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(A) :: Tudo por Rosalía. Fãs viajaram, esperaram por mais de vinte horas e enfrentaram as quatro estações do ano à porta da Meo Arena

Tudo por Rosalía. Fãs viajaram, esperaram por mais de vinte horas e enfrentaram as quatro estações do ano à porta da Meo Arena

Viajaram de carro, autocarro e avião, mas chegaram a Lisboa com os outfits, inspirados no álbum Lux, intactos. Fãs enfrentaram frio, chuva e sol à espera do primeiro dia de concerto da artista catalã.

Larissa Faria
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Inês Lacerda
photography

Debaixo de água, enquanto os fãs procuram abrigo sob uma zona coberta da Feira Internacional de Lisboa, uma cadeira permanece solitária, a marcar o início de uma das filas dos vários setores. Mal pára de chover, aparecem os donos do objeto: os gémeos Fernando e Victor Gutiérrez, de 15 anos. Os irmãos viajaram de Cádiz, em Espanha, acompanhados pela mãe e um amigo da escola em que estudam. A cadeira, contam, acompanha-os em diversos concertos a que vão, sempre apoiados pela mãe, que será também a responsável por sair do hotel onde estão hospedados para recolher esta peça antes da entrada na Meo Arena — este é um entre os vários items proibidos pela organização. Câmaras também estão proibidas e nem mesmo os fotojornalistas estão autorizados a registar a passagem por Lisboa de Rosalía, por quem alguns fãs esperam quase 20 horas, para o primeiro de dois concertos da Lux Tour que a cantora catalã dá na Meo Arena esta quarta e quinta-feira. Cá fora, uma multidão de rendas, folhos, pérolas e véus, quase como numa “gala religiosa”.

Às 20h de terça-feira, mais de 24 horas antes do início do concerto, Miguel Rodrigues, de 28 anos, já estava a embarcar sozinho num autocarro em Guimarães rumo a Lisboa. Quando chegou ao Parque das Nações, por volta da meia-noite, caminhou pelos arredores da Meo Arena e não viu ninguém que parecesse ser também um fã que passaria ali a madrugada à espera do evento. Duas horas depois, chegaria a segunda pessoa da fila. Ambos passaram a noite, sem dormir, debaixo da cobertura da sala de espetáculos. O termómetro marcava 10 graus, mas a sensação térmica era de 5. “Quando gosto [de algum artista], gosto muito“, responde rápido, quando o Observador lhe pergunta por que decidiu fazer tal esforço. E Rosalía é hoje, para Miguel, a sua artista favorita, admiração que está marcada até na pele, em forma de tatuagem, e também num cartaz que ele preparou com a esperança de que ela veja, de cima do palco.

E foi dele, o primeiro da fila, que partiu a ideia de marcar com caneta as mãos de cada pessoa que chegasse para assinalar a ordem de chegada. E assim foi formada a “procissão” do “culto” da “motomami”, que no seu álbum mais recente, que dá nome à digressão, apresenta uma era com inspiração religiosa nos seus visuais, repleta de outfits brancos, véus e crucifixos. Estratégia que não é inédita — também já adotada por Madonna e Lady Gaga — mas que segue em alta, especialmente sendo Portugal e Espanha (o país de origem da cantora) duas nações fervorosamente católicas.

Os fãs podem não ter herdado da família o culto, mas vestiram-se de acordo com a “missa” proposta pela cantora. As cruzes estão presentes na camisa de Logan Lobo, de 18 anos, graças às avós, tias e à mãe.  Viajou de Luxemburgo, onde vive, especialmente para a ocasião, e pediu às matriarcas que fizessem os bordados. “Vi muitos vídeos no Pinterest, mas queria algo diferente, não só uma camisola comum”, disse. E não foi o único a planear, com bastante antecedência, a viagem e também o que iria vestir. Vindo de Viana do Castelo, Luís Novo, de 26 anos, teve de pedir duas semanas de férias no trabalho. E foi três vezes a uma costureira para que ela ajustasse as calças brancas que integra o look, rematado com uma camisola também branca, sapatilhas e carteira prateada. A chuva, que começa a cair por volta das três da tarde, não o intimida. “Tenho muitas expectativas e lágrimas [para hoje]”, confessa.

