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(A) :: A subtil diferença entre voltar ao mesmo e ser eterno

A subtil diferença entre voltar ao mesmo e ser eterno

Como se comportaria o cabelo de Trump no Espaço? Que frase usará o primeiro chinês a pisar a Lua? “Um pequeno passo para Xi, um novo Grande Salto em Frente”? E se forem os robôs?

Alexandre Borges
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Ver de novo notícias da Lua nos telejornais sabe à certeza que faltava: algures, a História bateu no tecto e voltou para trás. Começámos a repetir os anos 80, 70, 60 – e receamos não saber como saltar fora antes de cairmos no abismo dos 40. Todavia, um paradoxo qualquer na missão da Artémis II torna tudo um pouco mais complexo.

Mais de 50 anos depois, o ser humano volta à Lua. Mas, desta vez, não há canções de David Bowie nem filmes de Kubrick – já nada nos impressiona. Que importa se aqueles nossos quatro companheiros de planeta atingiram o ponto mais distante no Espaço a que a Humanidade alguma vez chegou, a coisa de 407 mil quilómetros para além? Que só 24 pessoas tivessem feito antes a viagem e apenas 12 descido e pisado, efectivamente, solo lunar? Que tenham sido os primeiros a contemplar, a olho nu, a mítica face oculta da Lua? A parte que ainda nos aflige é, sintomaticamente, a notícia de que terão estado 40 minutos sem comunicações. 40 longos minutos às escuras, atrás da Lua, sem sinal da Terra nem Whatsapp. Dizemos uau e fazemos scroll para o post seguinte.

É verdade. Faltou à odisseia espacial de 2026 o momento culminante, climático, da alunagem. Ainda não é esta a tripulação que tem a honra de descer da nave e declamar qualquer coisa para a História (essa missão deve estar guardada para Jeff Bezos ou Elon Musk, no dia em que a tecnologia lhes garanta o conforto de que precisam para terem a coragem de tratar do assunto). Reid Wiseman, Victor Glover, Christina Koch e Jeremy Hansen são assim “apenas” os barqueiros que nos levaram de volta àquela margem, a que nos garante que só nos interessamos pela Lua de cada vez que queremos a Terra.

É que, no fundo, para desânimo de muito adolescente suspirante, astrólogo e teórico da influência daquele espantoso corpo celeste no crescimento de produtos hortícolas e superfícies capilares, a Lua não é mais do que a etapa seguinte à Venezuela ou ao Irão: mais um capítulo na guerra, há muito em curso, entre Estados Unidos da América e China (com a vantagem de não ter venezuelanos nem iranianos para bombardear). A Artémis II serve apenas para testar sistemas e preparar a viagem da Artémis III, o regresso do “homem” americano à Lua, mesmo, de pezinhos no chão, em 2028, antes que a China complete a sua base humana e robótica, lá para 2035. Em causa, exactamente como na Terra, está chegar primeiro, assegurar os melhores terrenos, os mais ricos em água (congelada), hidrogénio, titânio, alumínio, cobalto, níquel, terras raras, hélio-3 (muito útil para a fusão nuclear) e o que mais por lá se encontre, e estabelecer as respectivas bases, que sirvam de estações de serviço nas futuras viagens para Marte, onde tratarão de fazer precisamente o mesmo, mas em maior. Sem esquecer a Índia, que também já chegou à Lua e até foi a primeira a aterrar, roboticamente, no seu pólo sul.

Sim, por um lado, aguardam-nos tempos empolgantes, de muitas viagens e descobertas; por outro, daqui por uns anos e com tanta escavação, talvez venhamos a ter a Lua em eterno quarto minguante – a menos que, por qualquer razão, algo mude na Terra. É que, mais do que querosene, os foguetões são movidos a Guerra Fria: se ela se acaba, se cai o Muro, arrumam-se as naves, que a brincadeira sai cara e um só astronauta pode custar muitos milhões de dólares.

Esta é a parte em que as notícias que agora nos chegam do Espaço soam exactamente ao mesmo de antigamente, apenas requentado. A um estranho regresso ao passado, quando, em teoria, se estaria a falar de ficção científica concretizada, a definição acabada, portanto, de retrofuturismo. Uma pena que Portugal não possa hoje participar destas novas Descobertas. Nós que até lançámos seis satélites para o Espaço ainda o mês passado, mas no mesmo dia em que ficámos a saber que ainda mandamos mais de metade dos resíduos que produzimos para aterro, isto é, para um monte de lixo, em vez de o reciclarmos, e que nos continuamos a matar estupidamente na estrada, quatro vezes mais do que no ano passado, num mero fim-de-semana grande de Páscoa, em que se celebra a ressurreição.

Mas há um outro lado pelo qual as imagens e relatos que chegam da Artémis II ainda nos fascinam: o oculto, o distante, o que tudo reduz a nada. A linha que separa o lado iluminado do que vive, eternamente, à sombra. Quando se entretiveram a dar nome ao que ainda não tinha. A gozar de eclipses particulares do Sol e da Terra. A desaparecer no silêncio dos ditos 40 minutos de incomunicabilidade, total, sideral… Quantos queriam ser astronautas em 1969 ou 1972, para chegar aonde eles chegavam, e quantos em 2026, simplesmente, por um pouco daquele silêncio? Pelo direito a, de vez em quando, sair daqui?

Como se comportaria o cabelo de Trump no Espaço? Que frase usará o primeiro chinês a pisar a Lua? “Um pequeno passo para Xi, um novo Grande Salto em Frente”? E se forem os robôs? “Uma cena do caraças para vocês, só mais click para mim”? Será que poderemos, no futuro, usar os resíduos dos terraplanistas como combustível ou, ao menos, adubo para a agricultura lunar? Tantas perguntas. Em 2026, como na primeira era espacial, há uma parte que se repete, mas não relativiza; permanece gloriosamente eterna: o esplendor da contemplação da nossa pequenez. Da insignificância dos nossos actos, alegadamente históricos. A divina indiferença do gigantesco Cosmos perante o longínquo burburinho das querelas humanas, todas no mesmo barco, debaixo da luminosa névoa azul. Desta vez, somámos-lhe o requinte da escuridão perfeita da face escondida da lua. E como esperado, o que Wiseman, Glover, Koch e Hansen ali viram não foram monstros nem anjos, somente o espelho da nossa solidão, no silêncio de um Espaço imenso que nunca ouviu David Bowie nem, muito provavelmente, se importa connosco.