Fala‑se muito do “colapso silencioso” do SNS e na formação académica e profissional dos médicos. Menos se discute a erosão invisível do projeto profissional dos enfermeiros, que hoje empurra muitos não só para a emigração, mas para fora da própria profissão. Não é um problema da geração Z. É um problema de organizações que perderam a capacidade de oferecer um desenvolvimento profissional coerente, previsível e humanizado.
Durante décadas, o enfermeiro acreditou que tinha um caminho: entrada no SNS, progressão por mérito, diferenciação em áreas como reabilitação, cuidados paliativos ou saúde comunitária, participação em decisões clínicas. Hoje, o que muitos encontram são contratos precários, avaliações burocráticas e enfermeiros em funções de gestão e gestores sem margem real de gestão. O “projeto enfermeiro” tornou‑se um vazio formal, desligado da prática e da vida concreta das pessoas.
Não é só emigração: é fuga para todos os lados
As notícias sobre recém‑licenciados que querem emigrar são apenas uma das faces visíveis do problema. A emigração de enfermeiros recém-licenciados, de enfermeiros peritos e de enfermeiros especialistas, faz‑se, por exemplo, para Madrid, Barcelona, Londres, Manchester, Berlim, Frankfurt, Bruxelas, Paris, Abu Dhabi, Riade ou para o Dubai, mas também do setor público para o setor privado, para o setor social, para o setor do imobiliário ou para o marketing em rede. O êxodo é horizontal e vertical. E tem um denominador comum: desmotivação, desorganização do setor público da saúde e falta de perspetiva de futuro e desenvolvimento profissional.
Durante anos, a resposta implícita foi o multiemprego. O enfermeiro saía de um serviço de urgência geral para um estrutura residencial para idosos (ERPI), da enfermaria para um serviço de saúde ocupacional numa empresa privado, de uma unidade de saúde familiar para uma instituição de ensino superior privada, acumulando horas até à exaustão. Hoje essa “solução” rebentou. Não há corpo nem mente que aguente. Os indicadores de burnout, depressão e consumo de psicofármacos entre profissionais de saúde estão a crescer, e não é por falta de resiliência. É por excesso de abuso, da saúde física e mental.
Avaliar para controlar, em vez de desenvolver
Quase todas as organizações de saúde têm um sistema de avaliação de desempenho. O problema é o que fazem com ele. Em vez de instrumento de desenvolvimento pessoal e profissional, a avaliação é muitas vezes um ritual anual: grelhas, quotas, assinaturas, e pouco mais. Não há discussão séria de objetivos, não há plano de desenvolvimento profissional de forma séria, não há compromisso mútuo e de futuro.
Um enfermeiro especialista em reabilitação, em enfermagem de saúde mental e psiquiátrica ou em enfermagem médico cirúrgica, pode passar anos a exercer sobretudo funções indiferenciadas, porque “faz falta de enfermeiros de cuidados gerais nas escalas”. O investimento pessoal na sua formação profissional não é capitalizado. A mensagem é clara: tanto faz ser enfermeiro de cuidados gerais ou enfermeiro especialista, a organização não sabe o que fazer com essa diferença. Quando a organização não leva a sério as competências profissionais do enfermeiro, que diz “valorizar”, porque é que o enfermeiro ou outro profissional de saúde haveria de ficar?
RNCCI, ERPI e a ilusão da hospitalização domiciliária
A grande aposta política tem sido “tirar pressão aos hospitais” com hospitalização domiciliária, cuidados continuados integrados, cuidados paliativos e reforço das respostas sociais. Em teoria, parece sensato. Na prática, corremos o risco de replicar, no domicílio e nas ERPI, a mesma lógica produtivista do sistema hospitalar, mas com menos meios e equipas mais frágeis.
Sem enfermeiros com situação estável de vida pessoal, motivados e com tempo para avaliar, planear, prestar cuidados e promover a literacia em saúde, a hospitalização domiciliária é pouco mais do que transporte de atos técnicos para casa da pessoa na comunidade. A RNCCI fecha camas por falta de recursos humanos. As ERPI lutam diariamente com rotatividade e ausência de reconhecimento. Tudo isto num país que envelhece rapidamente e onde a dependência funcional cresce. Não há estratégia de envelhecimento digno sem um projeto profissional sólido para os enfermeiros em Portugal.
Mais ACT, menos vida
Entretanto, o debate sobre novos acordos de trabalho e alterações ao Código do Trabalho ameaça agravar o problema. Fala‑se em flexibilidade, adaptabilidade, otimização de horários. Pouco se fala de previsibilidade, descanso, saúde mental, possibilidade de conciliação da vida profissional, familiar e pessoal. O risco é claro: legislar para apertar ainda mais a corda num SNS e num sistema de saúde que já vive à custa da disponibilidade ilimitada dos profissionais de saúde.
Quando olhamos para a fatura da prestação de serviços externos, percebemos que o Estado paga mais caro por menos compromisso. Compra horas, perde pessoas. Compra produção, perde inovação e qualidade. E sem projeto não há SNS que resista, por mais linhas que se escrevam nos programas de governo.
Não é reter nem atrair: é devolver sentido
Continuamos a falar de “reter” e “atrair” enfermeiros como se estivéssemos a gerir uma campanha de marketing. O verbo decisivo é outro: cuidar. Cuidar das condições concretas de trabalho. É necessário cuidar da saúde física e mental de quem está na linha da frente, a prestar cuidados de saúde a pessoas com situações muitas vezes complexas e de elevada gravidade, que colocam em causa a vida e o bem-estar. Cuidar das trajetórias profissionais, da entrada à aposentação, da integração à sucessão.
Isso passa por coisas muito pouco românticas: contratos estáveis, desenvolvimento profissional claro, avaliação de desempenho exigente, mas transparente, tempo protegido para formação profissional e supervisão clínica e de pares, liderança que escuta e responde. Passa por dizer a um enfermeiro especialista em reabilitação que o seu lugar não é apenas tapar buracos na escala de qualquer serviço, mas a liderar processos de capacitação, transição e autonomia das pessoas.
Se queremos evitar que o “colapso silencioso” se torne rutura ruidosa, temos de devolver aos enfermeiros aquilo que o sistema lhes foi tirando: tempo, voz e futuro. Empoderar profissionais não é pedir‑lhes heroísmo infinito, nem salvas de palmas. É criar condições para que possam fazer bem o seu trabalho — sem terem de sacrificar a própria vida em nome de um SNS que, tantas vezes, parece ter desistido deles.