Em A Condição Humana, Hannah Arendt observa que a sociedade moderna dissolveu a separação entre o público e o privado que definia a família na sociedade clássica. Na Grécia antiga, o lar era acima de tudo um espaço privado. Dentro dela, os filhos deviam obediência aos pais que, em troca, lhes providenciavam educação, protecção e sustento, numa relação directa e soberana face ao colectivo. Essa reciprocidade assentava em amor, sangue, responsabilidade, respeito, orgulho e hierarquia, nunca em “direitos”, menos ainda em regulamentação tutelar por parte de um Estado central. A polis, pelo outro lado, configurava o espaço político onde os cidadãos elegíveis podiam participar no debate público, decidindo assuntos comuns, políticos, sociais e económicos, onde não se misturavam as miudezas da economia doméstica, naturalmente relegada para dentro das quatro paredes que compunham o mundo privado da família.
Essa fronteira público-privado era, naturalmente, essencial na formação dos indivíduos. Na medida em que os assuntos “domésticos” ficavam fora da política, bem como do “regulamento”, ou da “administração pública”, a sociedade clássica, uma sociedade, paradoxalmente, muito menos individualista do que a moderna, garantia efectiva separação entre o indivíduo — parido, nutrido, acarinhado, educado no recesso do seu lar — e o Estado. Arendt nota, com pertinência, que a modernidade inverteu o processo: ainda que em nome do interesse do indivíduo e dos seus “inalienáveis direitos”, a sociedade de massas acabou “socializando” em larga medida aquela componente outrora privada da sociedade.
Desde logo, o indivíduo sai a perder, e por uma razão simples: a família governa no concreto; o Estado, no geral e abstracto. Assim, onde a família, bem como a pequena comunidade, lida, trata, se relaciona com pessoas de carne e osso, ao Estado, gerindo todos, em massa, sobra apenas a abstracção do modelo teórico, do algoritmo, ou da tendência social. Como Aristóteles lembrava a propósito daquilo que é público, no estado moderno, o indivíduo, interessando abstractamente a todos, não interessa, de facto, a ninguém, transformando-se num número, uma insignificância estatística, um grão transportado numa imensa engrenagem.
Pior ainda, é que foi todo o mundo privado doméstico que se esvaiu para dentro da própria política. É por essa razão que no mundo moderno grande parte do debate público gira necessariamente em torno de questões outrora domésticas, pouco dignas de qualquer debate inflamado na ágora: imagine-se, por exemplo, Péricles declamando sobre qual a regulamentação adequada do teor de gordura no leite, ou sobre a quantidade de proteínas na carne, a quantidade de sal no pão — tudo temas que, por incrível que pareça, junto com vírgulas orçamentais, compõem hoje em dia as manchetes dos jornais que entretêm a população. Aliás, do mesmo modo doméstico, prático, se mede também a “felicidade” nacional através do número de televisores, ou Bimby, por habitante, número de automóveis por agregado familiar, computadores, telemóveis, etc., etc. — assim se decretando científica e estatisticamente sobre os sucessos, ou insucessos, de cada governação.
Em suma, no mundo moderno, o poder político, e não a sociedade através das suas instituições — família, comunidade, empresa, corporação —, é aquele que se preocupa “efectivamente com os reais problemas das populações”, tratando, acima de tudo, da “qualidade de vida” das pessoas, assim garantindo e certificando que estão todos em segurança, entre outras, alimentar. Todos, atente-se, e por igual — assim funciona a sociedade de massas no conforto do geral e abstracto.
Consequentemente, porque o poder não pode propriamente cair na rua, muito mais despercebido que a regulamentação estatal sobre cápsulas de garrafas passa o debate sobre os essenciais desígnios nacionais, ou civilizacionais. Esses grandes objectivos geracionais, tal como no mundo clássico, separam-se dos outros assuntos mais comezinhos, apenas que agora não para o espaço de cidadania, como em Atenas, mas para fora dele, no caso, para o multilateralismo global das grandes organizações internacionais, das ONG, dos simpósios com oradores ex-primeiro-ministros pagos a preço de ouro e transportados por aviões a jacto. Aí, nos corredores da grande finança e negociata internacional, em espaços neutros de soberania, ficam os destinos do mundo convenientemente arrumados, bem acima do alcance dos narizes rasteiros de quem apenas trata da sua vida doméstica. E assim se mantém uma conveniente segregação entre o essencial e o acessório, mesmo que apenas no campo prático, real, já que no teórico, bem como na TV, todos são iguais, todos votam e todos decidem por igual.
