A ampla entrada do centro cultural Kőrös está cheia quando Klára Dobrev chega ao edifício. Caminhando pelo meio das pessoas que conversam animadamente, rodeada pela sua equipa que a fotografa e grava vídeos, entra numa sala, onde é recebida com aplausos efusivos. Mas a sala, no fundo deste centro cultural em Budapeste, tem apenas meia centena de pessoas. As pessoas que enchem a entrada do edifício não estão ali para a ver, mas para um outro evento, a decorrer no andar de cima.
O tamanho reduzido da plateia não apaga o ânimo da líder do Coligação Democrática (DK, partido da esquerda), que avança em passo acelerado e com as mangas do blazer vermelho arregaçadas pelo meio do curto corredor criado entre os seus apoiantes. Pouco mais de 50 cadeiras desirmanadas foram dispostas na sala, mas nem todas estão ocupadas. A equipa que entrou com ela fica no fundo da sala, encostada a duas mesas, mas continua de câmara e telemóvel em punho a captar o evento.
Depois da receção calorosa a Dobrev, ouvem-se primeiro os candidatos do DK aos círculos uninominais de Budapeste. Quando a líder toma da palavra, é com a mesma energia com que entrou na sala. Ao longo de mais de uma hora, atira críticas ao primeiro-ministro Viktor Orbán, apresenta propostas eleitorais, responde a questões dos eleitores — e atira mais críticas a Orbán. É aplaudida repetidas vezes, arranca risos à multidão e, no final, desdobra-se em abraços, sorrisos e selfies, sem qualquer sinal de hesitação que permita perceber que esta é, na verdade, a primeira vez que lidera o partido numas eleições legislativas. “Sinto o apoio da minha família política”, garante sem hesitação e com um sorriso aberto ao Observador, depois do evento.
A presença de Dobrev na capital não tem sido ocorrência comum durante esta campanha, já que o seu foco tem estado nas pequenas vilas e cidades da Hungria. Mesmo em Budapeste, os eventos têm uma escala pequena e passam principalmente por pequenos encontros com os eleitores do partido, como o desta quarta-feira, muito diferentes dos grandes comícios protagonizados por Viktor Orbán e Péter Magyar. Há motivos para isso: afinal, enquanto os dois partidos à direita lutam pela vitória, este partido à esquerda está apenas a lutar pela sobrevivência.

É isso que indicam as sondagens, ainda que os membros do partido ouvidos pelo Observador desvalorizem repetidamente os estudos de opinião. A quatro dias das eleições, os resultados do DK nas sondagens mais recentes oscilam entre o 1% e os 5% das intenções de voto — uma média de todas as sondagens coloca o DK com 3% —, o que fica aquém dos 5% necessários para entrar no Parlamento.
O carisma da nova liderança, os mesmos objetivos de sempre e as “mudanças do contexto político”
Na frente da sala onde decorre o evento do DK, foi montado um roll up com a mesma mensagem que se vê nos grandes placards nas ruas de Budapeste. O desenho mostra uma balança: no prato da direita, o símbolo cor-de-laranja do Fidesz e o símbolo verde do Mi Hazank (partido do mesmo espectro político, que apoia o Governo de Viktor Orbán). No prato da esquerda, uma mão coloca o símbolo azul do DK ao lado do símbolo do Tisza. “Se não queres um governo Fidesz-Mi Hazank… Vota no DK!”, lê-se na legenda.
É em frente a este cartaz que discursam os candidatos locais do DK, com sucessivas críticas a Viktor Orbán e ao Fidesz e apelos à união à esquerda. O sol de fim de tarde que entra pelas janelas que ocupam toda a parede esquerda da sala marca o tom morno da discussão. Klara Dóbrev é a última a falar mas, antes de sequer de se levantar, o microfone deixa de funcionar. A líder do DK não espera por um novo. Em tom animado, rapidamente arranca a plateia do torpor que se instalara com as intervenções anteriores.
O público é composto principalmente por reformados, vários candidatos e membros das respetivas equipas e alguns jovens. Todos seguem atentamente as palavras de Dobrev a partir da primeira promessa. “Estamos a concorrer às eleições porque queremos derrubar o sistema de Orbán. Não para o mudar um pouco. E hoje somos os únicos na Hungria que querem derrubar o sistema de Orbán de A a Z”, afirma, numa declaração recebida com nova ronda de aplausos.
O objetivo é o mesmo das últimas eleições, quando o DK ainda era liderado pelo fundador e ex-marido de Dobrev, Ferenc Gyurcsány. Em 2022, o partido apresentou-se às urnas como principal força de oposição, coligado com outros cinco partidos. A coligação acabou por ficar com o segundo lugar, conquistando 38 lugares no Parlamento húngaro. Quatro anos depois, tudo aponta para que o segundo lugar não se repita e para que o número de deputados desça vertiginosamente. Mas Klára Dobrev, que assumiu a liderança do partido de forma oficial, mantém as convicções: “Desde o primeiro momento em que entrei na política, sempre disse que [Orbán] pode ser derrotado por uma ampla coligação de democratas. E acredito muito nisso”, diz-nos no final do evento.
