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"É quase certo que vamos entrar em colapso". Espanhóis já sabiam dos problemas no sistema elétrico quase três meses antes do apagão

As conversas entre os operadores da rede elétrica e os centros de distribuição divulgadas pelo senado espanhol revelam oscilações de tensão desde janeiro: "É quase certo que vamos entrar em colapso".

Sâmia Fiates
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As comunicações telefónicas entre a Rede Elétrica de Espanha (REE), operadora do sistema elétrico espanhol, e várias empresas de distribuição de energia, revelam que os operadores já haviam identificado problemas na rede quase três meses antes do apagão que afetou Portugal, Espanha e parte da França a 28 de abril de 2025. As gravações foram tornadas públicas em duas tranches, no âmbito da comissão de inquérito que investiga o incidente no Senado espanhol. O relatório divulgado em março pela ENTSO-E, associação europeia de operadores de transporte, já revelava falhas no controlo do nível de tensão, mas não identifica qualquer culpado.

Em pelo menos dois dias, 31 de janeiro e 7 de abril, os operadores já haviam identificado variações de tensão, como revelam as transcrições de conversas entre os técnicos da REE e as centrais de operação e distribuição, publicadas esta quarta-feira pelo El País. “Algo que tinha sob controlo a um nível de carga normal, com tensão normal, é subitamente levado ao limite e a tensão cai”, alertam a 31 de janeiro de 2025 do centro de controlo do operador do sistema a uma das empresas de distribuição, em Barcelona, depois desta questionar os problemas, quase três meses antes do apagão. “Hoje foi extremamente mau”, afirmou ainda o operador, sobre os problemas desse dia, sugerindo a necessidade de haver “reuniões ” para discutir uma solução. “Todos os distribuidores viram, como é normal. Bem, vão preparar um relatório ou algo do género.

A conversa continua, com o técnico do centro de controlo de distribuição em Barcelona a alertar: “Em Ascó, estavam prestes a ter um dos geradores desligado e, claro, com esta exportação, se os geradores desligarem, ficaremos sem energia”. A resposta da REE reforça a necessidade de analisar uma alternativa: “Tem sido uma flutuação realmente muito brusca. Portanto, não sei, terão de… analisar tudo com as empresas e ver o que acontece. O que não pode acontecer é que nos libertem capacidade de geração. A energia solar não é como a eólica; a eólica tem inércia, mas com a solar, alguém chega e carrega num botão, e se não aumentar um pouco a escala, acaba por estragar tudo, e é isso que acontece.”

Já a 7 de abril, outro alerta. “Temos um problema enorme com a tensão, um problema grave, está tudo extremamente baixo. Precisam de nos ajudar”, pede um trabalhador do centro de controlo de Sevilha, publica o EL ESPAÑOL-Invertia. “O problema é que está, bem, a oscilar… quase indefinidamente“, respondeu o técnico da REE. “Estamos a enfrentar isto em toda a Espanha”, acrescentou, referindo-se ao grande volume de energia fotovoltaica gerada pela manhã. “Acho que é com isto que vamos ter de viver nos próximos anos, percebe? E quando desmantelarem as centrais nucleares, acho que esse será… o ponto de viragem, percebe?”, é a resposta a partir do posto de controlo em Sevilha, ao que o operador da REE reage: “Não, não se pode aguentar isto, porque… a dada altura é quase certo que vamos entrar em colapso“.

As conversas no dia do apagão também mostram que os operadores estavam a tentar lidar com os problemas de variação de tensão na rede há horasa investigação da ENTSO-E já havia revelado em maio de 2025 que as redes elétricas europeias haviam sofrido oscilações minutos antes do corte total em Portugal, Espanha e parte de França. Às 9h54, os técnicos da empresa espanhola de eletricidade já tinham identificado problemas na subestação de Cañaveral. “Consultei os meus colegas e não tivemos qualquer incidente na rede de transmissão”, afirmou o técnico da REE a um dos operadores de Almaraz. “Mas tiveram um problema na subestação deles. Em Pizarroso, em Cañaveral. Foi por volta dessa hora, por isso pode coincidir com o que está a acontecer em Almaraz.”

Cerca de uma hora depois, às 10h59, outra “previsão”, dessa vez numa conversa com operadores de Sevilha. Referindo-se ao excesso de energia fotovoltaica produzido naquela manhã, o técnico da REE diz: “Esse é o problema… E o problema é que há cada vez mais… e aqui no sul temos atualmente Arcos (ciclo combinado) e Almaraz (nuclear), e só, estas são as únicas duas centrais que poderiam absorver parte deste desequilíbrio, mas precisaríamos, teríamos de ligar mais centrais… mas não estão disponíveis.” Em determinado momento, o operador afirma ainda que era preciso “geração térmica ‘grande’, que são as que regulam o fornecimento”. “Como o problema é que a energia solar está a absorver tudo o resto, não está disponível. Portanto, o sol é ótimo para o verão e para a praia, mas para isso, digam o que disserem… estas oscilações repentinas, bem, chegará um momento em que…” De Sevilha vem a resposta: “Perderemos algo ou tudo. Ontem estava a falar com um colega que… acho que vamos ver uma grande perda, penso eu.”

Já pelas 11h31, Sevilha também regista problemas. “Temos muitas oscilações de tensão. Não sei se aconteceu alguma coisa na zona ou quê… Ou se é um problema da rede fotovoltaica.” Às 12h13 a situação parece ter piorado, e o operador da subestação de Cañaveral volta a contatar a REE, que admite haver “oscilações em todo o sistema“. 13 minutos depois, o mesmo operador volta a ligar, e alerta para a situação da central de Almaraz. “Não é a situação ideal, mas estamos a fazer tudo o que podemos, dentro das nossas possibilidades, para evitar que o sistema continue a oscilar”, respondeu a REE. “Dentro das nossas capacidades, estamos a implementar todas as medidas para corrigir a oscilação”.

Foi às 12h32 que os operadores da REE tomaram conhecimento do apagão. Um representante da empresa espanhola de energia ligou à subestação de Cañaveral, em Cáceres, e admite: “Vamos ser desligados.” Do outro lado a confirmação: “Pronto. Já foi. Até já”. O corte de energia sentiu-se em Portugal pelas 11h33, 12h33 em Espanha.

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