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(A) ::  O dilema do carregador: entre a bomba de gasolina e o apagão social

 O dilema do carregador: entre a bomba de gasolina e o apagão social

Antes de ligarmos o país à tomada, é necessário garantir que não estamos apenas a substituir uma dependência externa por um colapso social e económico.

Fernando Morais
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Nos últimos tempos, entrar numa bomba de combustível em Portugal tornou-se um exercício de masoquismo financeiro. Observar preços ridiculamente elevados, inflacionados por conflitos geopolíticos em que os líderes estão mais focados no domínio territorial do que no bem-estar comum, é um murro no estômago de quem precisa do carro para trabalhar. Sentimo-nos estrangulados: de um lado, as longas filas de trânsito; do outro, faturas que não param de aumentar.

Neste cenário, somos empurrados para a era dos veículos elétricos, queiramos ou não. As grandes potências e os governos vendem-nos a “geração da sustentabilidade”, mas a realidade é mais cinzenta do que o verde dos cartazes publicitários. Para a classe média, cuja economia está comprometida por salários que não acompanham o custo de vida, o carro elétrico não é uma opção, mas sim um luxo inacessível. Estamos entre a “espada” de um combustível caríssimo e a “parede” de um veículo elétrico que poucos conseguem pagar, quanto mais fazer a respetiva manutenção, onde uma simples substituição da bateria pode ascender aos 3000 euros. São custos incomportáveis.

A ONU e a União Europeia ditam o fim dos motores a combustão para 2035, mas esquecem-se de olhar para a pegada ecológica oculta. A extração de lítio, cobalto e níquel consome uma quantidade brutal de recursos hídricos em zonas áridas e produz resíduos tóxicos. A ideia de que as baterias de “emissões zero” são ecológicas ignora o facto de o processo de fabrico de uma bateria emitir muito mais CO2 do que a construção de um carro tradicional. A isto, somamos a autonomia ainda limitada e os tempos de carregamento que testam a paciência de qualquer utilizador.

Apesar das controvérsias, há luz no fundo do túnel. A tecnologia das baterias está a evoluir com as baterias LFP (lítio-ferro-fosfato), que são mais baratas e seguras, e com as promissoras baterias de estado sólido, que prometem uma maior autonomia e uma maior rapidez de carregamento. Portugal, justiça lhe seja feita, está bem posicionado no que se refere à rede de energias renováveis, mas resta a questão fundamental da infraestrutura da rede elétrica nacional.

Embora um cenário de “apagão” total seja improvável a curto prazo, o risco de sobrecarga é real se milhões de veículos forem ligados à rede elétrica em simultâneo. As nossas habitações, especialmente nos bairros mais antigos, não foram concebidas para suportar este esforço. A solução passará, obrigatoriamente, por uma gestão inteligente que incentive o carregamento nas horas de vazio e que reforce os postos de armazenamento e distribuição.

Em suma, a transição para a mobilidade elétrica não pode ser apenas um decreto imposto por potências distantes. Para o português comum, o carro elétrico continua a ser um privilégio disfarçado de solução ambiental. Portugal tem os recursos e as energias renováveis, mas falta o mais importante: uma estratégia que não deixe a classe média “a pé”. Antes de ligarmos o país à tomada, é necessário garantir que não estamos apenas a substituir uma dependência externa por um colapso social e económico.