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(A) :: Apostar costumava dar trabalho. Já não dá

Apostar costumava dar trabalho. Já não dá

Não é uma surpresa que o Instituto para os Comportamentos Aditivos e Dependências (ICAD) anuncie a abertura, até ao verão, do primeiro centro público para tratar dependência do jogo.

Diogo Mestre
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Antes de o mundo nos caber no bolso, apostar não estava à distância de uns cliques. As raspadinhas compravam-se na tabacaria, o totobola preenchia-se em papel e caneta, o casino ficava noutra cidade. Este atrito protegia a população dos seus próprios impulsos, ao afastá-la tanto fisicamente como materialmente do jogo, mesmo quando os casinos a tentavam aproximar. Agora conseguem com mais eficácia que nunca.

A minha geração não conheceu o mundo sem internet. Crescemos com a publicidade das casas de apostas colada aos jogos de futebol e nos equipamentos das equipas, com os bónus a aparecerem no ecrã antes de sabermos bem o que era uma odd. Ninguém apresentou aquilo como um convite, mas assim o era.

Por isso, não é uma surpresa quando o Instituto para os Comportamentos Aditivos e Dependências (ICAD) anuncia a abertura, até ao verão, do primeiro centro público para tratar dependência do jogo. O número de pessoas em acompanhamento cresceu 118% em dois anos, de 358 para 782, sendo que a faixa etária mais afetada se situa entre os 15 e os 34 anos.

As estatísticas confirmam que 18% dos jovens entre os 13 e os 18 anos jogaram a dinheiro no último ano apesar da proibição da lei, já que esta é ineficaz. Alguns pedem o cartão de cidadão a alguém mais velho, outros encontram operadores ilegais, popularizados nas redes sociais, onde não existe qualquer barreira.

A psiquiatra Inês Homem de Melo, do ICAD, nota que ao seu consultório chegam cada vez mais jovens, principalmente ligados às apostas desportivas. O que a preocupa não é apenas a dimensão do problema, mas a sua invisibilidade.

Quem desenvolve dependência do jogo raramente chega a esta conclusão sozinho, visto que não há nem degradação física nem um momento de rutura óbvio. À SIC, o ICAD confirma que a maior parte dos casos chega ao tratamento encaminhada por familiares ou amigos, não por iniciativa própria.

Enquanto a publicidade continuar a normalizar o jogo para quem ainda não tem idade para jogar, e enquanto as redes sociais continuarem a ser o canal preferido dos operadores ilegais, o centro que abre este verão estará cheio antes de terminar o ano.

A abertura do novo centro é, sem dúvida, necessária e um passo na direção certa, no entanto, criar uma resposta clínica para a dependência do jogo sem restringir o que a alimenta é como tentar retirar água de dentro do barco sem reparar antes a fuga. E, em Portugal, continua-se a fugir a esta responsabilidade.

Em 2023, quando a Premier League anunciou a retirada do patrocínio de casas de apostas das camisolas, a Liga Portugal, quando convidada a comentar, afirmou que a questão “não estava em cima da mesa”. Continua a não estar, e dificilmente estará, quando estão em causa interesses económicos desta magnitude. Afinal a nossa liga chama-se Liga Portugal Betclic.