As cadeiras rapidamente começam a ser retiradas da sala pela sua equipa e a conversa com o Observador é feita num contra-relógio imposto pelos prazos de campanha e pela viagem que ainda terá de fazer antes do evento no dia seguinte para o leste do país. Tudo em Klára Dobrev, da velocidade em que fala aos seus gestos expressivos, imprime alguma urgência ao seu discurso, o que contrasta com o ritmo lento das conversas entre candidatos e eleitores nos sofás do corredor em frente à sala, no pequeno café na entrada do centro cultural e no jardim em frente ao edifício.
Em 2026, o desafio ao primeiro-ministro no poder há 16 anos não é feito por forças de esquerda, mas pelo Tisza, de Péter Magyar, dentro do campo político de Orbán da direita conservadora. Mas, fiel aos apelos de união, a líder do DK não recusa trabalhar com o Tisza, apesar da distância que os separa no espectro político. “Estamos prontos para trabalhar com qualquer pessoa que queira destruir e demolir o regime de Orbán”, declara. Questionada sobre se Magyar é essa pessoa, coloca as coisas de outro modo, sempre no mesmo tom firme e sem hesitações com que falou aos apoiantes. “A principal questão não é Orbán ou Petér Magyar, Fidesz ou Tisza. A principal questão é Orbán ou democracia”, argumenta.
Esta “defesa da democracia” que o DK ergue como bandeira — e que aparece sempre associada à União Europeia (UE), que assistiu de perto ao crescimento político de Klára Dobrev como eurodeputada — e o autoritarismo de que acusam Viktor Orbán também é utilizado pela líder para analisar a queda do partido. A única vez que o sorriso desaparece durante a breve conversa é quando admite: “Claro que não somos tão fortes como costumávamos ser”. Mas a justificação para isso não está dentro do partido ou nos seus eleitores, diz, mas nesse mesmo problema sistémico que define como “as mudanças do contexto político”.
O passo atrás na campanha em Budapeste e a aposta nas localidades rurais
Aos 57 anos, Gergely Arató é um veterano do Parlamento húngaro. Foi eleito pela primeira vez em 2002, pelo Partido Socialista da Hungria (MSZP), passou pelos governos que a esquerda conseguiu formar entre a saída de Orbán do Governo em 2002 e o seu regresso em 2010, e voltou ao Parlamento em 2018, pelas listas do DK, tendo sido reeleito em 2022. Gergely também conhece bem os seus eleitores do 10.º distrito de Budapeste (que integra o 7.º distrito eleitoral da cidade). Sentado no café na entrada do centro cultural de Kőrös, onde tenta lanchar, é interpelado de forma frequente e responde com à vontade, muitas vezes tratando aqueles que passam pelo nome e interrompendo conversas para se despedir das pessoas que vão abandonando o espaço. Veste uma camisa e um casaco escuro e na lapela tem um pequeno pin com o símbolo do partido, que é mais um sinal do seu europeísmo: no fundo do emblema, o verde, branco e vermelho da bandeira húngara misturam-se com o azul e as estrelas amarelas da bandeira da UE.

A postura explica-se, em parte, com a forma como o partido tem feito campanha em Budapeste, com foco em eventos pequenos. “Chamo-lhe ‘café com o representante‘, vou a vários locais públicos diferentes com um copo de café [falar com as pessoas]”, sintetiza ao Observador, enquanto bebe não um café, mas uma Coca-Cola. A estratégia — que considera ser “mais fácil” — substituiu o tradicional contacto porta a porta, que Gergely diz ser ineficaz na capital e foi por isso abandonado. Nos distritos como aquele onde vai a votos, as pessoas ou passam muitas horas no trabalho fora de casa ou não querem ser “incomodadas” nas suas casas e nos distritos na zona histórica da capital e impõe-se ainda o problema de muitas unidades serem alojamentos turísticos, elabora num discurso mais lento e ponderado que Dobrev.
Apesar das justificações, certo é que esta estratégia de campanha do DK também cria um espaço seguro — ou uma “câmara de eco” — em que os contactos são feitos principalmente com eleitores fidelizados e não com potenciais novos eleitores. O discurso anti-Fidesz do DK não precisa de ser semeado em Budapeste: a capital já é terreno fértil, como comprovou a plateia do evento desta quarta-feira. À medida que Klára Dobrev e os candidatos do DK desfilavam as suas críticas às ações do partido do Governo, o público expressava a sua concordância: aplaudia, respondia com acenos de cabeça e murmúrios de aprovação ou então com sons de reprovação quando as palavras do orador assim o pediam. Sempre em sintonia.
A grande aposta do DK não está, por isso, na capital, mas nas pequenas cidades rurais, onde, aí sim, se aposta no contacto porta a porta. É aí que a clivagem entre Fidesz e todos os outros partidos ganha preponderância. E é aí que o partido luta para ganhar votos. Esta quarta-feira, o partido anunciou que no sábado irá encerrar a campanha não em Budapeste, como é habitual, mas em Versend, uma pequena cidade de apenas 900 habitantes perto da fronteira com a Croácia, a sul.
