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(A) :: Inventário dos dias bons

Inventário dos dias bons

A amizade é, talvez, a forma mais pura de liberdade. O amigo é aquele que nos viu no nosso pior - despenteados, errados, vulneráveis - e decidiu que valia a pena ficar.

Alberto Veiga
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Vivemos tempos de “ligações” rápidas, de corações digitais e de redes que, de tanto se estenderem, acabam por se tornar finas e quebradiças. Mas, entre o ruído do quotidiano e a urgência do que é produtivo, há um património silencioso que nos mantém inteiros: a amizade. Não a amizade das festas ou das fotos de grupo, mas aquela que se faz de permanência e de uma estranha forma de reconhecimento.

Escrevo isto porque, por vezes, é preciso parar para fazer o inventário dos nossos dias bons. E, invariavelmente, neles aparecem os mesmos rostos.

Há amigos que são como mobília antiga na nossa vida: já não reparamos que estão lá, mas se os tirassem do lugar, perderíamos o equilíbrio. São as pessoas que conhecem as nossas notas de rodapé — aquelas que não publicamos nas redes sociais. Sabem do medo que temos de falhar, da piada interna que já não tem graça para mais ninguém e do silêncio que não precisa de ser preenchido.

Reconhecer um bom amigo não é sobre quem celebra as nossas vitórias (isso, convenhamos, é fácil). É sobre quem sabe ler os nossos sinais de fumo quando ainda nem nós admitimos que estamos a arder.

“A amizade é o único amor que não exige contrato, mas que impõe a mais doce das fidelidades: a de sermos nós próprios sem pedido de desculpas.”

A amizade é, talvez, a forma mais pura de liberdade. Ao contrário da família, que nos é dada, ou do amor romântico, que tantas vezes nos exige uma performance de perfeição, o amigo é aquele que nos viu no nosso pior — despenteados, errados, vulneráveis — e decidiu, com uma lucidez desarmante, que valia a pena ficar.

Ter bons amigos é ter para onde voltar quando o mundo lá fora se torna demasiado barulhento. É saber que, algures numa conversa de WhatsApp ou numa mesa de café com marcas de chávena, existe um território onde somos aceites antes de sermos julgados.

Neste artigo, não quero falar de conceitos abstratos. Quero falar de nomes próprios. Dos meus e dos vossos. Quero celebrar os que nos dizem a verdade, mesmo quando ela dói, e os que nos defendem pelas costas com a mesma garra com que nos abraçam de frente.

Diz-se que a vida é o que acontece enquanto fazemos planos. Eu prefiro pensar que a vida é o que acontece enquanto estamos rodeados das pessoas certas. Aos meus amigos — os que são âncora e os que são vela — este é o meu reconhecimento público. Porque a felicidade, quando não é partilhada, é apenas um conceito. Quando é vivida com vocês, e casa.