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EUA e Irão: a normalização do excesso

A ameaça extrema e o recuo imediato tornaram-se padrão, com impacto nos mercados, no petróleo e na perceção de risco global.

Luís Monteiro Carvalho
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Há declarações que não deveriam poder normalizar-se. A ideia de que uma civilização inteira pode ser eliminada “numa noite” pertence a esse domínio. E, no entanto, passou a circular no espaço público sem provocar reação duradoura. Quando Donald Trump recorre a este tipo de linguagem a propósito do Irão, o mais inquietante já não é apenas o conteúdo é o padrão que o envolve.

A sequência tornou-se previsível: uma declaração extrema, a amplificação imediata nos media e nos mercados e, poucas horas depois, um recuo ou uma reformulação que suaviza o tom, sem desfazer o choque inicial. O ciclo repete-se depressa e dá lugar ao episódio seguinte. O que antes seria uma rutura transforma-se num momento dentro de um fluxo contínuo.

No plano político, esta dinâmica pode ser lida como instrumento de pressão. A linguagem maximalista cria tensão, desloca o centro do debate e testa limites. O recuo subsequente reintroduz margem negocial e permite reposicionar o discurso num registo mais aceitável. Não é necessariamente incoerência; pode ser, em parte, cálculo. Mas essa lógica tem efeitos que extravasam a intenção.

O ponto não é a declaração isolada, nem sequer o seu autor. O ponto é o sistema que permite que este tipo de linguagem surja, circule e seja absorvida com uma rapidez inquietante, um sistema em que a gravidade dos enunciados já não encontra resistência proporcional.

É neste enquadramento que a ideia de hipernormalização se torna útil. Não como conceito abstrato, mas como descrição de um mecanismo: aquilo que seria impensável deixa de provocar reação e passa a ser integrado sem resistência. A ameaça extrema deixa de marcar uma fronteira e começa a funcionar como ruído de fundo. Não porque tenha perdido gravidade, mas porque se tornou frequente.

Neste processo, os media desempenham um papel ambivalente. Ao mesmo tempo que informam, absorvem rapidamente estes episódios no ciclo noticioso. O impacto inicial dilui-se, substituído por novos acontecimentos. A atenção fragmenta-se e a distinção entre o que é estruturalmente grave e o que é apenas momentaneamente ruidoso vai-se esbatendo. A ameaça aproxima-se do entretenimento informativo, um pico de intensidade que rapidamente cede lugar ao próximo ciclo.

Mas se, no plano mediático, essa absorção é progressiva, no plano económico os efeitos são imediatos. As palavras têm consequências. Uma escalada retórica entre os Estados Unidos e o Irão traduz-se rapidamente em volatilidade nos mercados energéticos. O petróleo reage não apenas a factos, mas à perceção de risco. A simples possibilidade de disrupção em zonas críticas como o Golfo Pérsico é suficiente para desencadear ajustamentos.

Esse impacto propaga-se. Custos de transporte aumentam, prémios de risco nos seguros marítimos sobem, cadeias logísticas tornam-se mais frágeis. Em economias já expostas a pressões inflacionistas, estes choques adicionais não são marginais. Os mercados financeiros ajustam-se, os investidores reavaliam posições e o risco geopolítico volta a ocupar um lugar central.

O mais relevante é que este mecanismo se repete com crescente frequência. Não é necessário que haja conflito efetivo; basta a perceção plausível de escalada. E essa perceção é, em grande medida, moldada pela linguagem. Quando a linguagem deixa de descrever a realidade e passa a alargar o possível, o sistema económico reage ao primeiro sinal, não à correção posterior.

Ao mesmo tempo, a opinião pública ajusta-se. O que antes seria interpretado como sinal de rutura passa a ser lido como traço de estilo. Esta dessensibilização reduz a capacidade de reação e torna difusa a fronteira entre o que é excecional e o que é apenas mais um episódio.

Cria-se, assim, um paradoxo: quanto mais extrema é a linguagem, menor parece ser o seu impacto estrutural no debate público, mas maior pode ser o seu efeito nos mercados e nas perceções de risco.

Não se trata de dramatizar cada declaração, nem de ignorar que a política internacional sempre recorreu a linguagem dura. Trata-se de reconhecer que o contexto mudou. Num ambiente de informação instantânea e mercados permanentemente interligados, a palavra política deixou de ser apenas retórica, passou a ser um fator económico com impacto direto.

Quando a linguagem da destruição deixa de marcar uma fronteira, o problema deixa de ser apenas diplomático. Torna-se económico, porque afeta decisões, preços e expectativas. E torna-se, em última instância, civilizacional, porque revela um sistema que começa a perder a capacidade de distinguir entre o que é excecional e o que é admissível e é nesse momento que o absurdo deixa de ser um desvio e passa a fazer parte da paisagem política.

O mais perigoso no excesso não é o seu aparecimento. É o momento em que se normaliza e deixa de nos chocar.