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Lisboa pelos olhos de Veerle Devos: a "nómada urbana" que faz turismo com as histórias escondidas da cidade

Jornalista, historiadora e guia turística, a belga divide o tempo entre Ghent e Lisboa, onde vive entre as casas dos amigos. É num apartamento no último andar da Villa Sousa que recebe o Observador.

Sâmia Fiates
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Diogo Ventura
photography

Os azulejos azuis que revestem as paredes da Villa Sousa, na Graça, constrastam com o cartaz amarelo pendurado logo no primeiro andar. “Menos turismo, mais bairro. Parar o hotel no quartel”, lê-se na mensagem de protesto dos residentes contra a construção de um hotel de cinco estrelas no lugar do antigo quartel militar do bairro. Entrar pelo portão desta vila operária, construída em 1889, é como viver a experiência de uma máquina do tempo, pelo menos por alguns segundos. Tocamos à campainha e entramos pela porta do prédio. É no pequeno elevador, atrás de uma majestosa escadaria de madeira em obras, que recebe o Observador a belga Veerle Devos. De-Vos, ou “A Raposa”, em flamenco, explica-nos, apresentando-se logo como Vos — “as pessoas têm dificuldade em dizer Veerle, assim fica mais fácil”, diz-nos num português com sotaque, mas muito bem construído, que conta, “aprendeu na rua”. Usa um jumpsuit com motivos de árvores, influência da natureza que transpira a estética de Lidjia Kolovrat, designer bósnia radicada em Lisboa. Ao longo da conversa, percebemos que muitos na vida de Vos são artistas estrangeiros que encontraram em Portugal uma segunda casa. E que buscam viver uma experiência local única, com todas as características próprias da “cidade luz”. E é Vos a contar-lhes as histórias.

Apresenta-se assim mesmo, como uma contadora de histórias. De profissão, faz muitas coisas: é jornalista, autora, historiadora, guia turística e professora de turismo. E pode-se dizer, uma criativa. Em 2019 publicou To Die For Portugal, um livro de imagens em que aparece “morta” em várias paisagens de norte a sul do país. Ao ser fotografada para este artigo, insistiu em propor poses “engraçadas”, de cabeça para baixo ou a mostrar a língua. Pelo apartamento, aponta peças feitas por amigos que conheceu em Lisboa e que têm a cidade como tema, como a ilustração Luz Boa, da belga Audrey Schayes.

Mostra-se à vontade, mesmo numa casa que não é sua, explica-nos logo, mas do designer francês Emmanuel Babled, conhecido pelas peças de mobiliário em vidro de Murano ou pedra vulcânica da Sicília, tendo trabalhado com marcas como Baccarat, Bulgari, ou Venini. Vos conhece e trabalha com Babled há mais de uma década, e escreveu com Angela Vettese o livro monografia do artista. Conta-nos que o amigo está na Tanzânia, a acompanhar um dos projetos de artesanato que apoia em África. Quando este regressar, Vos segue para a casa de uma amiga na Praça das Flores. Diz-se uma “nómada urbana”, e vai circulando entre as casas dos amigos enquanto estes passam tempo fora. Assim, garante, pode viver o dia a dia típico de zonas únicas: “É uma forma de ler ou de descobrir a cidade de uma maneira informal.” Do sofá para o o quarto, do corredor para o terraço estreito, mas que dá toda a volta no perímetro do apartamento, a belga conta-nos sobre como conheceu e se apaixonou por Portugal; a sua relação com o cenário artístico internacional, que fervilha em Lisboa; e como tenta, aos poucos, ajudar a transformar o turismo massificado numa exploração mais consciente e humana, sobre pessoas e histórias.

