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"O Cativo": o mito do Cervantes homossexual num filme que mete os pés da realidade pelas mãos da fantasia

Alejandro Amenábar situa "O Cativo"durante os cinco anos em que Cervantes esteve aprisionado em Argel, e retoma a teoria da homossexualidade do escritor. Eurico de Barros dá-lhe uma estrela.

Eurico de Barros
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Em 1967, o realizador americano VincentSherman rodou, com o apoio do governo espanhol, Cervantes, um filme pseudo-biográfico sobre o autor de Dom Quixote, interpretado pelo alemão HorstBuchholz. A fita, muito mais ficcional que factual, e promovida com o sugestivo slogan “Mil mulheres conheceram os seus beijos e mil homens temeram a sua espada!”, apresentava Cervantes como um herói aventuroso e romântico, ao estilo das produções deste género de Hollywood (e também de algum cinema europeu de então, em especial francês ou de co-produção franco-italiana), desdobrando-se em proezas marciais, amorosas e de espadachim.

Quase 60 anos depois desta mitificação épico-romântica de Cervantes, O Cativo, de Alejandro Amenábar, cai no extremo oposto, ao subscrever o mito da sua homossexualidade, uma teoria do escritor e realizador anarquista Fernando Arrabal, que nega também a participação do escritor na batalha de Lepanto, quando existem vários registos históricos que a confirmam. Apesar de não haver quaisquer provas desta orientação sexual de Cervantes, Amenábar não só insiste nela, como quis que o filme fosse, como disse numa entrevista ao La Vanguardia, “um termómetro da homofobia em Espanha”. Eis assim o criador de Dom Quixote e Sancho Pança transformado num mero instrumento das fixações woke do século XXI.

[Veja o “trailer” de “O Cativo”:]

https://www.youtube.com/watch?v=Zy4GBAoS7l4

Num artigo publicado na revista Omnes, Antonio Barnés, especialista em Cervantes, no “Século de Ouro” e na sua literatura, critica O Cativo por ter “reaberto o velho e grosseiro debate sobre a possível homossexualidade de Miguel de Cervantes”, chamando-lhe, em título, “um esforço delirante”. Curiosa – e paradoxalmente -, outro cervantista, José Manuel Lucía Megías, que foi consultor de O Cativo e considera também a teoria da homossexualidade de Cervantes como um mito, elogia a fita mesmo assim, considerando-a “majestosa, aquela que Cervantes merecia e que ninguém tinha feito até agora”.

O Cativo passa-se durante os cinco anos de cativeiro de Cervantes em Argel, então sob domínio otomano, após ter sido capturado pelos turcos, em 1575, quando regressava de Itália. No filme, o escritor fica cativo do bei local, Hassan Bajá, um veneziano que renegou a fé cristã e se tornou muçulmano, e não, como sucedeu na realidade, do grego e também renegado Dali Mamí. Por ser considerado um prisioneiro valioso, Cervantes ficaria a penar naquela cidade até ser resgatado, em 1580, a troco de 500 escudos em ouro. Durante esses anos, tentou fugir pelo menos quatro vezes, sempre sem êxito.

[Veja uma entrevista com o realizador:]

https://www.youtube.com/watch?v=scEg9G9hEHM

Amenábar mostra, logo nas sequências iniciais do filme, a forma como os homens, mulheres e crianças europeus capturados pelos turcos ou pelos piratas e corsários árabes eram ou vendidos como escravos em leilões brutais, ou então, como sucedeu a Cervantes, se fossem considerados valiosos, ficavam presos até alguém pagar o resgate exigido. Alguns não conseguiam aguentar e convertiam-se ao islamismo, para deixarem as celas onde se amontoavam, atenuarem o seu tormento, passarem a gozar de alguma liberdade e até dedicarem-se a um ofício.

Cervantes (interpretado pelo actor e cantor Julio Peña) é aqui transformado pelo realizador numa espécie de versão masculina e cristã da Xerazade das Mil e Uma Noites. Certo dia, começa a contar histórias para entreter os seus companheiros de cárcere e aliviar-lhes o sofrimento. Isto atrai a atenção do bei Hassan (o italiano Alessandro Borghi – a fita é uma co-produção hispano-italiana), que o chama à sua presença. A crescente afinidade entre ambos irá desembocar numa relação amorosa, que Alejandro Amenábar filma elipticamente, mas sem deixar dúvidas ao espectador sobre a sua existência.

[Veja uma entrevista com os dois actores principais:]

https://www.youtube.com/watch?v=mJ7DlLP5veA

Além de fazer o elogio (estereotipado) do poder das histórias e da efabulação, e de combinar o nível da “realidade” do seu enredo com o das ficções inventadas pelo escritor dentro do mesmo, o filme põe a conviver o realismo das condições de cativeiro de Cervantes e dos outros prisioneiros, e da coexistência, dos conflitos e das peripécias entre estes, com a fantasia disparatada da relação entre o escritor e o seu carcereiro. Sem falar nos anacronismos sobre uma “liberdade” e uma “diversidade” sexual que se viveria então no mundo islâmico otomano, mais um wishfulthinking de Amenábar do que outra coisa. Tudo isto resulta, além de pouco persuasivo, um pedaço confuso e discordante do ponto de vista narrativo. É o preço de se querer fazer caber à força a cavilha redonda das modas contemporâneas no buraco redondo da verdade da época histórica recriada.

Interessantes na fita são a relação de amizade e empatia intelectual entre Cervantes e o frade português António de Sousa, também então preso em Argel e que deixou testemunho escrito da abnegação daquele ao assumir sozinho a responsabilidade das várias tentativas de fuga, e nunca ter denunciado ninguém, mesmo sob tortura; e a possibilidade de Cervantes se ter inspirado em dois outros frades, um idoso e magro, e outro mais novo e anafado, que iam pagar os resgates dos cativos, para conceber Dom Quixote e Sancho Pança. Se não é verdade, está bem achado. Ao contrário de outras coisas vistas em O Cativo, a começar pela pretensa homossexualidade do criador do Cavaleiro da Triste Figura.