O Estado não se limitou, no entanto, a gerir a sociedade de forma prática e realista. No seu afã utilitário, para o bem de todos, e em nome de todos, assumiu também o papel de educador moral e higiénico da sociedade. Vai daí que, por estes dias, toda uma classe política, desde os líderes máximos até ao mais humilde presidente de junta, se ocupe a fechar vias ao automóvel, reduzir limites de velocidade para 30 km/h e pintar faixas verdes e cor-de-rosa para bicicletas, trotinetas, patins, skates e demais traquitanas eléctricas, assim “mudando comportamentos”, implementando “estilos de vida alternativos” para, enquanto se “salva o planeta”, aplicar com zelo as portarias, financiar a ASAE e estafar milhões em propaganda capaz de curar os cidadãos dos malefícios tenebrosos do sal, do açúcar, da nicotina, do álcool e do sedentarismo. É, assim, com gentil benevolência, que o poder tutelar, ora tornado absoluto, molda estilos de vida “saudáveis”, tudo para gáudio do povoléu, desde que devidamente certificados e recomendados por especialistas de bata branca que apareçam na TV.
No final, o resultado é simples: onde as fronteiras que defendem o direito ao privado, à privacidade, ao íntimo, soçobram e se quebram, como foi o caso do reduto familiar, logo o todo inunda o particular, tudo massificando, igualando, nivelando — destruindo —, assim impondo, pela força de um gigantesco rolo compressor, o grande desígnio do liberalismo moderno: a igualdade estandardizada, garantida, imposta, certificada, carimbada, de uma sociedade massificada, gerida por um Estado massificado, numa união de mentes e vontades também elas massificadas — todos sonhando a paz perpétua, fraterna, universal.
De facto, o Estado já pouco tem do velho Leviatão autoritário que exigia uma alegórica fusão de soberanias individuais. Hoje, é muito mais o triunfo de um novel, moderníssimo, soberano: não tanto o célebre Grande Irmão de Orwell, mas uma síntese hermafrodita entre o Grande Pai, que tudo limita, controla, fiscaliza, punindo uns com multas, todos assustando com a sua autoridade, e a Grande Mãe que, protegendo do mundo inseguro e hostil lá de fora, vem acariciar, prometer apoios e garantir que “vai ficar tudo bem”, estando sempre presente, carinhosa, nutrindo o súbdito obediente pelo colo e mama, prometendo segurança, desde o berço até à cova.
Este fenómeno, obviamente, não surgiu do nada. Olhando para trás, foi precisamente o declínio da família ocidental enquanto instituição que criou um vazio que o Estado veio diligentemente preencher: à medida que a família perdeu a capacidade e autoridade para educar, proteger e dar sentido à vida dos indivíduos, o Estado — e a sociedade de massas que o sustenta — absorveu essas funções. Reordenando-se a fronteira entre público e privado do binómio Estado-Família para o Estado-Indivíduo, o mundo moderno escancarou as portas dos castelos privados que compunham uma sociedade livre e independente que, desde então, se foi, progressivamente, esvaindo para esse novo super-estado, essa entidade supra-tutelar que, para todos os efeitos, se sente legítima e constitucionalmente dona dos “seus” cidadãos.
Nada disto, no entanto, preocupa grandemente o homem moderno. Afinal, a família, em particular a sua formação, defesa e propagação, é tarefa de pessoas, pessoas essas que entre a responsabilidade árdua, bem como a capacidade de abnegação, altruísmo e sacrifício que a tarefa, ou missão, implica, tendem a escolher outros caminhos mais fáceis, prazenteiros, certamente mais convenientes no imediato. A missão árdua, convenhamos, não é a escolha típica do homem moderno — e se o é, não tem o vínculo de responsabilidade que, outrora, foi capaz de manter a instituição familiar acima dos devaneios, abandonos e arremessos emocionais dos momentos presentes. Afogado num mar de promessas de facilidades, bem como assustado perante o peso de responsabilidades para as quais não está preparado, o homem moderno, seja pela TV, seja pelo novel telefone táctil armado de “inteligência” artificial, no conforto da “civilização mais avançada e rica da história”, de modo “seguro e eficaz”, tende a deixar largamente a condução da sua vida e das suas escolhas para terceiros.
Desse modo, abastado em conveniência, os dias sucedem-se, preferencialmente sem surpresas, sustos ou particulares ansiedades, vestindo-se aquilo que o especialista de moda sugeriu na TV, comendo-se o que o especialista de nutrição prescreveu para perder peso e, claro está, ingerindo-se os medicamentos que os especialistas da grande indústria farmacêutica garantiram tudo vir melhorar — desde a constante luta contra a depressão até à conquista máxima, mesmo que estéril, da pujança sexual.
Desse modo, o telemóvel, que já faz tudo menos telefonar, rouba a agência e a responsabilidade individual da escolha e decisão: é o telefone, por exemplo, que, de manhã, decide se se justifica a gabardine ou o cachecol; se é mais rápido ir de transporte público ou de carro eléctrico; ou até, a qualquer momento de exasperante espera — o homem moderno pode tudo menos esperar sozinho, consigo mesmo —, é o telefone que entretém, faz rir, chorar e, claro está, vende a narrativa consensual, comunitária, que, entre heróis louvados e vilões vilipendiados, acaba motivando, consoante as ocasiões, o ódio raivoso, ou a celebração frenética, que guiarão as bem treinadas multidões rumo às grandes conquistas do progresso e da modernidade.
