Esta reportagem não inclui fotografias do concerto uma vez que não foi permitido o acesso de fotojornalistas ao local.
Há um ruído de fundo que acompanha inevitavelmente Rosalía. A artista catalã, autora de um dos álbuns mais aclamados de 2025, tornou-se um caso raro de consenso crítico e sucesso de massas e, talvez precisamente por isso, um alvo preferencial: demasiado construída, demasiado conceptual, demasiado ambiciosa para caber na ideia confortável de “pop”. Ela também faz das suas: como prova a mais recente proibição de fotojornalistas de aceder ao evento.
Mas bastou entrar esta quarta-feira à noite na MEO Arena, em Lisboa, para perceber que essas objeções se dissolvem rapidamente perante a evidência. O que Rosalía apresenta em palco nesta “LUX Tour” não é apenas um concerto: é uma proposta estética total, longe da lógica fragmentada do entretenimento contemporâneo, ancorada numa voz tremenda. “Valeu cada cêntimo”, escutámos à saída.
À primeira vista, aparentava ser mais um concerto de um estrela pop: no balcão, uma rapariga grita ao reconhecer uma influenciadora do TikTok. No ecrã do palco, uma máquina publicitária bem oleada exibe o anúncios de um perfume do qual a cantora é embaixadora. Mas, chegada a hora prevista, ficou claro que o menu era outro.
No centro do recinto, entre o golden circle e a plateia normal, uma orquestra de vinte músicos — a Heritage Orchestra, liderada pela maestrina cubana Yudania Gómez Heredia — estrutura o espaço. O espetáculo, dividido em quatro atos, impõe uma narrativa, uma progressão emocional e simbólica. Nos primeiros minutos, a artista surge como figura escultórica, qual bailarina saída de uma caixa de música capaz de nos fazer correr à Decathlon mais próxima para comprar umas bailarinas (quiçá experimentar um maillot). Seguem-se sequências de rutura sonora e visual (basta um minuto ao som de Berghain para nos indagarmos: há quanto tempo não saímos à noite?). Há uma consciência clara de linguagem: cada gesto, cada silêncio, cada transição responde a uma visão. Cada imagem — algumas estrategicamente criadas graças a um engenhoso figurino — que vemos nos ecrãs gigantes é um autêntico quadro. Já em 2022, quando passou por Lisboa para mostrar o disco Motomami, elogiáramos a realização do espetáculo e este que lhe sucede não desaponta.
Curiosamente, os muitos telemóveis que inundavam a plateia há quatro anos parecem ter-se dissipado. É certo que a audiência é consideravelmente menos jovem do que a de então, mas arriscamos numa outra teoria. Uma tensão quase física no espectador, perplexo com o que vê e escuta, incapaz de perder pitada para agarrar no telefone. O disco LUX, que causou apoplexia de muitos aquando do seu lançamento, em novembro, predispõe-se a isso (a influência da música clássica e do catolicismo talvez convide à contenção), mas não tiremos o mérito a Rosalía sobre a sua habilidade de construir e adiar o clímax, alternar resguardo e excesso, disciplina e descontrolo — criando em quase duas horas um fluxo emocional que se aproxima disso que designamos de um “espetáculo total”, onde a música, o corpo e a imagem são indissociáveis.
A artista move-se com igual naturalidade entre referências de Francisco de Goya ou Edgar Degas e códigos visuais da cultura digital, entre o flamenco, a eletrónica e a tradição sacra. Não cita — absorve. Baralha e volta a dar. E, ao fazê-lo, constrói um léxico próprio que desafia a hierarquia entre “alta” e “baixa” cultura.
Nem a exigência física das pontas de ballet, nem a presença dos dois bailarinos que disputam o centro da cena desviam Rosalía daquilo que sustém o espetáculo da LUX Tour: a palavra. Arranca-a com precisão e intensidade, seja em castelhano, japonês ou árabe, enquanto, suspensa sobre o palco, uma faixa traduz os versos para português, aproximando ainda mais o público.
