Marcelo falava a toda a hora aos jornalistas, Seguro só uma vez por dia. Um abusava das alegorias, outro foge delas. Um queria legitimar um Governo, outro quer pressioná-lo. Os dois gostam de estar com as pessoas, mas um foi mais intimista e popular, outro é mais institucional e distante. Os três primeiros dias de “Presidência Aberta” de António José Seguro, quando comparados com os três primeiros dias de “Portugal Próximo” de Marcelo, expõem as (muitas) diferenças nos estilos do atual Presidente e do anterior.
Ambos escolheram o mês de abril para a primeira ida ao terreno. Seguro já completou três de cinco dias na Região Centro (é ainda difícil saber todos os eventos que fará), enquanto Marcelo fez apenas três dias no Alentejo — embora bastante intensos, em que visitou nove concelhos e fez dezenas de ações. O anterior Presidente queria alertar para a desertificação do interior. Já o atual pretende evitar o esquecimento das populações na região centro. O Observador acompanhou, com dez anos de distância, os primeiros três dias de ambos. As diferenças ajudam a perspetivar o que será o novo Presidente no cargo.
A comunicação e as metáforas: o carrinho de morangos e o regador
António José Seguro tem um diferença de estilo de comunicação para Marcelo Rebelo de Sousa: só fala uma vez por dia com os jornalistas. Nas primeiras presidências abertas do anterior Presidente (que tinham o nome de “Portugal Próximo”), Marcelo chegou a falar entre três a cinco vezes por dia. Já Seguro — à exceção de uma ou outra palavra de circunstância — falou apenas uma vez por dia com a comunicação social e sempre de microfone fixo, com uma distância de segurança.
Nos primeiros dois dias, o atual Presidente só falou, aliás, das consequências da tempestade e dos apoios que tardam em chegar, tendo apenas ao terceiro dia manifestado disponibilidade para responder sobre outros temas: “Senhores jornalistas, hoje fico à vossa disposição para responder ao que quiserem”.
O atual Presidente da República não responde a perguntas laterais que os jornalistas lhe façam e que possam ter segundas interpretações. A única exceção nos primeiros três dias foi enquanto plantava e regava um medronheiro. Em resposta a uma pergunta sobre se a democracia devia ser regada, atirou: “A democracia precisa sempre de ser bem tratada, regada, apanhar sol, apanhar também sombra”. E mais nada. Ora, a primeira ida do antecessor ao terreno, dez anos antes, tinha sido muito profícua nesses apartes.
Na altura — numa visita a uma plantação de morangos, cultivados em hidroponia, em Beja — Marcelo começou a colher alguns frutos e a tentar colocá-los num carrinho, que acabava por deslizar demasiado para a esquerda, em vez de se manter, como era suposto, no meio do corredor. Com o então ministro da agricultura, Capoulas Santos, ao lado, Marcelo aproveitava para atirar avisos ao Governo. “Isto é muito bom. Estão a ver como isto é. Está o carro a virar para a esquerda. Vê o ministro e vira para a esquerda. Este carrinho é ensinado. É uma coisa. E eu a tentar metê-lo ao centro. Isto está difícil, senhor ministro (…) Isto está tudo a ir muito para a esquerda. Ora lá está. Ele vai para o centro-esquerda. Tenho de empurrá-lo para o centro. Mas lá está! Consegui.”
Incapaz de dizer não, nessa mesma empresa, a Paxberry, o Presidente deu uma entrevista a jovens youtubers, conhecidos como Três Tristes Tigres, onde não se coibiu de dizer as três características que deve ter uma mulher ideal: “Inteligente, doce e alegre”.
À semelhança de Marcelo, o atual Presidente também esteve com o ministro da Agricultura esta quarta-feira, mas o registo foi, naturalmente, outro. Num almoço com agricultores esta quarta-feira em Soure, na Quinta do Seminário em Vila Nova de Anços, Seguro recebia de oferta um arroz do Baixo Mondego e foi “picado” com uma questão aparentemente inocente por uma jornalista: “Gosta de cozinhar?”. Nem a essa deu réplica. “Não respondo a essas perguntas”, rematou.
Relativamente à relação com os jornalistas, Seguro é, como Marcelo, cordial. E, por vezes, até, brincalhão. Chegou a desafiar os jornalistas a plantarem medronheiros: “Agora é a vossa vez. Então? Trabalhem lá um bocadinho, que eu já fiz a minha parte”. E diz sempre, de forma educada, que respeita muito o “rigor”, o “interesse jornalístico” ou a “inteligência da pergunta” antes de declinar resposta. Mas sem responder.
Marcelo não só respondia sempre a jornalistas — em particular de rádios e televisões, quando estavam em direto — como era muito menos distante e menos institucional na relação direta. O anterior Presidente dava calduços, beijos na cabeça, roubava a esponja dos microfones e outros gestos que ia repetindo com frequência. O atual chefe de Estado é educado no trato, mas não desmonta a pose institucional (à semelhança do que acontecia, por exemplo, com o Presidente Aníbal Cavaco Silva).