Há quem pense em estratégias para tentar a sorte de não “burlar” as regras. As amigas Margarida Santana, de 22 anos, e Margarida Martins, de 24, fizeram uma montagem de Rosalía como uma santa e imprimiram num papel fácil de dobrar. Esperam, é claro, poder assim entrar na Meo Arena com o cartaz que carregaram da Margem Sul até Lisboa, e que chama mesmo a atenção de quem passa. E há quem ensaie desafios ainda maiores. Julia de Gabriel, de 23 anos, viajou de Sevilha, em Espanha, com um quadro que pintou para homenagear a cantora — não conseguiu bilhetes para o concerto da sua conterrânea no seu país, então teve que vir a Portugal. “Havia cidades com 80 mil pessoas na fila para comprar bilhetes, foi mesmo impossível”, diz. Às 8h30 da manhã, era a primeira pessoa de uma das filas em Lisboa. Ao fim da tarde, soube que teria de desmontar a estrutura de madeira da tela para que pudesse entrar com ela, como um poster, para cumprir a sua tentativa de que a pintura chegue às mãos de Rosalía.

Apesar do frio intenso pela noite, o sol durante o dia e a chuva pela tarde, os fãs que estavam há várias horas na fila não pareciam desanimados. Juntos, intercalavam quem guardaria os seus lugares para que pudessem ir à casa de banho e almoçar. Nas proximidades da Meo Arena, o Centro Comercial Vasco da Gama acabou por ser este “refúgio”, e aproveitou o grande movimento do público para oferecer experiências a quem ali passava, tivesse ou não bilhete para o concerto. À tarde, ainda estavam disponíveis lenços oferecidos pelo espaço com estampas relacionadas com a cantora, que deve receber também um “manto” branco com mensagens e desenhos escritos ali.

E engana-se quem pensa que as canções chamam a atenção apenas de adolescentes e jovens na casa dos 20 anos. Na fila no centro comercial, um outfit extravagante, todo branco, cheio de plumas, pérolas e brilhos, não passa despercebido. Foi com a filha de 23 anos que Catarina Fonseca, de 49, aprendeu a gostar de Rosalía. E tornou-se ainda mais fã que a jovem, ao ponto de ter viajado sozinha de Aveiro para Lisboa especialmente para o concerto. “Conheço todas as músicas e gosto de todas”, garante.

E assim Rosalía comprova que não se restringe a um público de uma determinada faixa etária. Não que precisasse, já que o seu já sólido trabalho demonstra que ela não é, nem nunca foi, guiada apenas por tendências da música pop. A autenticidade daquilo que produz é o que atrai seguidores de vários cantos do mundo atrás de si. E é esta característica que leva muitos entusiastas a enfrentar “muito, muito frio” para a ver. “Identifiquei-me com a sua música, a sua arte e versatilidade. Num dia, estava a cantar flamenco, agora, está a cantar ópera”, diz Glenn Santa, de 28 anos, venezuelano que vive em Lisboa há oito anos. O primeiro da fila do setor plateia chegou ao Oriente às seis da manhã.

Débora Oliveira, de 30 anos, subscreve os elogios. A brasileira, que viveu em Espanha e agora mora no Reino Unido, assistirá esta noite ao primeiro concerto da sua vida, junto com a irmã. E encomendou, a uma costureira ucraniana, o corset que está a vestir. “[A Rosalía] faz música para todos os gostos, línguas e estilos. Temos muito orgulho dela em Espanha, em especial do seu novo álbum, que é tão internacional [com canções cantadas em vários idiomas] como a história de muitas pessoas que estão cá hoje”.