Em 1950, um conjunto de católicos protestou contra uma representação de Cristo na Cruz desenvolvida por Germaine Richier para a Igreja de Plateau d’Assy. A imagem desfigurada, “sem rosto humano agradável”, impercetível, contrastava com a figura de olhos claros, face polida e barba rigorosamente aparada que circulava de forma regular. E embora André Malraux tenha dito que o Cristo de Richier era o único Cristo diante do qual qualquer pessoa pode rezar, isso não impediu que um movimento mais zeloso publicasse um panfleto onde dizia: “on ne se moque pas de dieu”, “ce n’est pas mon dieu”. (Não se escarnece de Deus. Este não é o meu Deus). No entanto, mesmo não concordando com a avaliação estética destes grupos, talvez seja justo começar a aplicar essa perspetiva a outras dimensões.
Na segunda-feira passada, o “departamento de guerra” dos Estados Unidos organizou uma conferência de imprensa onde prestaram declarações Donald Trump e Pete Hegseth. Trump conjugou, o certamente inédito conjunto de frases, “Boa Páscoa. Esta foi uma das nossas melhores Páscoas. Ao nível militar, foi uma das melhores”, para acrescentar, logo a seguir que, “Deus estava a observar-nos. Bom, era Páscoa. Estávamos em clima de Páscoa, acho eu. Mas Deus estava a observar-nos. Incrível”. O contexto era a notícia do resgate de um soldado americano perdido em solo iraniano. Para justificar o sucesso da operação — salvar uma vida é sempre justo e moralmente correto — Hegseth comparou o soldado a um novo Cristo que passou pelo processo Pascal da Semana Santa e repetiu, várias vezes, a expressão “Deus é bom” para, minutos depois, dizer que quem tem dúvidas sobre o poder do Presidente americano deve perguntar a Soleimani, Maduro e Khamenei o que acham sobre o assunto.
Diante disto, só posso dizer “este não é o meu Deus”. Se o Irão é um regime que usa, manipula e adultera a religião para fins políticos, como cristãos não podemos aceitar que usem a imagem do Deus de Jesus Cristo do mesmo modo. A imagem de Deus que perpassa no discurso da administração americana é perversa, incompleta e irresponsável. Este não é o Deus de Jesus Cristo. Não é o meu Deus. Não é o Deus da tão celebrada cultura ocidental. É o Deus do paganismo, que o Cristianismo demorou anos a combater.
O Deus de Jesus Cristo é o Deus das Vítimas, o Deus que “derrubou os poderosos dos seus tronos e exaltou os humildes”. Não o que usa os derrotados, mesmo que ditadores, como cabeças de cartaz do seu circo de feras. O Deus de Jesus Cristo expõe o absurdo do mal. Não sustenta a ideia de uma teologia da retribuição onde o bem só acontece aos bons, e o mal aos maus. O Deus de Jesus Cristo só é omnipotente porque é “omni-abraçante”, débil e impotente. Não um amuleto de guerra. O Deus de Jesus Cristo, o próprio Jesus, é Rei, mas o seu trono é uma Cruz e o seu Reino “não é deste mundo”. Por isso, não podemos aceitar que alguns deturpem essa ideia de realeza para legitimarem o seu uso desmedido da coroa. O Deus de Jesus Cristo não é a música de elevador que se usa para compor e engrandecer o cenário quando se bombardeia e destrói consecutivamente alvos civis. O Deus de Jesus Cristo, o Deus dos que têm fome e sede de Justiça, não serve de escudo quando, na manhã do Domingo de Páscoa, Donald Trump ameaça matar civis indiscriminadamente, pede para abrirem o “fucking strait”, trata pessoas como “crazy bastards”, anuncia que “you´ll be living in Hell”, acrescentando no final “Louvado seja Alá”.
Que Deus é este que é invocado para destruir pontes civis, atravessadas por tantos para ir à escola, ao hospital ou até ao culto? Que homem é este, depois de tudo isto, faz um discurso de Páscoa, ao lado de alguém vestido de coelho, dizendo que a Páscoa é a celebração de Jesus e da religião para, em seguida, falar das suas vitórias militares? Não sei a resposta, mas posso assegurar uma coisa: o coelho aplaudiu.
Neste contexto, o Papa Leão XIV usou uma imagem muito forte: “Deus rejeita a oração dos que fazem a guerra e têm as mãos cheias de sangue”. Também Pio XII, na antecâmara da IIª Guerra Mundial, clamou, numa mensagem radiofónica: “É com a força da razão, não com a das armas, que a Justiça progride. E os impérios que não são fundados sobre a Justiça não são abençoados por Deus. A política emancipada da moral atraiçoa aqueles mesmos que a desejam”.
Querem a prova do algodão? Nenhum cristão ameaça destruir uma civilização. Quem não entende isto, está cego. Não é possível usar o conceito de guerra justa para justificar este tipo de ameaça. Isto não é o Apocalipse. Mesmo que fosse, não pertenceria ao ser humano decidir quando tal iria acontecer.