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Santa Casa com lucro de 43,6 milhões de euros em 2025, o valor mais alto dos últimos 17 anos

A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa obteve lucros de 43,6 milhões de euros no ano passado. A receita corrente atingiu os 308,4 milhões de euros, 67% deste valor vem dos jogos sociais.

Cátia Rocha
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A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa (SCML) teve um resultado líquido de 43,6 milhões de euros no ano passado, que compara com os cerca de 30 milhões de euros em 2024. É o lucro mais alto da Santa Casa nos últimos 17 anos.

A receita corrente subiu 5% face ao ano passado para 308,4 milhões de euros. Os jogos sociais representaram a fatia de leão das receitas, com resultados de 206,9 milhões, valendo 67,1% da receita total. Comparando com o ano anterior, as receitas resultantes dos jogos sociais geraram mais 8,2 milhões de euros.

Os jogos sociais tiveram vendas brutas de 3,1 mil milhões de euros. A SCML entregou ao Estado cerca de 870 milhões de euros, o segundo valor mais alto dos últimos cinco anos. “Só não foi o melhor ano porque, em anos anteriores, houve um grande prémio do Euromilhões que, naturalmente, teve um impacto significativo em impostos”, explicou Paulo Sousa.

Os prémios dos jogos sociais ascenderam a 1.944 milhões de euros em 2025, o que representa uma média diária de prémios de 5,3 milhões de euros.

As despesas correntes da Santa Casa atingiram os 266,2 milhões de euros em 2025, um aumento de 12,4 milhões de euros face ao exercício anterior. Esta subida foi justificada com o “contínuo investimento da SCML nas suas equipas”. As principais áreas de despesa da Santa Casa foram a área da ação social (54,7%) e a da saúde (24,8%).

Os resultados financeiros foram anunciados esta quinta-feira, em conferência de imprensa de apresentação do relatório de gestão e contas de 2025. “Referenciámos [em 2024] que tínhamos sido capazes de regressar à normalidade. Este ano, achamos que fomos capazes de consolidar este regresso à normalidade”, comentou o provedor Paulo Sousa. 

No ano passado, a SCML teve um saldo de tesouraria de 108 milhões de euros. “Com este valor, fomos já capazes de ultrapassar o objetivo que tinha sido definido no plano de reestruturação”, estabelecido em 2024, que passava por atingir 100 milhões de euros neste critério. “Antecipámos cerca de dois anos a concretização deste objetivo”, afirmou o provedor.

https://observador.pt/2024/09/13/plano-para-a-santa-casa-preve-liquidez-anual-de-100-milhoes-saidas-negociadas-de-trabalhadores-com-mais-de-65-anos-e-pre-reformas/

O provedor repetiu ao longo da apresentação a ideia de que foi “completamente retomada a normalidade” da atividade da Santa Casa, após anos agitados. “Chegando a esta fase de estabilidade e de consolidação, eventualmente, um dia destes, teremos que ir para um novo plano estratégico, estando cumpridos já uma boa parte dos objetivos do plano de reestruturação.” Neste momento, a Santa Casa implementou 66% das medidas previstas no plano, que vai até 2027.

Santa Casa “sem movimento” para relançar venda do Hospital da Cruz Vermelha

Em janeiro de 2025, o processo de venda do Hospital da Cruz Vermelha foi dado como encerrado. Em entrevista ao Observador, no verão passado, o provedor Paulo Sousa explicou que as propostas que foram obtidas “não defendiam o interesse patrimonial da Santa Casa”. Justificou que não se tratou apenas de uma questão de valor — “o preço era abaixo das expectativas” — mas também da existência de um “conjunto de cenários contingentes que deixavam em aberto variáveis que seriam difíceis de aceitar”.

https://observador.pt/2025/01/07/governo-deixa-cair-venda-do-hospital-da-cruz-vermelha/

Questionado sobre se há interesse por parte da Santa Casa de relançar a venda deste hospital, Paulo Sousa afirmou que “neste momento não há nenhum movimento para relançar o processo de venda” deste ativo. “Há sim um desafio que temos pela frente, de um conjunto de dimensões, quer sejam tecnológicas, clínicas, patrimoniais, que temos sobre o hospital. E é nisso que estamos todos concentrados”, afirmou.

Paulo Sousa salientou que o Hospital da Cruz Vermelha “alterou de forma substancial aquilo que era o resultado da atividade, tem mantido bons níveis de atividade”. O provedor explicou que o hospital “deixou de ter necessidade de um apoio tão significativo quanto tinha no passado por parte dos seus acionistas” — a SCML é o acionista maioritário, lembrou. “E, portanto, todos os desenvolvimentos que viermos a fazer no Hospital da Cruz Vermelha serão feitos pelos acionistas, em conjunto com a sua tutela e com a equipa de gestão.”

Provedor não vê “nenhuma dificuldade” na alienação de imóveis. Resultados permitem ter “menor urgência” no processo

Segundo o relatório das contas de 2025, a Santa Casa tem um património composto por 661 imóveis, que geraram um rendimento de 412 milhões de euros. Uma das medidas do plano de reestruturação da SCML passa também pela alienação de alguns imóveis.

Sobre este processo, o provedor da Santa Casa salientou que a instituição tem uma “carteira [de imóveis] superior a 1.200 milhões de euros”, sendo “naturalmente” precisa uma “gestão ativa desse património”.

Mas, referindo os resultados de 2025 e uma “atividade corrente que correu muito melhor” do que perspetivado, a SCML não teve a “necessidade de proceder a vendas com a urgência” prevista no plano. “O plano consagrava vendas de cerca de 100 milhões de euros, as vendas realizadas em 2025 são de cerca de 15 milhões de euros”, acrescentou.

“Isso dá nota de que vamos gerindo esta necessidade”, explicou. “Há menor urgência, vamos acima de tudo gerindo o património e prescindindo de alguns ativos”. Salientou que não está a ser sentida “nenhuma dificuldade” na venda dos imóveis, falando nas hastas públicas realizadas. A mais recente foi feita a 4 de fevereiro, com 12 imóveis, que teve “mais de 50 lances”, disse o provedor. “Isso demonstra bem o interesse que esses imóveis têm suscitado e naturalmente isso induz uma valorização significativa na venda dos mesmos.”

“Não vejo nenhuma dificuldade, pelo contrário, mas vejo sim alguma seletividade do nosso lado, quer na gestão do tempo quer na gestão dos ativos”, declarou Paulo Sousa.

SCML teve perdas de 65 milhões com atividade internacional

O relatório divulgado pela SCML refere que, até 31 de dezembro de 2025, a atividade de internacionalização de jogos gerou perdas de 65,1 milhões de euros.

“Considerando que as empresas participadas, nomeadamente no Brasil, não têm atividade, nem trabalhadores desde novembro de 2023, é pouco provável que surjam novas ações laborais ou outras responsabilidades até agora desconhecidas”, é possível ler. Ainda assim, a SCML admite que “poderão existir responsabilidades que, por desconhecimento, não se encontram consideradas no valor que se encontra reconhecido”.