O que é a endometriose? Dez perguntas sobre a doença feminina que pode demorar quase dez anos a ser diagnosticada
Estima-se que afete 190 milhões de mulheres em idade reprodutiva em todo o mundo, e cerca de 350 mil em Portugal. Mas os números reais podem ser bem superiores devido ao diagnóstico tardio.
1 O que é a endometriose?
É uma doença crónica inflamatória que se caracteriza por células do endométrio que se desenvolvem fora da localização habitual.
“O endométrio é o tecido que reveste a cavidade uterina e que sofre alterações ao longo do mês, proliferando e crescendo até iniciar a sua descamação cíclica, que se traduz pela menstruação”, diz Filipa Osório, médica especialista em ginecologia e obstetrícia.
Quando tecido semelhante a este se desenvolve fora do útero e se implanta noutros locais, sofre as mesmas alterações cíclicas: prolifera, cresce e “menstrua”, em qualquer parte do corpo. “A endometriose é uma doença crónica que causa inflamação e pode formar quistos, aderências ou nódulos em vários locais”, acrescenta a médica coordenadora do Centro de Endometriose do Hospital da Luz Lisboa.
2 Quais os principais sintomas?
Dependendo da zona afetada, a endometriose pode manifestar-se de diferentes formas, seja por infertilidade ou dor pélvica. Mas caracteriza-se maioritariamente por dor intensa durante a menstruação (dismenorreia), dor nas relações, dor ao evacuar ou dor ao urinar e, por vezes, dor na ovulação.
Quando uma mulher tem dismenorreia, que interfere com o seu dia a dia, impedindo-a de fazer uma vida normal, significa que deve procurar ajuda diferenciada para se perceber qual a causa da dor e diagnosticar ou excluir endometriose.
3 Como distinguir das dores menstruais "normais"?
Algum desconforto durante a menstruação pode ser normal, mas dor intensa que limita a vida diária não deve ser ignorada. “Se pedirmos a uma mulher para quantificar a sua dor de 0 a 10 e se esta for superior a 7 ou 8, deverá ser investigada”, sugere Filipa Osório.
A endometriose não é “apenas” uma dor menstrual. É uma doença que pode afetar a vida em todas as dimensões — física, emocional, profissional. “A mensagem é simples: não normalizar a dor. Ouvir o corpo. E procurar ajuda especializada atempadamente.”
4 Quais as causas?
Não são totalmente conhecidas. “Acredita-se que resulta de uma combinação de fatores, incluindo predisposição genética, alterações do sistema imunitário e fatores hormonais e inflamatórios”, diz Filipa Osório.
5 Como se diagnostica?
Em primeiro lugar, é fundamental saber ouvir as queixas das mulheres que procuram ajuda médica. “Fazer uma boa história clínica, seguida de um exame objetivo adequado, permite fazer o diagnóstico na maioria dos casos de endometriose.” Perante esta suspeita, o diagnóstico pode ser confirmado através de ecografia ou ressonância magnética pélvica.
“Sendo uma doença crónica que afeta as mulheres durante a sua vida reprodutiva, é fundamental que seja realizado um diagnóstico precoce para uma melhor orientação e preservação da fertilidade.”
6 Mas porque demora o diagnóstico tanto tempo?
Pode demorar mais de oito anos em Portugal. A Sociedade Portuguesa de Ginecologia, em colaboração com a Associação Portuguesa de Apoio a Mulheres com Endometriose — MulherEndo — e o apoio da Gedeon Richter Portugal, realizaram um inquérito sobre a jornada das mulheres com endometriose com o intuito de compreender melhor a dimensão do problema no país. O estudo VivEndo permitiu compreender um pouco melhor a situação relativamente ao atraso no diagnóstico e conclui que, tal como na maioria dos países europeus, a mulher portuguesa precisou, em média, de oito anos desde os primeiros sintomas até ao diagnóstico correto. Este atraso no diagnóstico deve-se a vários fatores:
- Sintomas inespecíficos ou desvalorização dos mesmos (nomeadamente a dor menstrual), tanto por parte da mulher, como dos familiares e por alguns profissionais de saúde;
- A inexistência de biomarcadores (detetáveis nas análises);
- Dificuldade de obter um exame conclusivo com um profissional dedicado à doença.