A sua relação com Portugal é longa, mas curiosamente não começou em solo português. Como é que uma jornalista belga acaba por “morrer de amores” por este país?
A minha história de amor com Portugal não começou aqui em Lisboa. Começou em Bruxelas, porque lá existe uma grande comunidade de portugueses, tal como em Paris ou no Luxemburgo. Na altura, eu trabalhava como repórter de investigação e o meu trabalho era falar com pessoas de todos os lados do mundo que encontravam um novo ninho em Bruxelas. Os portugueses foram um desses grupos. Fiz entrevistas com pessoas na imigração e também em Portugal, o que resultou no livro LusoBelga. Durante a pesquisa, tive de vir falar com os portugueses aqui, em Aljustrel, no Alentejo e em todo o lado. Sou historiadora de formação, por isso a pesquisa é algo muito sério para mim. Foi nesse processo que “morri de amores” por Portugal.

O que é que encontrou aqui que não encontrou em Bruxelas ou noutras cidades onde viveu?
Posso viver em qualquer lado do mundo — Bruxelas, Paris, Nova Iorque — desde que tenha Wi-Fi e um aeroporto. Mas Lisboa tem mais qualidade de vida para mim. E o que é a qualidade de vida? É a mentalidade das pessoas. São muito mais humanas, mais ligadas à vida real, à natureza, à comida, à família e à amizade. É um passo mais tranquilo e mais profundo. Sinto que aqui é a minha casa.

Antes de viver em Lisboa, passou algum tempo no “campo”. Como foi essa experiência?
Vivi quase cinco anos no Ribatejo, numa herdade junto ao Rio Sorraia, rodeada por 650 hectares de paisagem cortiça protegida pela lei portuguesa. Preserva um ecossistema raro e praticamente intocado. De muitas maneiras, foi um período maravilhoso. Contudo, a vida deu outras voltas, e voltei à Bélgica por um tempo. Após um período de reflexão, decidi dividir o meu tempo entre Ghent, onde tenho casa, e Lisboa, onde passo o meu tempo hospedada nas casas de amigos.

Como é que funciona essa dinâmica de viver em Lisboa sem ter, tecnicamente, uma residência fixa?
Em Lisboa, vivo como uma espécie de nómada urbana. Fico em casa de amigos em diferentes bairros, como a Sé, a Graça, o Cais do Sodré, Alfama, Bairro das Colónias ou Praça das Flores. Isto dá-me a oportunidade de viver várias perspetivas da cidade e de a descobrir de uma maneira informal. Por vezes, fico aqui, no apartamento do designer Emmanuel Babled, na Villa Sousa, quando ele está a viajar. É uma forma de ler a cidade através de um “mosaico de realidades”.

E tem algum objeto que traz consigo, que tenha grande significado para si, para se sentir em casa?
Licenciei-me em História pela Universidade de Ghent, na Bélgica, mas sempre trabalhei como jornalista. Quando era criança, o Retábulo de Ghent, na catedral da minha cidade natal, marcou-me profundamente. Ele moldou tanto o meu trabalho quanto a minha vida. Esta pequena réplica é algo que guardo com muito carinho e trouxe comigo para Lisboa e tornou-se parte de mim. Este Retábulo de Ghent mundialmente famoso foi concluído em 1432 pelos irmãos Hubert e Jan van Eyck. É rico em detalhes e simbolismo, e foi pintado usando uma técnica revolucionária de pintura a óleo para a época. Mas, além de suas qualidades artísticas, o que mais me fascinava em criança era o aspeto de crime real a ele associado. Na noite de 10 para 11 de abril de 1934, um dos painéis, chamado “Os Juízes Justos”, foi roubado da catedral e nunca foi recuperado. Ao longo dos anos, inúmeras teorias surgiram sobre a sua possível localização, especialmente porque o suposto ladrão levou o segredo para o túmulo, deixando para trás apenas pistas enigmáticas. Até hoje, investigadores profissionais e amadores continuam à busca. De tempos em tempos, alguém apresenta uma nova teoria aparentemente plausível, o que leva à abertura de castelos, criptas e praças em Ghent e arredores, sob supervisão policial e o olhar atento da imprensa internacional. Até agora, sem resultados. Mesmo assim, a busca permanece tão vívida, cheia de suspense e estranhamente divertida como sempre. Pessoalmente, espero que o painel nunca seja encontrado e que o mundo continue a procurá-lo! E foi essa mistura de história, arte e mistério não resolvido que despertou meu amor por contar histórias e alimentou minha curiosidade natural.

