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(A) :: “Não se deixa limitar pela verdade”, “sociopata” e “com truques de Jedi”. O retrato de Sam Altman, descrito como o “problema” da OpenAI

“Não se deixa limitar pela verdade”, “sociopata” e “com truques de Jedi”. O retrato de Sam Altman, descrito como o “problema” da OpenAI

A revista New Yorker publicou uma extensa investigação sobre Sam Altman, o CEO da OpenAI. Foram entrevistadas mais de cem pessoas, ao longo de um ano e meio, e revelados documentos.

Cátia Rocha
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Os jornalistas Ronan Farrow e Andrew Marantz passaram cerca de um ano e meio a fazer entrevistas e a analisar documentos para traçar um extenso retrato de Sam Altman, o CEO da OpenAI, dona do ChatGPT, para a revista New Yorker. O artigo, que está disponível online mas só será publicado no formato físico a 13 de abril, questiona se Altman, que é um dos rostos da atual vaga da inteligência artificial (IA), é ou não de confiança.

Uma característica relevante para uma entidade que foi fundada como organização sem fins lucrativos, para desenvolver IA para o bem da humanidade. Tanto que, logo no título, é feita a questão “Sam Altman pode controlar o nosso futuro — será que podemos confiar nele?”

Foram entrevistadas mais de cem pessoas, com “conhecimento direto da conduta de negócio” de Altman, entre atuais e antigos trabalhadores e membros do board da OpenAI, convidados e funcionários das casas do empresário, “amigos e inimigos e várias pessoas que, devido à cultura mercenária de Silicon Valley, já tiveram os dois papéis”. Se há quem defenda Altman, de 40 anos, e diga que os seus rivais “são aspirantes falhados ao trono”, também há quem reconheça que o norte-americano “não se deixa limitar pela verdade” e que talvez “não seja a pessoa certa para ter a mão no botão”, numa referência ao poder da inteligência artificial (IA).

Não é a primeira vez que a New Yorker se centra em Sam Altman. Em 2016 foi feito um extenso perfil, numa altura em que o norte-americano ainda estava ao leme da incubadora Y Combinator e a OpenAI dava os primeiros passos. Logo aí Altman começava a revelar uma posição ambivalente em relação à IA, mas não tinha ainda o destaque que ganhou após o ChatGPT.

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“Sam apresenta um padrão consistente de mentiras”

O extenso trabalho parte do despedimento de Sam Altman da OpenAI, em novembro de 2023, para explorar a personalidade do executivo e a forma como se move na indústria tecnológica. Na altura, um afastamento motivado pela desconfiança de alguns membros do conselho de administração sobre as decisões do CEO. “O ‘board’ já não tem confiança na capacidade [de Altman] para continuar a liderar a OpenAI” foi a justificação dada para o despedimento que manteve Altman afastado da empresa menos de cinco dias. Em comunicado, foi ainda dito que Altman não estaria a ser “consistentemente franco nas suas comunicações com o conselho”.

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A investigação da dupla de jornalistas mergulha em documentos e memorandos internos, revelando que a desconfiança do board em relação a Altman foi documentada ao longo de 70 páginas. Ilya Sutskever é um dos cofundadores da OpenAI e o arquiteto do golpe conhecido como ‘The Blip’ — uma referência da Marvel, em que personagens desaparecem e, quando voltam, sem mudanças, o mundo foi profundamente alterado pela sua ausência. E, com o auxílio de outros funcionários da OpenAI com dúvidas sobre o CEO, Sutskever compilou mensagens de Slack, memorando e documentos dos recursos humanos.

A New Yorker cita algumas informações recolhidas, como uma lista sobre comportamentos de Altman, em que é dito que “Sam apresenta um padrão consistente no que toca a mentir”. Sutskever, que na altura era o cientista-chefe da OpenAI, terá dito a um membro do conselho de administração que achava que “Sam não é o tipo certo para ter o dedo no botão”.

“Ele não se deixa limitar pela verdade”, disse um outro membro do conselho de administração, que não quis ser identificado, à New Yorker. “Tem dois traços [de personalidade] que é raro encontrar na mesma pessoa. O primeiro é um forte desejo em agradar às pessoas, de ser apreciado em qualquer interação. O segundo é uma indiferença quase sociopática em relação às consequências que podem advir de enganar alguém”, afirmou.

