“Good Boy-Terapia de Choque”
Produzido por Jeremy Thomas e pelo veterano realizador polaco Jerzy Skolimovski, e rodado em Inglaterra e na Polónia pelo seu compatriota Jan Komasa (Corpus Christi-A Redenção), Good Boy-Terapia de Choque é o OVNI das estreias do mês, remetendo para alguns filmes irrotuláveis que se faziam na Europa nos anos 70. Tommy (Anson Boon), um delinquente e vândalo de 19 anos, é raptado por Chris (Stephen Graham), um cidadão-modelo, levado para a mansão no campo onde este vive com a mulher e um filho pequeno, acorrentado pelo pescoço e submetido a um programa de reeducação social, visando transformá-lo num “bom rapaz”. Mas pouco a pouco, vamos percebendo que as coisas não são assim tão lineares. Good Boy-Terapia de Choque é, no fim de contas, um filme sobre a importância da família – só que contado de forma muito enviesada e desnorteante.
https://www.youtube.com/watch?v=4lROn_sWj7s
“Nino”
À beira de fazer 30 anos, Nino (Théodore Pellerin) é diagnosticado com um cancro, e precisa de iniciar o tratamento dentro de três dias. O rapaz vai ter que interiorizar e aceitar a notícia, e perceber como a comunicar aos outros, o que se apresenta como muito difícil, ao mesmo tempo que anda por Paris, com vários encontros e peripécias pelo meio. Primeiro filme de Pauline Loquès, Nino tem uma ideia forte, à qual a realizadora nunca consegue fazer justiça dos pontos de vista dramático, narrativo e da captação do interesse e do envolvimento emocional do espectador. Bem como da mais elementar verosimilhança, comprometida por sequências tão implausíveis ou ridículas como aquela em que Nino fica fechado fora de casa, ou a da masturbação perto do final. Compare-se com o peso e a intensidade de um filme com um tema semelhante como Enquanto Vivo, de Emmanuelle Bercot (2021), e ver-se-à a debilidade deste Nino.
https://www.youtube.com/watch?v=l7meBQoA11U
“Nossa Terra”
Será a argentina Lucrecia Martel mais uma daquelas realizadoras cuja chama criativa se esgota ao fim de dois ou três filmes? A autora de O Pântano e A Rapariga Santa não fazia uma longa-metragem desde a medíocre Zama, de 2017, e não é este banal e entediante documentário de veia “activista” que nos vai reconciliar com ela. Nossa Terra centra-se no processo judicial, aberto em 2018, relativo ao assassínio, nove anos antes, do líder de uma comunidade índia no interior da Argentina, por um trio de homens armados e ligados a um negócio de exploração mineira em terras reivindicadas pelos indígenas. Para além das características muito locais do caso, Lucrecia Martel é parcimoniosa e lenta a dar-nos informação útil (só com o filme já muito adiantado conseguimos juntar algumas peças para percebermos bem o que se passa), e a realização é de uma atonia e uma sensaboria entorpecentes, incluindo os presunçosos e inúteis planos de drone.
https://www.youtube.com/watch?v=q5MtslDaxXE
“O Cativo”
O realizador Alejandro Amenábar vai desenterrar o mito da homossexualidade de Cervantes, nunca confirmada por factos ou documentos, nesta fita que se passa durante os cinco anos de cativeiro do autor de Dom Quixote em Argel, então sob domínio otomano, após ter sido capturado pelos turcos, em 1575, quando regressava de Itália, e levado para ali. No filme, o escritor fica cativo do bei de Argel, Hassan Bajá, um veneziano que renegou a fé cristã e se tornou muçulmano, e que se enamora dele após o ouvir contar histórias para entreter os outros prisioneiros. Por ser visto como um cativo valioso, Cervantes ficaria a penar naquela cidade até ser resgatado, em 1580, a troco de 500 escudos em ouro. Durante esses anos, tentou fugir várias vezes, sempre sem êxito. O Cativo foi escolhido como filme da semana pelo Observador.