Foi um concerto sem pontos baixos, com escolhas mais óbvias — como a magistral canção de abertura de “LUX”, “Sexo, Violencia y Llantas”, também ela escolhida para abrir o concerto — e outras menos, como “Novia Robot” e “Focu ‘ranni”, temas ausentes das plataformas digitais, pérolas escondidas na edição física do disco. Não faltaram regressos felizes, como “Bizcochito” ou “Saoko”, das canções mais celebradas de “Motomami”. “¿Lisboa, qué dices?”, atira ao público como desafio.
Ainda assim, um dos momentos mais luminosos do concerto, o primeiro de dois que dará em Portugal, é indiscutivelmente o de um encontro muito esperado. Antes da consagração global, a cantora catalã de 33 anos cantava em bares, comunhões e batizados, começa por recordar. “Cantava onde me queriam”, resume, sorridente. Foi nessa altura que ouviu o fado “Escrevi o teu nome no vento” (2009) e descobriu uma voz: Carminho. Não havia ainda arenas nem orquestras, nem motomamis, apenas a revelação de uma voz que ressoou.
Anos depois, essa memória materializou-se esta quarta-feira, pela primeira vez na digressão (é expectável que o repita esta quinta-feira). Quando a fadista portuguesa surge no meio do público, a lógica do espetáculo suspende-se. “Memória”, a canção de ambas no álbum LUX, é cantada sem ornamento excessivo, quase despojada, e por isso mesmo devastadora. Não há coreografia que distraia, nem aparato que suavize o impacto: apenas duas vozes que se encontram num território comum de dor e beleza.
No final, Rosalía dirige-se à fadista com uma palavra que diz tudo: “Maestra”. Agradece-lhe — “por teres trazido esta canção à minha vida” — e acrescenta, num dos momentos de desarmante frontalidade da noite: “Quando esta mulher canta, parte-me em duas”. Segue-se uma espécie de bênção que ultrapassa o gesto protocolar: “Deus abençoe Carminho, e Portugal, e o fado”. Num espetáculo construído ao milímetro, aquele instante parece escapar ao controlo — e é precisamente por isso que se fixa como verdadeiro.
https://www.youtube.com/watch?v=edQmEmjJWe8
O concerto prossegue com o divertido “confessionário” improvisado, em que um convidado partilha uma história com um canalha (antecipará a canção “La Perla”, sobre uma relação passada) — no caso, o eleito é Marcelo Wang, figura do TikTok que nem todos reconhocerão, mas pouco importa para o propósito que ali cumpre: rirmo-nos do desamor.
A partir daí, o espetáculo retoma o seu pulso: o crescendo eletrónico instala-se, o botafumeiro (nome técnico para o incensário) atravessa a arena como símbolo de purificação e excesso. É nesse ponto que a discussão sobre Rosalía deixa de ser apenas musical. A artista não se limita a interpretar canções: propõe uma visão coerente do que pode ser a cultura popular no século XXI. Uma cultura que não abdica da tradição — antes a reinventa — e que integra referências eruditas sem perder a capacidade de comunicar com milhões.
Talvez seja isso que incomoda. Ou, pelo menos, que desorienta. Num tempo marcado pela ironia e pela distância, há em Rosalía uma espécie de fé no próprio gesto artístico — uma recusa em reduzir o espetáculo a produto descartável (mesmo que, pelo meio, nos tente vender um perfume).
Em Lisboa, essa fé encontrou eco no fado. E, por alguns minutos, no silêncio absoluto de uma arena cheia, tornou-se difícil não reconhecer o que ali estava: não apenas uma artista no auge, mas uma artista de convicções. Num tempo saturado de ruído, talvez seja isso — mais do que o virtuosismo ou a encenação — que verdadeiramente distingue Rosalía: a capacidade de fazer acreditar. Pelo menos por uma noite, enquanto o incensário percorre a sala, uns milhares de devotos testemunharam-no.