Os jornalistas ouviram mais do que uma vez a palavra “sociopata”. E, num dos casos, para relembrar um aviso feito por alguém há vários anos. O programador Aaron Swartz, que fez parte do primeiro lote de empreendedores da Y Combinator, terá levantado desconfianças sobre Sam Altman, em conversas com amigos, pouco antes de se suicidar, em 2013. “Têm de compreender que não se pode confiar no Sam”, terá dito Swartz. “É um sociopata. Ele faria qualquer coisa.”

Alguns destes traços apontados a Altman não são novos. O artigo menciona informações de biografias escritas sobre o executivo, como The Optimist, com testemunhos da altura da Y Combinator. Mark Jacobstein, um funcionário da primeira startup de Sam Altman, a Loopt, sugeriu que há nele uma tendência para distorcer os factos. “Há uma linha ténue entre ‘acho que talvez consiga fazer isto’ e ‘já consegui fazer isto’, que, na sua forma mais tóxica, conduz à Theranos”, referindo-se à startup de testes de sangue que prometia mudar o mundo até à fundadora ser condenada por fraude.

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Também há sinais sobre Sam Altman ter uma personalidade disposta a fazer de tudo para prevalecer. “Podem deixá-lo cair de paraquedas numa ilha cheia de canibais, regressar em cinco anos e ele vai ser o rei”, disse o mentor Paul Graham, em 2008, o criador da Y Combinator. Na altura da frase, Altman tinha apenas 23 anos, mas já mostrava ambição na indústria.

A tenacidade mantém-se até hoje. Até porque, como caracterizaram várias fontes, Sam Altman não tem um perfil técnico. Há, por exemplo, vários engenheiros que falam em erros ou confusão quando tenta usar “termos técnicos básicos”. É descrito mais como um “homem de negócios”, com uma “capacidade notável de convencer engenheiros, investidores e um público tecnológico cético sobre as suas prioridades”.

“É incrivelmente persuasivo. Do género de ter truques mentais de Jedi”, disse um executivo do setor tecnológico à revista. Um exemplo desta situação está ligado ao facto de, no início da OpenAI, Altman ter conseguido persuadir engenheiros a trabalhar para uma organização sem fins lucrativos com cortes de salários consideráveis.

Um vislumbre das notas de Dario Amodei, o rival da Anthropic

O artigo da New Yorker também traz à luz as notas de Dario Amodei, hoje CEO da empresa de IA Anthropic, sobre o comportamento de Sam Altman e Greg Brockman (presidente da OpenAI). Intitulado “A minha experiência com a OpenAI — privado, não partilhar”, o documento tem mais de 200 páginas, entre emails e documentos internos, e foi compilado ao longo de vários anos.

Apesar de hoje serem rivais, houve uma altura em que Altman e Amodei trabalhavam juntos. Porém, terá sido a desconfiança em relação aos planos da OpenAI e à segurança da IA que levaram Amodei a fundar a Anthropic. Desde o primeiro momento que Amodei posicionou a empresa como sendo mais orientada pela ética do que as rivais. Atualmente, a Anthropic tem um litígio em curso contra o Pentágono. O Departamento da Defesa classificou a empresa como um risco para a segurança nacional norte-americana quando a companhia quis impor linhas vermelhas ao uso de IA para fins militares.A Anthropic perdeu um contrato de 200 milhões de dólares com o Pentágono, que foi entretanto parar às mãos da OpenAI.

https://observador.pt/especiais/negociacoes-falhadas-insultos-e-temido-risco-de-seguranca-nacional-ia-abriu-fosso-entre-anthropic-e-pentagono-mas-foi-usada-no-irao/

A New Yorker refere que os documentos de Amodei têm circulado entre os poderosos de Silicon Valley, mas que é a primeira vez que chegam à imprensa. Numa dessas notas, Amodei declarou que “as palavras dele [Sam Altman] eram quase de certeza treta”. Amodei terá sugerido que o empresário é dado a “supostos enganos e manipulações” nas relações laborais, apontando que Altman terá feito a mesma proposta de trabalho a duas pessoas.

