Clerc), com Adèle Exarchopoulos no papel central.
Notre salut, de Emmanuel Marre, drama de época passado na França de Vichy, em 1940, durante a ocupação alemã, e La vie d’une femme, de Charline Bourgeois-Tacquet, com a fabulosa actriz Léa Drucker (que pode ser vista estes dias em Caso 137) fecham a representação em língua francesa. Já o belga Lukas Dhont rodou desta vez em inglês o seu novo trabalho, Coward, em torno de um soldado belga da I Guerra Mundial. Foi um dos últimos filmes seleccionados e ainda está em fase de pós-produção, avançou Frémaux.
All of Sudden, de Ryusuke Hamaguchi (regresso a Cannes após Drive My Car), Sheep in the Box, de Hirozaku Kore-eda (venceu a Palma de Ouro 2018 por Shoplifters: Uma Família de Pequenos Ladrões) e Nagi Notes, de Koji Fukada formam uma representação nipónica abundante face a um só filme coreano a concurso, Hope, de Na Hong-jin. Este último é falado em coreano e inglês e conta com Alicia Vikander e Michael Fassbender (que são casados na vida real), “mudando permanentemente de género”, avançou Frémaux, entusiasmado com o que aí vem.

O delegado-geral destacou especialmente o título de Kore-eda. É a 20.ª longa do japonês e uma ficção-científica sobre o confronto entre o humano e o artificial. O filme passa-se num futuro próximo em que um casal bem sucedido na vida, mas sem filhos, decide receber em casa um robô que é o nec plus ultra da tecnologia, adoptando-o como se fosse seu filho. “É um filme que fala da IA. Há que dizer que a IA está para a inteligência como a bicicleta eléctrica para a bicicleta tradicional. Mas é preciso saber andar de bicicleta…” A sala riu-se: Frémaux usa com frequência a bicicleta durante o Festival de Cannes para fintar o trânsito e chegar a tempo aos seus compromissos.
De cinema asiático estamos conversados. Isto porque é francês de gema o novo trabalho do iraniano Asghar Farhadi, Histoires Parallèles — e o seu elenco impressiona: Isabelle Huppert, Catherine Deneuve e Virginie Efira, além de Vincent Cassel e Pierre Niney. Passa-se em Paris e mais nada se sabe da obra até à data.
E a Espanha? Está em grande, com a chamada à competição, pela primeira vez, de Rodrigo Sorogoyen, o autor de As Bestas. A nova obra, El Ser Querido, competirá pela Palma de Ouro, traz Javier Bardem e um guião com história de família e afinidades a Valor Sentimental, de Joachim Trier. La Bola Negra, de Javier Calvo e Javier Ambrossi, é a segunda obra espanhola a concurso numa representação hispânica que se completa com o último trabalho de Pedro Almodóvar, Amarga Navidad, estreado no país vizinho no passado 20 de março. Esse facto não o impede de ir a concurso em maio. Almodóvar já esteve várias vezes próximo do triunfo mas nunca ganhou em Cannes, falta-lhe uma Palma no seu currículo.
O romeno Christian Mungiu já tem uma — regressa a Cannes com um filme rodado na Noruega, Fjord. O russo Andrey Zvyagintsev, que abandonou o seu país desde a invasão da Ucrância, estabelecendo-se em França em 2023, traz Minotaur ao concurso. Frémaux chamou-lhe uma “espécie de remake de A Mulher Infiel, de Chabrol” passado na Rússia do presente. A concurso juntam-se outros repetentes: o polaco Pawel Pawlikowski com um novo filme de época a preto e branco, Fatherland (à semelhança de Cold War, 2018); o húngaro László Nemes, com Moulin (sobre Jean Moulin, herói da resistência francesa, o papel é de Gilles Lellouche) e o norte-americano Ira Sachs, com The Man I Love, uma entrada no musical, com Rami Malek, e filme novamente escrito a quatro mãos, entre Sachs e Mauricio Zacharias.
Por último, dois dos anunciados que mais aguardamos, curiosamente, dois filmes de realizadoras de língua alemã: Gentle Monster, em que a austríaca Marie Kreutzer juntou Léa Seydoux e Cathernine Deneuve; e The Dreamed Adventure, rodado na Bulgária pela alemã Valeska Grisebach, a autora dos excelentes Mein Stern, Sehnsucht e Western (o seu trabalho anterior, visto e estreado em Portugal, em 2017). Frémaux disse ainda que um 22.º filme juntar-se-á ao lote nos próximos dias mas não pode ainda ser anunciado por questões contratuais. Aceitam-se apostas.
Escreveu-se em cima que falta cinema americano a Cannes 2026 mas esta edição até vai mostrar a estreia na realização do actor Andy Garcia, Diamond, com intérpretes tão salientes como Brendan Fraser, Bill Murray e Dustin Hoffman (além do próprio Garcia no papel principal). Passará fora de concurso, tal como o documentário John Lennon: The Last Interview, de Steven Soderbergh, ou a novidade Teenage Sex and Death at Camp Miasma, da nova-iorquina Jane Schoenbrun (abre a paralela Un Certain Regard).
