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Mais ciência, + futuro!

Investir na educação em ciência é, por isso, preparar uma sociedade mais justa e sustentável.

Cândida Sarabando
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Num mundo cada vez mais moldado pela inovação, pela tecnologia e pela rapidez da informação, a ciência é muito mais do que um conjunto de conhecimentos: é uma forma de pensar, de questionar e de compreender o mundo. Capacitar os alunos com estas ferramentas é essencial para que possam tomar decisões informadas e participar de forma ativa e responsável na sociedade.

Enquanto professora de Física e Química, vejo a escola como um verdadeiro espaço de transformação. Gosto de a imaginar como um reator químico: um local onde entram os “reagentes” — os alunos e as aprendizagens — e, através de interações eficazes, se formam os “produtos”, ou seja, cidadãos críticos, conscientes e participativos. Mas, tal como numa reação química, não basta juntar os reagentes — é necessário criar as condições ideais para que a aprendizagem aconteça de forma efetiva.

E qual é, então, o papel do professor? Num cenário educativo em constante mudança, e face aos desafios evidenciados pelos alunos, como a reduzida motivação para as ciências, dificuldades em mobilizar conhecimentos matemáticos para resolver problemas de Física e de Química, limitações na aplicação de conhecimentos a novas situações, fragilidades no raciocínio abstrato, bem como alguma dependência de procedimentos mecanizados em detrimento da compreensão dos conceitos, o professor deve atuar como “catalisador” desta transformação, controlando variáveis fundamentais para otimizar o processo. É neste contexto que, com o apoio dos meus colegas e privilegiando o trabalho colaborativo, procuro na minha prática pedagógica em Armamar desenvolver um ensino centrado nos alunos, promovendo o seu envolvimento ativo e a construção de aprendizagens significativas.

Sabendo que a avaliação influencia fortemente a motivação e a autoestima, e que estas têm um impacto direto no sucesso escolar, implemento uma avaliação orientada para as aprendizagens – formativa – que permite recolher informação de forma contínua e regular o processo de ensino e de aprendizagem.

Para isso, recorro a estratégias diversificadas e intencionais: clarifico objetivos e critérios de avaliação, assegurando que os alunos compreendem o que se espera deles; promovo o questionamento e o pensamento crítico; proponho atividades experimentais e tarefas de consolidação que articulam conhecimento e compreensão; e incentivo os alunos a comunicar ciência de diferentes formas — oralmente, por escrito ou com recurso às tecnologias digitais. Paralelamente, valorizo o trabalho colaborativo, a autonomia e a autorregulação, criando momentos de feedback regular, claro e orientador, bem como oportunidades de autoavaliação que ajudam os alunos a tomar consciência do seu percurso e a melhorar as suas aprendizagens.

Esta dinâmica torna-se ainda mais vital em contextos rurais, onde a distância dos grandes centros e instituições científicas pode limitar o horizonte dos alunos. Em Armamar, respondemos a este desafio com a criação do GOMA – Academia de Ciências Gomes Teixeira (Clube Ciência Viva na Escola) e da ARMA-Sci – Associação de Promoção do Capital Científico de Armamar. Através destas estruturas, incentivamos a participação em atividades que colocam o aluno no papel de investigador e mentor.

Projetos como o “Bioblitz de Botânica/Mortórios de Vida” ou a “Biodiversidade Duriense” desafiam-nos a explorar o território e a recolher dados reais, enquanto iniciativas como “Bora lá ser Cientista”, “Joker das Ciências” ou  “Laboratórios Criativos – Aprender a Ensinar Ciência” fomentam a autonomia e a partilha de conhecimento entre pares.

Outros momentos marcantes incluem a dinamização de eventos como “Dia do Pi”, “Flashmob da Tabela Periódica”, “Masterclasses Internacionais de Física de Partículas” ou “Global Women’s Breakfast”, que aproximam os alunos de contextos científicos reais e atuais. A par disso, experiências como “O planetário vem à escola” ou visitas de estudo como “Açores: laboratório de Ciências” permitem alargar horizontes e despertar a curiosidade científica.

A ciência sai das quatro paredes da sala de aula para se cruzar com a comunidade em eventos como o “Tapas de Ciência” ou a “Noite Europeia dos Investigadores em Ambientes Rurais”, onde o contacto direto com cientistas mostra que esta área é feita por pessoas reais, muitas vezes com ligações ao seu próprio território. Iniciativas como “Olha os Astros!”, “Festival GT’ Ambiental“ ou “Dia Nacional da Cultura Científica – Feira dos Sabores e da Ciência” promovem a participação ativa da população, cruzando conhecimento científico com saberes locais.

A resposta dos alunos a estas iniciativas tem sido muito positiva. Mostram-se motivados e participam com empenho, sobretudo em atividades de caráter prático. Este envolvimento traduz-se, muitas vezes, numa dedicação que ultrapassa o tempo letivo, com alunos a participarem em atividades fora de horas, à noite ou ao fim de semana. Revelam também maior confiança, nomeadamente na realização de exames. Muitos alunos partilham como estas vivências os ajudaram a definir o seu caminho, tendo prosseguido estudos em áreas ligadas às ciências, saúde, tecnologia ou educação, continuando a regressar à escola, como mentores, voluntários ou parceiros. Mesmo aqueles que optam por áreas artísticas reconhecem que o rigor e a exigência associados ao desenvolvimento destes projetos foram determinantes, ajudando-os a acreditar no seu potencial e a ter vontade de ir mais longe.

Podemos dizer que o impacto destas práticas é claro: os alunos mostram maior envolvimento nas aprendizagens, desenvolvem autonomia, melhoram a capacidade de comunicar ciência e constroem uma relação mais positiva com a escola. Este maior compromisso traduz-se na melhoria dos seus resultados, mas, acima de tudo, na formação de alunos mais confiantes, críticos e participativos.

Em contextos rurais como o de Armamar, onde os desafios são maiores, torna-se ainda mais evidente que práticas pedagógicas intencionais, aliadas a projetos estruturados e colaborativos, podem fazer a diferença. Porque mais do que ensinar ciência, trata-se de formar cidadãos capazes de compreender, questionar e transformar o mundo.

Investir na educação em ciência é, por isso, preparar uma sociedade mais justa e sustentável. Esse futuro constrói-se hoje, nas nossas escolas, com professores comprometidos, estratégias eficazes, alunos curiosos e comunidades envolvidas.

Mais ciência é, sem dúvida, mais futuro!