Fui a Portalegre visitar o Museu da Tapeçaria de Portalegre – Guy Fino.
Foi sem dúvida uma enorme surpresa e uma experiência que recomendo a qualquer português.
Confesso que parti com pouca convicção para este programa e, como em muitos casos acontece, a pouca expectativa também nos ajuda a encontrar a beleza do que vemos.
Já conhecia alguma obra da Manufactura de Tapeçarias de Portalegre, nome da empresa que as produz, mas verdadeiramente, nunca tinha olhado com olhos de ver, aquelas tapeçarias.
A primeira e notabilíssima característica que me impressionou foi a técnica que foi desenvolvida, a partir de um ponto base que serve para construir a tapeçaria e que era já originário daquela região, melhorada e desenvolvido pela mestria das tecedeiras que deram a este trabalho a capacidade de reproduzir com extraordinário detalhe as variações das pinceladas que os artistas deixam nos seus quadros que aí são retratados.
A capacidade de reproduzir numa tapeçaria uma recta oblíqua ou uma linha circular sem estar sujeito ao efeito de escada típico nas tapeçarias que conhecemos transforma o resultado da reprodução artística num momento de admiração, ao ponto de, a certa distância, ficarmos com dúvidas se estamos a ver a reprodução ou o original.
É verdadeiramente brilhante a história desta descoberta, a possibilidade de deixar quem executa ser parte da solução da obra, o que acontece em cada peça produzida, pois cabe à tecedeira a decisão da mescla de linhas que utiliza em cada ponto que realiza para conseguir aquele efeito mágico na reprodução.
Mas é também maravilhoso o trabalho de preparação desta reprodução artística em que cada ponto é analisado ao pormenor, criando uma teia tão detalhada que cada ponto de tinta está identificado no mapa que projecta o trabalho em questão.
É também muito interessante assistir ao trabalho de tecelagem que as tecedeiras, numa velocidade que não parece possível para quem tem que garantir toda esta perfeição, realizam de seguida e em conjunto, cada uma no seu pedaço de tapeçaria.
É claro que, depois de tudo isto, aquilo que realmente conta é a obra final e, entre os mais diversos artistas nacionais e internacionais, aonde figuram muitos nomes muito conhecidos, é impressionante a sensação de prazer e o sentimento de paixão que nos dá olhar todas aquelas peças que não queremos deixar de olhar e talvez de trazer connosco.
Mas é neste ponto que nos assalta um sentimento de enorme tristeza ao apercebermo-nos que esta arte pode estar ameaçada na sua continuidade.
A procura destas tapeçarias tem diminuído ao longo dos anos e a rentabilidade da sua produção não está garantida.
É fundamental encontrar de novo quem esteja interessado na promoção desta beleza, é também muito importante que este produto seja transformado através de uma estratégia de comunicação em algo mais conhecido pelo comum das pessoas e é essencial que as tapeçarias de Portalegre sejam mais reconhecidas a nível internacional, isso deve ser um trabalho que quem as leva deve promover.
Mas é também ao Estado Português que compete cuidar destas suas artes tão especiais, seja, por exemplo, através da colocação de encomendas para as decorações dos edifícios das suas instituições e embaixadas, contribuindo assim para dar a conhecer esta sua maravilhosa existência.
O Estado preocupou-se sempre com aquilo que lhe traz referência de qualidade, de todos os produtos e artes que o caracterizam, desde o fado e o cante alentejano, da Vista Alegre e Bordalo Pinheiro, do Vinho de Porto e muitas outras referências, não pode deixar de tratar das tapeçarias que são, sem qualquer dúvida um tesouro nacional.