Sublinhe-se que a programação de Cannes está longe de ficar completa pelo anúncio desta quinta-feira: por hábito, o festival anuncia repescagens para as diferentes secções, que acontecerão certamente nos próximos dias, e faltam ainda os comunicados das secções paralelas do festival, independentes das escolhas da equipa de Frémaux. A Semana da Crítica anunciará o seu programa definitivo na segunda-feira, dia 13. A Quinzena dos Cineastas revelará o line-up no dia seguinte, terça-feira, tal como o ACID (a secção que exibiu em estreia mundial, no ano passado, Entroncamento, de Pedro Cabeleira).
Travolta também estará em Cannes. E Claire Denis é homenageada na Quinzena dos Cineastas
Ele é o “inesquecível Vince Vega de Pulp Fiction”, escreveu com entusiasmo Cannes sobre o célebre actor norte-americano, eternizado na Croisette por Quentin Tarantino — foi em 1994, quando Pulp Fiction arrecadou a Palma de Ouro. Em breve, John Travolta será mais do que isso e tornar-se-á realizador graças a Propeller One-Way Night Coach, uma adaptação para cinema do homónimo livro infantil de 1997 sobre aviação que o próprio escreveu e ilustrou para o seu filho Jett (que morreu em 2009, com 16 anos). É a estreia de Travolta na realização. Já tinha sido anunciada há dias. O festival exibirá o filme fora de concurso, na secção Cannes Première.
A aviação é paixão muito antiga para a estrela de Hollywood, de resto, um piloto experiente, com mais de 9000 horas de voo e licença de aviação comercial que já lhe permitiu pilotar diversos Boeing. Tornou-se ainda no primeiro piloto privado do mundo autorizado a comandar um Airbus A380. Cannes também lembrou que Travolta pilotou, de facto, os aviões de dois filmes em que entrou como actor: Olha Quem Fala (1985), de Amy Heckerling e Operação Flecha Quebrada (1996), de John Woo. Propeller One-Way Night Coach será exibido na secção Cannes Première, fora de concurso. A 29 de Maio, estrear-se-á no streaming, na grelha de programação da Apple TV.
Na Quinzena dos Cineastas, Claire Denis vai receber a Carrosse d’or, prémio honorário à carreira criado por aquela secção paralela do festival, em 2002. Todd Haynes recebeu a distinção no ano passado, Andrea Arnold foi a escolhida em 2024 e, no historial do galardão, estão cineastas como Frederick Wiseman, John Carpenter, Martin Scorsese, Agnès Varda, David Cronenberg ou Clint Eastwood. A cineasta francesa, de 79 anos, tem uma obra “profundamente política sem jamais ceder à ilustração, que interroga as heranças coloniais, as fronteiras, as identidades e desejos com uma exigência formal e uma confiança absoluta no cinema enquanto arte do presente”, escreve a Sociedade das Realizadoras e Realizadores de Filmes (SRF), que organiza a Quinzena. Note-se que o mais recente filme de Claire Denis, Le cri des gardes, estreado em Toronto — uma adaptação da peça teatral Combat de nègre et de chiens, de Bernard-Marie Koltès —, continua inédito em Portugal.

Cannes já havia anunciado no início deste mês que o filme de abertura deste ano será La Vénus électrique, comédia romanesca e “deliciosamente burlesca”, assinada por Pierre Salvadori. Filme de época passado na Paris dos anos 20 do século passado, segue um jovem e viúvo pintor em voga que deixa de conseguir trabalhar após a morte da mulher, caindo em seguida na impostura de uma vidente manipuladora, disposta a “pô-lo em contacto” com a defunta. A obra partiu de uma ideia original de Rebecca Zlotowski e Robin Campillo, no elenco estão Pio Marmaï, Anaïs Demoustier, Vimala Pons e Gilles Lelouche. Já Salvadori confessou-se inspirado pela comédia sofisticada de Hollywood, “fervente admirador de Ernst Lubitsch, Billy Wilder e Blake Edwards.”
Nesta década, Cannes tem escolhido sempre filmes franceses para abrir o certame, com títulos desiguais que têm feito fraca figura. Que as expectativas não fiquem, portanto, demasiado altas. De qualquer forma, La Vénus électrique não integrará o concurso que, este ano, será avaliado pelo júri presidido pelo sul-coreano Park Chan-wook. Cannes atribuirá em 2026 duas Palmas de Ouro honorárias, a Peter Jackson e a Barbra Streisand. O festival vai decorrer entre 13 e 24 de Maio.
Eis a lista dos 21 filmes apresentados a concurso em Cannes, esta manhã:
Minotaur, de Andrey Zvyagintsev
El Ser Querido, de Rodrigo Sorogoyen
The Man I Love, de Ira Sachs
Fatherland, de Pawel Pawlikowski
Moulin, de László Nemes
Histoires de la nuit, de Léa Mysius
Fjord, de Christian Mungiu
Notre salut, de Emmanuel Marre
Gentle Monster, de Marie Kreutzer
Nagi Notes, de Koji Fukada
Sheep in the Box, de Hirozaku Kore-eda
Hope, de Na Hong-jin
Garance, de Jeanne Herry
L’inconnue, de Arthur Harari
All of a Sudden, de Ryusuke Hamaguchi
The Dreamed Adventure, de Valeska Grisebach
Coward, de Lukas Dhont
La Bola Negra, de Javier Calvo e Javier Ambrossi
La vie d’une femme, de Charline Bourgeois-Tacquet
Histoires parallèles, de Asghar Farhadi
Amarga Navidad, de Pedro Almodóvar
O autor escreve segundo a antiga ortografia.