7 E como se trata?
Sendo uma doença crónica, é fundamental ajudar as mulheres a compreender e a gerir a endometriose ao longo da vida, sobretudo para aprenderem a gerir o controlo dos sintomas e a melhorar a qualidade de vida, “uma vez que não existe tratamento curativo definitivo”, diz Filipa Osório.
O tratamento deve passar por várias dimensões, desde logo, a adoção de hábitos de vida saudáveis — incluindo uma alimentação com perfil anti-inflamatório, a prática regular de exercício físico e a redução do stress —, o que pode contribuir para diminuir a inflamação pélvica e aliviar a dor. “Por outro lado, o tratamento deve ser sempre individualizado: cada mulher é única, com sintomas, expectativas e objetivos distintos, pelo que a estratégia terapêutica deve ser adaptada a cada caso.”
De forma geral, são estas as várias alternativas:
- Quando não existe desejo de engravidar e não há contraindicações “a terapêutica hormonal é frequentemente a primeira linha, permitindo ‘adormecer’ a doença ao inibir a atividade do tecido endometrial e controlar os sintomas”;
- Quando o objetivo da mulher passa pela gravidez, a terapêutica hormonal deve ser suspensa, mantendo-se uma vigilância clínica;
- Nos casos de dor incapacitante ou doença mais extensa, com envolvimento de órgãos como intestino, bexiga ou ureteres, a cirurgia pode ser necessária;
- Já nas situações em que a doença é estável, mas existe dificuldade em engravidar, deve ser considerada a avaliação por uma equipa de fertilidade.
8 Uma mulher com endometriose pode engravidar?
Sim. Cerca de dois terços das mulheres com o diagnóstico conseguem engravidar naturalmente. No entanto, cerca de um terço pode necessitar de apoio médico ou técnicas de reprodução assistida. “Num contexto em que muitas mulheres adiam a maternidade, torna-se igualmente importante discutir precocemente a preservação da fertilidade.”
A criopreservação de óvulos deve ser ponderada em casos selecionados, quer antes de cirurgia, quer quando a gravidez é adiada, tendo em conta o potencial impacto da doença na função ovárica. Também por este motivo, um acompanhamento precoce é essencial.
9 Sabe-se quantas mulheres têm a doença?
Estima-se que afete cerca de dez por cento das mulheres em idade reprodutiva e até 30 a 50% das mulheres com dor pélvica crónica ou infertilidade. Segundo a Organização Mundial da Saúde, são 190 milhões de mulheres em idade reprodutiva em todo o mundo. Em Portugal, pensa-se que a endometriose afete cerca de 350 mil mulheres em idade reprodutiva, mas Filipa Osório diz que “este número pode ser ainda maior devido ao subdiagnóstico e à falta de consciencialização ainda existente sobre a doença”.
10 As associações de doentes podem ajudar as mulheres com endometriose?
Em Portugal, a Associação Portuguesa das Mulheres com Endometriose — a Mulherendo — tem desenvolvido trabalho na divulgação da doença, acompanhamento, orientação e apoio às mulheres.
“O contributo da associação tem sido determinante, não só na literacia em saúde, mas também na promoção de mudanças concretas ao nível das políticas de saúde.” Entre os principais avanços destaca-se a instituição do Dia Nacional da Endometriose e a aprovação de legislação que permite a ausência laboral até três dias por mês em casos de sintomas incapacitantes.
“A luta pela comparticipação de terapêuticas para a endometriose ainda está aquém do que as doentes precisam pois ainda existe medicação especifica sem comparticipação, pelo que a implementação de políticas de saúde centradas na doente é fundamental”, defende Filipa Osório.