Uma investigação que se arrastou durante mais de 15 anos conheceu um desfecho rápido esta quarta-feira, quando Rex Heuermann se declarou culpado das acusações de homicídio de sete mulheres e admitiu ter assassinado uma oitava. No tribunal do Complexo Arthur M. Cromarty, em Riverhead, nos Estados Unidos, o arguido abandonou a posição inicial de inocência e assumiu a autoria dos crimes ligados aos chamados assassinatos de Gilgo Beach, um caso que permanecia por esclarecer há mais de três décadas. “O senhor está a declarar-se culpado de forma voluntária e por sua própria vontade?”, perguntou o juiz Tim Mazzei. “Sim”, respondeu Heuermann, mantendo uma postura descrita como clínica pela imprensa norte-americana.
O caso remonta a 2010, quando um polícia e o seu cão começaram a encontrar restos mortais de mulheres desaparecidas ao longo da costa de Long Island — numa série de descobertas que abalaram o país. Mas as mortes são anteriores, estendendo-se entre 1993 e 2010. Segundo as autoridades, Heuermann estrangulou as vítimas ao longo de cerca de 17 anos e ocultou os corpos em locais isolados, perto da zona de praia onde vivia.
O arquiteto “hostil, frio e distante” cuja casa os vizinhos proibiam os filhos de visitar no Halloween
Consultor de arquitetura, casado e pai de dois filhos, o serial killer residia em Massapequa Park, no estado de Nova Iorque, um bairro residencial de classe média — zona abastada onde cresceu e onde o valor médio das casas ronda os 775 mil dólares (cerca de 662 mil euros), segundo o New York Times (NYT). Filho de um engenheiro aeroespacial, terá enfrentado episódios de bullying durante a adolescência, de acordo com antigos colegas.
Entre os vizinhos, as opiniões sobre Heuermann divergiam: se uns o consideravam um empresário pacato, outros mantinham distância e alertavam os filhos para não se aproximarem da sua casa durante o Halloween. Alguns relatos descrevem-no como intimidante, tendo sido visto a empunhar um machado no quintal de uma propriedade degradada. Há ainda registos de que terá sido expulso de um supermercado Whole Foods por alegado furto de fruta.
Já na cidade, Heuermann cultivava uma reputação de arquiteto competente e com carteira de clientes de peso, incluindo a American Airlines e o Departamento de Proteção Ambiental de Nova Iorque, através da sua empresa RH Consultants & Associates, com escritório perto do Empire State Building. Apesar do prestígio profissional, colegas consideravam-no “hostil, frio e distante”, como escreve o NYT.
O promotor do condado de Suffolk, Raymond Tierney, caracterizou Heuermann como alguém que tentou projetar a imagem de um “pai inofensivo da vizinhança”. “Ele acreditava que, ao matá-las, poderia silenciá-las para sempre e escapar impune”, afirmou Tierney, segundo o jornal nova-iorquino. “Mas estava enganado”.
A investigação, que tinha ficado adormecida após 2011, foi recuperada em janeiro de 2022 por iniciativa do Ministério Público do condado de Suffolk, que criou uma nova task-force dedicada ao caso. No ano seguinte, Heuermann foi formalmente acusado de sete homicídios e detido. Seis das mulheres mortas trabalhavam como acompanhantes e anunciavam serviços em plataformas online como o Craigslist e Backpage. Uma delas, Tanya Jackson, era uma veterana do Exército dos EUA que morava em Brooklyn antes de desaparecer.
https://observador.pt/2023/07/14/arquiteto-casado-pacato-e-pai-de-dois-filhos-suspeito-de-assassinar-ate-11-pessoas-em-2010-e-2011-detido-em-long-island/
Provas encontradas numa crosta de pizza e anotações de “Thomas Hawk” com instruções para “considerar um golpe no pescoço na próxima vez”
Entre os principais elementos de prova reunidos pelas autoridades estão dados de localização de telemóveis, que colocam o arguido e as vítimas nos mesmos locais em períodos coincidentes, bem como vestígios de ADN recolhidos nos restos mortais. Num dos casos, relativo a Maureen Brainard-Barnes, um cabelo encontrado junto ao corpo apresentava correspondência genética com uma amostra de ADN da mulher de Heuermann. Os investigadores, segundo a ABC7, recolheram ainda material genético de fibras utilizadas para envolver algumas vítimas e de uma crosta de pizza descartada junto ao escritório do arguido, em Manhattan.