Mencionou Emmanuel Babled, para quem escreveu uma monografia. O seu trabalho parece estar sempre muito ligado a artistas, ao design e à criação…
Sim, conheci o Emmanuel em Milão, quando eu era jornalista de artes e arquitetura, e voltámos a encontrar-nos em Lisboa. Escrevo narrativas biográficas para criadores, colecionadores e marcas criativas. Portugal é um país onde o artesanato ainda está muito vivo; os portugueses às vezes não percebem que têm aqui uma riqueza enorme, um artesanato do povo que não existe noutros países. Também escrevo narrativas biográficas para outros criadores, colecionadores, empresas familiares, marcas criativas, artistas, etc. Em alguns casos, isso resulta num livro. Foi o caso de “La Main des Autres”, a monografia que escrevi para o designer francês Emmanuel Babled. Para além disso, sou professora na Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa, onde dou aulas de Storytelling in Tourism. As próximas sessões acontecerão nos dias 4, 7, 11 e 14 de maio, e participação é gratuita, graças ao apoio do Turismo de Portugal. O curso é voltado para profissionais do turismo que desejam ir além do turismo focado no entretenimento, mas todos os interessados ​​em criar histórias significativas são bem-vindos.

Nessas aulas, defende um turismo que vá além do consumo rápido. Como vê a transformação que Lisboa sofreu nos últimos anos?
Lisboa hoje é muito diferente da cidade que conheci inicialmente. Muita coisa melhorou, claro, mas também entendo a nostalgia que muitos lisboetas sentem pela época em que Lisboa ainda era um segredo bem guardado. Há um verdadeiro sentimento de perda. A transformação que levou décadas em outras cidades europeias aconteceu aqui em menos de dez anos. A cidade está cada vez mais moldada para quem pode pagar e para os turistas que sustentam a economia, embora nem sempre de forma sustentável. Muitas vezes, trata-se mais de consumo rápido do que de trocas significativas. O que observo é que os lisboetas não são necessariamente contra o turismo ou os turistas, mas contra a turistificação da sua cidade: a cidade está a ser modernizada, embelezada, mas os moradores locais raramente são os principais beneficiários, nem conseguem acompanhar o aumento do custo de vida com os salários portugueses. Os protestos que pedem menos hotéis e mais habitação são totalmente compreensíveis. É hora de os lisboetas reivindicarem a sua cidade. E por moradores, quero dizer todos que vivem aqui, independentemente da origem. Lisboa tornou-se uma pequena cidade global, com uma mistura extraordinária de nacionalidades e pessoas. Isso não pode ser desfeito. Mas o que é necessário é uma nova narrativa compartilhada que dê a todos os moradores um senso de pertencimento, para que possam cuidar da cidade e uns dos outros. Uma cidade não pode simplesmente tornar-se um cenário ou um parque temático para turistas, com os seus habitantes reduzidos a figurantes. O turismo sustentável é possível, baseado no respeito e na troca, em vez do puro consumismo. Por meio da narrativa, os profissionais do turismo podem fomentar a empatia por uma cultura, um país, seu povo, tradições e realidades atuais, incluindo suas lutas. Onde há empatia, há respeito, e a verdadeira troca torna-se possível.

Um dos seus projetos de “storytelling” em turismo, o LisbonEye, cria roteiros personalizados. Em que consistem estes roteiros?
Procuro narrativas escondidas na história. Por exemplo, tenho o Superwoman Tour porque, nos livros de história e de turismo de Portugal, aparecem poucas mulheres. Mas houve mulheres muito importantes: rainhas, rebeldes, políticas, artistas. Nesta tour, mostro aos turistas e aos expatriados esse lado escondido da história. É um tipo de história que só encontras se fizeres pesquisa, e é isso que eu faço. Por exemplo, neste lugar onde estamos, a Villa Sousa. É do século XIX, foi uma das vilas incríveis industriais, porque esta era uma zona com muitos negócios e indústria na época. E isso foi feito para os trabalhadores de um industrial que se chamava Sousa. E dentro desse prédio temos também o Botequim, um bar frequentado por Natália Correia, que foi uma autora, poeta muito rebelde, uma política também, e que tem uma grande história com esse Botequim.