Klára Dobrev explica a decisão com a linha ideológica do partido. “Os partidos liberais da oposição sempre estiveram focados em Budapeste e nas grandes cidades. Nós, enquanto um partido de esquerda, sempre fomos um bocadinho mais equilibrados”, afirma ao Observador, em tom crítico dos partidos liberais, com quem já se coligaram no passado. Mas Gergely Arató coloca em cima da mesa uma leitura bem mais estratégica: o partido está a tentar maximizar os votos no círculo de compensação, onde 5% dos votos são traduzidos em lugares no plenário. Ou seja, em vez de apostar em corridas equilibradas nos círculos uninominais, o partido joga diretamente num só círculo: aquele onde acredita ter mais possibilidades de desafiar as expectativas impostas pelas sondagens.

Sair da corrida ou perder a corrida? São cenários sobre os quais não se fala
Klára Dobrev já saiu pelas portas de vidro do centro cultural de Kőrös há mais de meia hora, quando Gergely Arató finalmente diz os últimos “adeus” aos funcionários, que são as únicas pessoas que ainda estão na entrada do edifício, e sai para a rua ainda a beber a sua Coca-Cola. O sol já caiu, mas, do outro lado da rua, junto a uma paragem de autocarro, ainda é possível ver um cartaz do DK. É o mais pequeno dos muitos que estão na praça Szent László e está caído no chão. De um lado está o rosto da líder, Klára Dobrev, do outro o do candidato local, Gergely Arató.
Contudo, nem todos os distritos eleitorais de Budapeste têm um candidato do DK na corrida. Em pelos menos dois dos círculos, o partido já retirou os seus candidatos, em detrimento de outros. É uma imagem diferente muito diferente da campanha enérgica, positiva e insubstituível que os membros do DK tentam desenhar ao Observador e faz surgir, uma e outra vez, uma questão: na senda para derrubar o regime de Orbán, não estará o DK a “roubar” votos ao partido com verdadeiras chances de o fazer?
[As testemunhas, os relatórios, as fotos e os vídeos que desvendam como Renato Seabra matou Carlos Castro em Nova Iorque. “Os ficheiros do caso Carlos Castro”, o novo Podcast Plus do Observador, conta os bastidores nunca revelados da investigação a um crime brutal. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir o primeiro episódio, aqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music]

Os candidatos do DK ouvidos pelo Observador recusam essa possibilidade. “Se o DK se retirar, então o Tisza não vai ganhar mais votos com isso“, aponta Klára Dobrev. Uma sondagem do Instituto IDEA, de setembro do ano passado, justifica esta linha de pensamento ao revelar uma base eleitoral pequena, mas fidelizada: questionados sobre em que votariam caso o DK saísse da corrida, apenas 18% respondeu o partido Tisza.
Para a líder do partido, a manutenção na corrida é óbvia e tem uma justificação tripla. Por um lado, pelo respeito à confiança depositada no partido por “alguns milhares de eleitores”, palavras ditas com um gesto vago na direção das cerca de 50 pessoas que ainda estão no edifício imediatamente a seguir ao evento. Por outro, pelas divergências ideológicas com o Tisza, que obrigam o DK a querer pressioná-lo em alguns pontos, como a rever a Constituição aprovada pelo partido de Orbán. “Precisamos de uma garantia que vai haver uma verdadeira mudança de regime e não apenas uma mudança de fachada“, salienta. Por último, o DK recusa resignar-se com os resultados das sondagens.
É o tema em que Gergely Arató se mostra mais animado. Desencostando-se das costas da cadeira onde está sentado, expressa a sua desconfiança nos resultados das sondagens, os métodos utilizados, a amostragem feita e as vezes em que falharam no passado. As sondagens nem são tema nos discursos dos candidatos e o sentimento que domina o partido é uma convicção inabalável de que as sondagens estão erradas e de que esta base eleitoral fiel será suficiente para alcançar o tão desejado limiar dos 5%.
Klára Dobrev vai ainda mais longe e recusa, firmemente, ponderar sequer um cenário em que o partido não chegue ao Parlamento. “Se antes dos resultados já se está a fazer cenários e a criar desculpas, então não se é capaz de liderar uma comunidade política”, argumenta, olhando novamente para os seus eleitores. Porém, tal como nem todos os candidatos partilham a sua capacidade de incitar os eleitores ou o seu foco ideológico, também não partilham a sua recusa intransigente em discutir cenários pós-eleitorais.
Mesmo que a aposta do partido no círculo de compensação seja bem-sucedida, Gergely Arató pode não regressar ao Parlamento, dada a sua presença num círculo uninominal. Mas, apesar do tom cauteloso e preocupado, o deputado não tem problemas em olhar para o futuro. Pelo contrário, insiste na necessidade de o fazer: “Em qualquer caso, temos de reconstruir o nosso partido e, de um modo geral, a esquerda, que estará deserta depois das eleições. Os nossos eleitores são mais velhos, temos de encontrar novas técnicas [para comunicar com eles]. Acho que a nossa agenda é muito importante, está a visar os temas importantes. Mas não está a atingir muitos eleitores e temos de mudar isso“, reconhece.