A relação São Bento-Belém: pressionar versus descrispar
A primeira presidência de Marcelo e a primeira de Seguro têm pontos em comum: o ex-Presidente queria chamar a atenção para um interior esquecido (por isso escolheu o Alentejo) e o atual para uma região centro afetada pela tempestade. No objetivo de ambos estava ainda outro traço comum: definir um posicionamento relativamente ao Governo em funções. Se António José Seguro quer pressionar o Governo Montenegro a acelerar os apoios, Marcelo queria de alguma forma legitimar o primeiro governo de Costa e arrefecer o clima de tensão que se vivia entre o PSD de Passos e o Governo de Costa.
António José Seguro tem utilizado todas as formas possíveis para pressionar o Governo, mesmo que diga que “não se trata pressão“. Em três dias, o Presidente disse dezenas de frases, com várias versões, que pressionam o Executivo: “Menos palavras, mais ação”; “os apoios tardam”; “o meu papel é sobretudo sensibilizar quem tem a responsabilidade de cumprir”; “fizeram-se grandes proclamações durante a tempestade, que não se realizaram”. Isto só para citar algumas.
Já Marcelo Rebelo de Sousa não perdia oportunidades para pedir um “descrispar” da situação política. Em abril de 2016, o proprietário da Sharish Gin explicou ao então Presidente que o gin que estava a provar era a “bebida ideal para estar com os amigos, num final de tarde, na esplanada”. O Presidente da República aproveitou logo o brinde para exigir aquilo que tinha definido como um dos objetivos do mandato: a descrispação do panorama político. Em Reguengos de Monsaraz, o Presidente fez a prova e atirou: “Todos os políticos deviam tomar disto. Para ficarem suaves, suaves. Era bom para a descrispação”. Foram às dezenas os apelos do género naqueles três dias.
Relativamente às relações com o primeiro-ministro, há dez anos, Marcelo também obrigou António Costa a deslocar-se a Évora para a reunião semanal (que excecionalmente e por questões de agenda se realizou na sexta-feira). Agora, Seguro também pediu a Montenegro que se deslocasse na terça-feira a Tomar. Enquanto Marcelo e Costa já tinham uma boa relação há anos, Montenegro aproveitou a ida a Tomar para se desfazer em elogios a Seguro, adocicando a proclamada cooperação estratégica.


Sai o Presidente dos afetos; entra o Presidente das pessoas
Marcelo Rebelo de Sousa, logo no seu “Portugal Próximo”, fez questão de cumprimentar todas as pessoas com quem se cruzava. Tirava selfies, dava abraços prolongados, ‘passou-bens’ que pareciam roubos por esticão, e beijos a todas as senhoras com quem se cruzava. A barreira institucional foi tão pulverizada que, nessas primeiras presidências abertas chegou a aconselhar uma mulher, em Évora, a “pintar as raízes” do cabelo, ao mesmo tempo que dizia que a cor lhe ficava bem.
A promessa de ser o “Presidente dos Afetos“, que o acompanharia até ao fim do mandato, cumpriu-se logo nas primeiras idas ao terreno. Espantados com o estilo demasiado próximo de Marcelo, os jornalistas que o acompanharam no Alentejo diziam que Marcelo sofria do síndrome Gabriela, numa alusão à música de Gal Costa para a novela da Globo: “Eu nasci assim, eu cresci assim. E sou mesmo assim, vou ser sempre assim”. E foi assim até ao fim.
António José Seguro também procura estar próximo dos cidadãos. Aliás, em todos os locais que visita, o Presidente pergunta: “Onde estão as pessoas?“. Um desses exemplos foi quando, na terça-feira, em Casais de São Bento (Mação), autarcas, equipa e organização tentavam encaminhavam o chefe de Estado para o almoço, o que levou o Presidente a protestar: “Não. Eu quero ir ter com as pessoas lá acima [a um salão de festas]”. E foi.
Seguro tem muitos anos de terreno, desde os tempos da jota ou de percorrer o País na “Nova Maioria” de António Guterres, sendo por isso especialista em small talk. Porém, mantém sempre uma distância com as pessoas. A conversa é sempre sobre os problemas das pessoas (a casa que perderam, a empresa que não recupera) e não vai para o plano mais íntimo ou pessoal (Marcelo chegava a comentar o peso: “Está gordinho/a”, chegava a dizer).