Consequentemente, na base da destruição do núcleo fundador da identidade individual — a família — estão os próprios indivíduos que, progressivamente alienados, assim proporcionam um novo território de expansão e colonização para o Estado — o seu próprio espaço mental. Gera-se um ciclo vicioso: família enfraquecida gera indivíduos fracos e dependentes; estes, por conseguinte, a gerarem, geram também eles famílias fracas e facilmente dissolúveis — e assim sucessivamente. Nos entretantos, o Estado torna-se cada vez maior, e mais poderoso, bem como cada vez mais exigente, cada vez mais tutelar, justificando todo este processo — ainda que profundamente desumano no desrespeito que revela perante os princípios fundamentais da vida — como sendo do interesse das pessoas. No final, explicam-nos, “é tudo para o nosso bem”.
Eis, então, a expressão máxima do liberalismo progressista contemporâneo: em nome dos maiores princípios tolerar as maiores atrocidades, inclusive onde a vida e a morte são trocadas por patacos, sempre em nome da conveniência, sem qualquer outro intuito que não seja o slogan cada vez mais gasto e repetido da liberdade: aborto? É a liberdade da mulher. Eutanásia? É a liberdade face à dor. Ultra-securitarismo? É a liberdade face ao risco e ao incerto. Esbulho fiscal? É a liberdade da justiça social. Hiper-vigilância? É a liberdade face ao crime. Controlo da liberdade de expressão? É a liberdade face às ofensas e os sentimentos magoados — e ai daquele que recalcitrar, apóstata herege, negacionista radical, que urge expurgar, limpar e expulsar do corpo social.
Nesta perspectiva, e analisando bem os frutos da grande marcha dos últimos 200 anos, a “libertação” promovida pelo Estado “liberal” apenas revelou um rosto já há muito conhecido — o do déspota. Ao usurpar o papel da família — educar, proteger, alimentar, moralizar —, o Estado falhou por completo na libertação do indivíduo para uma existência mais plena, feliz e completa. Libertou-o, no entanto, da responsabilidade ao prometer, de forma enganadora, livrá-lo da angústia, do risco e da incerteza. Ora, como esse momento de absoluta segurança, uma vez abandonado o útero materno, nunca retorna, o esforço de “libertação” do indivíduo apenas gerou um processo sem fim onde o Estado, a troco de mais poder, e custando cada vez mais liberdade, pretende aplacar as angústias e incertezas mais banais nos seres humanos — no fundo, realizar uma utopia onde a impossibilidade de sucesso reside precisamente nas características intrínsecas das pessoas que sonham com a utopia.
O resultado é, como é óbvio, o famoso safe space: um espaço progressivamente menor onde o indivíduo se “liberta” progressivamente de mais e mais coisas. Liberta-se da família, ora substituída por apoios estatais e “novas formas de parentalidade”; liberta-se da comunidade onde o outro, pela mera opinião, pode ofender e ferir susceptibilidades; liberta-se do corpo, com cirurgias, amputações, castrações, hormonas e identidades fluídas, inventadas e geridas por especialistas; liberta-se da liberdade, pois que sem responsabilidade ninguém pode ser livre para decidir seja o que for; liberta-se, até, da realidade — afinal, “mulheres podem ter pénis”, garantem os especialistas. No limite, liberta-se da própria existência incómoda: através da eutanásia, assistida, em cápsulas de design futurista, controlada, planificada a tempo e horas de acordo com a conveniência do calendário familiar. No fim, sobram apenas homúnculos e o cumprimento literal, absoluto, dos desígnios do liberalismo progressista: “libertação” — eufemismo para “abdicação” — extrema, igualdade completa. Quem diria que a máxima Kantiana da paz perpétua se realizaria na cela exígua e solitária do safe space da alienação mental?
Quanto aos outros — os resistentes —, resta apenas uma conclusão, tão evidente quanto necessária: o safe space, e a destruição do indivíduo que tal ideal consigo acarreta, configura, não apenas o resultado prático da utopia progressista liberal, como é também o antónimo perfeito de uma família bem-sucedida. E, por essa mesma razão, perceber a família como o coração palpitante, vibrante, fundador de indivíduos fortes, saudáveis, integrados, adultos e independentes, homens e mulheres capazes de gerar uma sociedade livre, esse é o único antídoto para o veneno que nos nossos dias vai corroendo, e matando, a sociedade dita liberal.
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Nota do A.: No próximo Sábado, dia 18 de Abril, terei o prazer de estar presente no III Simpósio do SALL – Constituição e Senso Comum, em Lisboa, no auditório CUF Tejo, para uma conversa sobre a importância do papel da família na sociedade. Pode ver o programa e inscrever-se aqui.