(c) 2023 am|dev

(A) :: O que cabe num dia

O que cabe num dia

O Dia Internacional da Mulher foi usado como gancho para alguns partidos pendurarem as suas fixações. A pouco e pouco, tornou-se pública e notória a indiferença pelas mulheres.

Margarida Bentes Penedo
text

Ainda o mês de Março. Com a esperada formalidade institucional, a Assembleia Municipal de Lisboa dedicou ao Dia Internacional da Mulher um ponto específico na ordem de trabalhos. Os partidos apresentaram documentos. Discutiu-se desinformação, discurso de ódio, crime de ódio e redes sociais; as mulheres foram mencionadas com a devida brevidade, e só chegaram a ser felicitadas como mulheres pela simplicidade reiterada de quem ainda as identifica. De resto, homenagearam-se as “mulheres migrantes”, as “mulheres racializadas” e a categoria vaga de “pessoas LGBT” que parece caber em qualquer assunto.

O Dia Internacional da Mulher foi usado como gancho para alguns partidos pendurarem as suas fixações. A pouco e pouco, tornou-se pública e notória a indiferença pelas mulheres. Naquela assembleia, o debate deslizou para a vigilância sobre a expressão de ideias, para a moralidade das opiniões, para a certificação de fontes de notícias, para a ilegitimidade implícita das fronteiras e, por fim, para o agrupamento das pessoas em conjuntos categorizados e cada vez mais indefesos. Esperava-se uma discussão centrada num assunto; nessa discussão foram introduzidos à bruta uma bateria de assuntos adicionais.

Como é evidente, à segmentação da sociedade em pequenos grupos segue-se a exigência de políticas específicas para cada um. Admitamos, por absurdo, que é uma boa ideia. Cada grupo tem características próprias e diferentes interesses, potencialmente incompatíveis entre si. Ninguém pode garantir que as aspirações de homossexuais não ferem os princípios inabaláveis de muçulmanos ou paquistaneses. É impossível governar com base numa ideia coerente construída a partir de várias perspectivas identitárias. A tentativa fracassa pela contradição nos termos: a soma de várias políticas não faz uma política.

A negação da ideia de Estado. Nas democracias liberais, a ideia de Estado assenta na procura do que temos em comum. Somos cidadãos, e só isso interessa. Encontrar o que partilhamos uns com os outros – não se governa de outra maneira. Um Estado democrático compreende esta verdade simples: é muito mais o que temos todos em comum do que aquilo que nos separa. E rejeita a ficção de pequenos grupos em que nos dividem. Quando se inventam segmentações artificiais, age-se levianamente, até – podemos conceder – com uma certa bonomia. Mas a segmentação não é inocente. Há cabeças – nas universidades, na literatura, nos partidos – conscientes do que estão a fazer. Deslaçar a sociedade, para que ela não se consiga organizar; e criar cidadãos indefesos, cuja única rede é o Estado, para justificar a presença do Estado em todos os cantinhos da existência – o princípio e o fim de qualquer regime totalitário.