Quem são os turistas que procuram estas tours?
São pessoas interessadas na cultura, e que não gostam de turismo de massa. Na Superwoman Tour, por exemplo, são muitas mulheres, muitas norte-americanas, mas também são expats que moram em Cascais ou em Lisboa. 

Está a usar um macacão da designer Lidija Kolovrat, uma mulher, criadora, que veio de outro país e fez de Portugal casa. É uma escolha deliberada?
O meu outfit preferido é sempre um macacão, de preferência monocromático. Uso peças de uma só cor, simples mas com presença, o que se adequa à minha vida de flâneur, de quem anda à deriva pela cidade. Gosto muito do trabalho da Lidija; ela é bósnia, mas vive em Lisboa há trinta anos e tem uma criatividade fora da caixa. Também não é alfacinha, vem de outra parte do mundo, com uma história própria. Gosto muito dela e da sua coleção. Aliás, de vez em quando vou lá beber um copo com a Lidjia e vou ao ateliê para ver o que ela está a fazer. E todos os artistas, os criadores, são muito inspirados pela história portuguesa ou pela natureza. Acho que Portugal, Lisboa, ainda melhor, é um lugar de criadores. Não só portugueses, mas também pessoas que vêm de outra parte do mundo. São pessoas que ficam para sempre, ou que estão de passagem, mas que vêem em Lisboa um lugar de criação. Isto é muito interessante para mim.

Se tivesse que escolher um restaurante em Lisboa, qual escolheria?
Quando falamos de restaurante, gosto muito do Cacué, perto de Picoas. O chef chama-se José Saudade e Silva. E o que é interessante é que foi uma tasca, nesta zona em Lisboa onde circulam pessoas que trabalham na banca, escritórios, verdadeiramente o Portugal não turístico, e que o José ia lá muitas vezes e quando os proprietários fecharam o negócio, assumiu o restaurante, mantendo o espírito de tasca. Descobri-o através dos arquitetos e designers do Atelier São Vicente, que conheci durante o festival Walk & Talk nos Açores e que desenharam o seu interior. Quando lá fui pela primeira vez, fiquei imediatamente cativada: o ambiente, a clientela local fiel, os ingredientes frescos e honestos e uma cozinha tradicional com um toque subtil: bochechas, peixinhos da horta, o arroz de tomate. Cheguei mesmo a escrever sobre ele para a revista japonesa Appetite, fundada pelo falecido empresário do design Teruo Kurosaki, que também tinha um profundo carinho por Portugal. O restaurante de José fica afastado do epicentro turístico, num bairro onde muitos portugueses vêm trabalhar todos os dias.

E quando quer fugir da “massa” turística da cidade, para onde é que gosta de ir?
Gosto muito da Cova do Vapor. É uma aldeia de pescadores perto da Trafaria. Foi construída pelas mãos dos próprios pescadores e tem uma criatividade incrível. Há um forte sentimento de liberdade nas suas ruas, fruto de uma autossuficiência criativa enraizada na pobreza. Vou lá há anos e já escrevi sobre o local para revistas internacionais de design. Ainda vou lá regularmente, por exemplo, para visitar a residência artística e galeria Homa, ou para comer um petisco na excelente padaria e pastelaria local, a Panicova. Há também uma fotografia da Cova do Vapor no meu livro “To Die For Portugal”, que capta o sentido de humor da vila: uma rua modesta numa comunidade piscatória autoconstruída foi, ironicamente, batizada de “Avenida dos Milionários”. Também gosto muito de caminhar. Sou uma caminhante urbana entusiasta e atravesso a cidade a pé o máximo possível, incluindo subir e descer colinas, apesar dos riscos da calçada portuguesa (ri-se).