De acordo com a acusação, citada pela mesma televisão local, Heuermann recorria aos pseudónimos “Thomas Hawk” e “Andrew Roberts” para contactar dezenas de profissionais do sexo e acumulava uma extensa coleção de pornografia violenta. Entre as suas pesquisas na internet, mais de 100 estavam ligadas aos assassinatos em série de Gilgo Beach ou a outros homicídios, incluindo termos como “por que o assassino em série de Long Island ainda não foi apanhado?”, “mapa de todos os assassinos em série conhecidos” e “polícia cria task-force de investigação de homicídios em Gilgo Beach”. Os procuradores referiram também a existência de um documento que descrevem como um “plano”, onde constariam listas de materiais, locais para ocultação dos corpos e anotações como “queimar luvas” ou “considerar um golpe no pescoço na próxima vez”.
Durante a audiência, Raymond Tierney questionou diretamente o arguido sobre a forma como matou algumas das vítimas. Interrogado sobre a morte de Melissa Barthelemy, Heuermann respondeu “estrangulamento”, repetindo a mesma descrição lacónica para Megan Waterman e Amber Costello.
O advogado de defesa, Michael Brown, afirmou que a decisão de apresentar confissão partiu exclusivamente do cliente. “Chegou um momento nesta defesa em que Rex disse: ‘Quero declarar-me culpado’”, afirmou aos jornalistas. Segundo explicou, o peso das provas de ADN e a perspetiva de um julgamento prolongado, com impacto nas famílias das vítimas e na própria família do arguido, estiveram entre os fatores considerados.
“Rex Heuermann, e apenas Rex Heuermann, é responsável por estes crimes”. Mas ex-mulher enfrenta processo civil por homicídio
A ex-mulher, Asa Ellerup, e a filha do casal estiveram presentes na audiência. O advogado, Robert Macedonio, indicou que ambas contestam um processo civil por homicídio apresentado por Benjamin Torres, que alega ter sofrido traumas na infância após o assassinato da mãe e reclama também compensações relacionadas com a participação de Ellerup e da filha em documentários sobre o caso.
À saída do tribunal, Ellerup afirmou: “Os meus pensamentos e orações estão com as vítimas e as suas famílias. A perda é imensurável”. Segundo o advogado, nunca quis acreditar que o homem com quem foi casada durante 27 anos fosse capaz de tais atos, sublinhando que “Rex Heuermann, e apenas Rex Heuermann, é responsável por estes crimes”.
O acordo de confissão inclui a cooperação do arguido com a Unidade de Análise Comportamental do FBI, adiantou o advogado de defesa. Segundo o Ministério Público do condado de Suffolk, Heuermann deverá ser condenado a três penas consecutivas de prisão perpétua, sem possibilidade de liberdade condicional, pelos homicídios de Melissa Barthelemy, Megan Waterman e Amber Costello. É ainda esperada uma pena adicional, também consecutiva, entre 100 anos e prisão perpétua, pelos homicídios de Maureen Brainard-Barnes, Jessica Taylor, Sandra Costilla e Valerie Mack. A leitura da sentença está marcada para 17 de junho.
[As testemunhas, os relatórios, as fotos e os vídeos que desvendam como Renato Seabra matou Carlos Castro em Nova Iorque. “Os ficheiros do caso Carlos Castro”, o novo Podcast Plus do Observador, conta os bastidores nunca revelados da investigação a um crime brutal. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir o primeiro episódio, aqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music]