Mas Amodei foi mais longe. Numa das suas notas disse mesmo que “o problema da OpenAI é o próprio Sam”.

As insinuações dos rivais, desde supostos abusos sexuais até à morte de um denunciante

Desde que está na ribalta, Sam Altman tem sido alvo de muita gente. O caso mais conhecido? Elon Musk, que ajudou a fundar a OpenAI mas que tem atualmente um processo contra Altman e a empresa por considerar que houve um desvio na missão da organização. Mas há mais interessados em causar danos à reputação de Altman.

https://observador.pt/especiais/uma-missao-deitada-fora-o-medo-da-ia-da-google-e-a-ambicao-de-controlo-absoluto-da-openai-musk-e-altman-de-costas-voltadas/

O artigo da New Yorker aborda as “acusações extremas” e insinuações feitas contra Altman, que vão desde supostos abusos sexuais até à alegada morte de um denunciante. Tucker Carlson, figura pública da extrema-direita nos EUA, alegou sem apresentar provas que Altman estaria ligado à morte de um denunciante.

Uma das acusações de abuso sexual partiu da própria irmã de Sam Altman, Annie. Altman negou, assim como os irmãos e a mãe, que falou em “absolutas mentiras” e numa “fonte de imensa dor para a família”.

O artigo também fala em intermediários ligados a Elon Musk que terão feito circular pela indústria “dezenas de páginas” de acusações contra Altman. Alguns dos dossiers têm títulos sugestivos como “o exército dos twinks”, expressão usada para designar um homossexual com aspeto jovial, ou “os hábitos sexuais do sugar daddy”, isto é, um homem mais velho que sustenta um jovem com quem está envolvido sexualmente. Há insinuações de que Altman procura encontros sexuais com menores. “Passámos meses a investigar isto, fizemos dezenas de entrevistas e não encontrámos provas”, escrevem os jornalistas.

Altman defendeu-se, dizendo que é um “comportamento repugnante de um concorrente”. “Por mais ridículo que pareça ter de dizer isto, quaisquer acusações sobre ter tido sexo com menores, contratar trabalhadores sexuais ou estar envolvido num homicídio são completamente falsas”, declarou.

O que diz Altman sobre as desconfianças? “Não me lembro”

Sam Altman foi entrevistado “mais de uma dúzia de vezes” para compor a investigação e fazer o devido contraditório. Confrontado com as desconfianças e com a sua forma de fazer negócios, disse por várias vezes não se lembrar das situações ou interações. Ou, sobre o facto de às vezes florear alguns temas, como ter sido “campeão de ping-pong do liceu no Missouri” quando é um mau jogador, disse que “provavelmente estava a brincar”.

Além da OpenAI, Sam Altman tem também investimentos em várias empresas, algumas delas startups que conheceu ainda quando liderava a Y Combinator. Um investidor acusou Altman de “fazer investimentos pessoais, de forma seletiva, nas melhores empresas, bloqueando investidores externos”. Altman declarou que “não impede ninguém” de fazer negócios.

Numa das entrevistas disse estar cansado e stressado, sentindo-se sobrecarregado com as escolhas que tem de fazer. “O que explico aos meus amigos é que ‘este era o trabalho mais divertido do mundo até ao dia em que lançámos o ChatGPT’”, em novembro de 2022. “Fizemos descobertas científicas de grande envergadura — acho que fizemos a descoberta científica mais importante das últimas, não sei, muitas décadas”, declarou o empresário. “E depois, desde o lançamento do ChatGPT, as decisões tornaram-se muito difíceis.”

[As testemunhas, os relatórios, as fotos e os vídeos que desvendam como Renato Seabra matou Carlos Castro em Nova Iorque. “Os ficheiros do caso Carlos Castro”, o novo Podcast Plus do Observador, conta os bastidores nunca revelados da investigação a um crime brutal. Uma série em seis episódios, narrada pela atriz Joana Santos, com banda sonora original de Júlio Resende. Pode ouvir o primeiro episódioaqui, no site do Observador, e também na Apple Podcasts, no Spotify e no Youtube Music]