A relação com partido: o histórico orgulhoso e o “pois…”
António José Seguro evita por completo qualquer relação com o Partido Socialista, o que leva até a situações insólitas. Depois de uma visita a trabalhos das Forças Armadas em zona de mato em Vila de Rei, o Presidente foi visitar uma casa afetada pela tempestade e foi abordado por um político local. O semblante estava animado quando o homem o cumprimentou, mas mudou quando ele disse: “Sou da concelhia do Partido Socialista”. Seguro despachou logo o homem com um: “Pois… muito bem”. E seguiu em frente.
Marcelo Rebelo de Sousa, pelo contrário, fez várias referências ao facto de ser militante suspenso do PSD e brincava com esse facto sempre que se cruzava com qualquer objeto que fosse cor-de-laranja durante esses três dias no Alentejo. O Presidente anterior demonstrava muito mais orgulho em ser “laranjinha”, como o próprio se auto-apelidou algumas vezes. O atual não fez qualquer referência ao facto de ter sido líder do PS.
Existe, no entanto, outra diferença: a relação com as lideranças. António José Seguro tem ignorado por completo José Luís Carneiro, embora, de forma velada, tenha elogiado a integração do PS no acordo de juízes para o Tribunal Constitucional. “Vi com agrado as notícias que me chegaram no sentido de perceber que há um princípio de convergência das forças políticas representadas no Parlamento de modo que a eleição para o Tribunal Constitucional possa ocorrer”, disse o Presidente esta quarta-feira.
Já Marcelo, começou a vingar-se do então líder do seu partido Pedro Passos Coelho — que lhe havia chamado “catavento” — desde as primeiras Presidências Abertas. E, para isso, à Marcelo, fazia uso das tais maquiavélicas metáforas. Nessa ida ao Alentejo, o Governo tinha conseguido que fosse aprovado no Parlamento, na semana anterior, o Programa de Estabilidade e Marcelo Rebelo de Sousa ouvia as primeiras críticas da direita de “dar a mão” à esquerda. O rosto mais visível dessa contestação a Marcelo era Pedro Passos Coelho, que no Congresso do PSD, em Espinho, se tinha referido ao Presidente de forma fria e provocadora: “O dr. Rebelo de Sousa”.
O então Presidente caminhava, em abril de 2016, pelas ruas do centro de Évora quando se cruzou com Inês, uma menina de 5 anos que agarrava entre os braços um “coelhinho” de peluche. Marcelo ainda lhe pediu o boneco, mas como, envergonhada, Inês não quis dar, o Presidente não insistiu. “Não dês, não dês, os coelhinhos são objetos de estimação”. Marcelo sabia bem quem queria atingir. Os jornais, as rádios, as televisões aproveitaram a deixa tiveram a mesma leitura: o Presidente estava a enviar um recado a Passos Coelho. Seguro não fez sequer nada parecido nestes três dias.


Um dá notícias, outro agenda
No último de três dias de “Portugal Próximo”, Marcelo deslocou-se à Ovibeja com os pavilhões completamente cheios de gente. A densidade de pessoas ainda era maior por onde passava o Presidente. Foi então que, numa das bancas de enchidos, Marcelo Rebelo de Sousa decidiu cortar presunto, que iria levar para Lisboa. O vendedor aconselhava que o Presidente cortasse, como se estivesse a tocar violino. Marcelo empenhou-se, mas, pelo meio, libertou a notícia, dizendo que o pedaço de presunto que iria levar ia “dar para não-sei-quantos jantares em Belém”.
E logo veio a revelação: “Como eu tenho agora chefes de Estado e o secretário-geral das Nações Unidas. Vai ser presunto para o secretário-geral das Nações Unidas”. Com qualquer outro político não seria normal anunciar que iria receber o secretário-geral da ONU (na altura Ban Ki-Moon) enquanto cortava presunto. Tudo isso passaria a ser considerado normal ao longo do mandato.


António José Seguro também fala de eventos que terá no futuro — mas só sobre os conhecidos. Numa visita ao Parque de Campismo de Oleiros, Seguro cruzou-se com uma família de espanhóis. O Presidente, pela proximidade de Penamacor com a fronteira, domina bem a língua e aproveitou para mostrar os seus conhecimentos de castelhano.
Aos campistas fez questão de dizer que o rei foi muito amável em ter vindo à sua posse e que a primeira visita de Estado será a Madrid a 19 e 20 abril. Quando foi convidado para umas festas a 19 de setembro em Vila de Rei, lá deixou escapar mais uma inconfidência, que não concretizou: “Talvez não possa vir, porque tenho um evento nos jardins em Belém”. Também, neste caso, Seguro é mais contido.
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