Havia uma vez um secretário-geral das Nações Unidas que não conseguia controlar o cozinheiro. Não é uma metáfora. É o primeiro facto concreto que o Financial Times registou sobre António Guterres no exercício das suas funções: o salão de jantar privado da ONU serviu um almoço que a jornalista descreveu como uma salada sem sabor, peixe branco insípido e uma tarte pesada. Guterres, com o ar resignado de quem já aceitou que o mundo é assim, limitou-se a pedir desculpa. “Lousy“, disse. “Really lousy“. E não fez mais nada.
A liderança revela-se nos detalhes porque os detalhes são o território onde os princípios se encontram com a realidade. Um chefe que não consegue garantir que os seus convidados comem com dignidade tem duas opções: resolver o problema ou assumir a responsabilidade. Guterres escolheu uma terceira via, aquela que ao longo de décadas se tornou a sua marca registada: reconhecer o problema, lamentá-lo, e não fazer absolutamente nada quanto a ele. Isto seria irrelevante se fosse apenas sobre peixe. Não é.
António Guterres foi primeiro-ministro de Portugal entre 1995 e 2002. Saiu antes do fim do mandato com o argumento nobre de “evitar o caos político”. O que deixou para trás foi um país a entrar numa recessão que duraria anos e uma dívida pública em rota de colisão, problemas que não desapareceram quando ele saiu pela porta, apenas deixaram de ser problema seu. Em Junho de 2019, com o mesmo espírito, posou para a capa da Time Magazine de fato e gravata, de pé nas águas rasas ao largo de Tuvalu, para uma capa intitulada “O Nosso Planeta a Afundar”. A pose era calculada. Os factos, esses não colaboraram: Paul Kench, Murray Ford e Susan Owen haviam documentado na Nature Communications que a área total de Tuvalu cresceu quase três por cento entre 1971 e 2014, com oito dos nove atóis a aumentar de dimensão nas últimas quatro décadas. As ameaças reais que o arquipélago enfrenta, a salinização dos aquíferos e a frequência crescente das inundações, mereciam atenção séria. Guterres ofereceu-lhes uma fotografia de fato molhado. Nunca houve imagem mais perfeita de um homem e de uma instituição.
A 25 de Março de 2026, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou, com 123 votos a favor, 3 contra e 52 abstenções, uma resolução que declara o comércio transatlântico de escravos “o crime mais grave contra a humanidade”. Guterres aplaudiu e instou à confrontação com os seus legados duradouros. Os Estados Unidos, Israel e a Argentina votaram contra. O Reino Unido e todos os 27 membros da União Europeia abstiveram-se. A China e a Rússia votaram favoravelmente, alinhadas com os países do Sul Global, dois regimes que não se distinguem pelo respeito pelos direitos humanos mas que dominam a arte de usar o multilateralismo como instrumento de pressão sobre o Ocidente. Fica registado, e que fique.
A resolução não é apenas historicamente imprecisa. É intelectualmente desonesta. Classificar o tráfico transatlântico como “o crime mais grave contra a humanidade” exige ignorar o Gulag soviético e a Grande Fome maoísta, que estimativas conservadoras colocam em dezenas de milhões de mortes deliberadas, bem como o Holocausto. Exige também ignorar que o tráfico transatlântico dependeu da colaboração activa de elites africanas, incluindo reis e senhores da guerra que forneceram escravos em troca de bens europeus. E exige ignorar que não foi o único tráfico de escravos de grande escala na história: o comércio islâmico de escravos operou durante mais séculos e por uma área geográfica mais vasta, e é sistematicamente ausente do debate sobre reparações. O que revela que esse debate não é sobre história. É sobre política.
Nada disto aparece na resolução porque a resolução não foi concebida para compreender a história. Foi concebida para extrair transferências financeiras do Ocidente sob a forma de reparações, pedidos de desculpa formais e restituição de bens culturais. A tese económica subjacente, que a escravidão transatlântica enriqueceu o Ocidente de forma determinante, é contestada por décadas de investigação sobre as origens da Revolução Industrial britânica. Joel Mokyr e Robert Allen documentaram que essa revolução assentou na inovação tecnológica, no acesso ao carvão e nas instituições de direito de propriedade. O Brasil importou cerca de dez vezes mais escravos do que os Estados Unidos e permanece uma economia emergente com desigualdades estruturais profundas. Se a escravidão gerasse automaticamente riqueza, a trajectória seria outra.
Dirão alguns que as duas explicações coexistem: que o colonialismo e o tráfico de escravos criaram condições de partida desiguais, e que a má governação africana as agravou depois. É um argumento que merece ser levado a sério, e não é inteiramente errado. O problema não é reconhecer o peso do passado. É usá-lo como substituto da análise do presente. Quando a ONU aprova uma resolução sobre reparações sem uma palavra sobre os regimes que hoje exploram os seus próprios povos, não está a honrar a história. A distinção importa: uma coisa é reconhecer que o passado moldou o presente, outra é transformar esse reconhecimento numa absolvição permanente para quem desgoverna impunemente.
O que a ONU fez foi substituir a análise das causas reais do subdesenvolvimento africano, má governação, corrupção sistémica, conflito armado persistente e captura de rendas por elites locais, por uma narrativa de culpa ocidental que é politicamente útil e factualmente pobre. É mais fácil pedir reparações a Londres e a Lisboa do que reformar Kinshasa ou Abuja. Entretanto, a escravidão existe hoje, na Mauritânia, na Líbia, no Sudão do Sul, na Coreia do Norte, no trabalho forçado das cadeias de fornecimento globais. A Assembleia Geral não aprovou nenhuma resolução sobre isso. Aprovará, com toda a desfaçatez, no próximo ano outra resolução sobre os séculos passados, acompanhada de novo aplauso e novo discurso sobre memória e reparação.
O desenlace desta história já começou a escrever-se. Em Janeiro de 2026, Trump assinou uma ordem presidencial determinando a retirada dos Estados Unidos de 66 organizações internacionais, incluindo 31 entidades das Nações Unidas. Os EUA devem à ONU 2,2 mil milhões de dólares em quotizações não pagas, sem sinal de pagamento. A resposta de Guterres foi invocar a obrigação legal dos membros pagarem as suas quotas. Uma frase tão juridicamente exacta quanto politicamente irrelevante, pronunciada por um homem sem instrumentos para a fazer cumprir.
O multilateralismo que Guterres representa está a ser desmontado pela maior potência do mundo, e a resposta da ONU é lamentar, invocar o direito, e continuar a realizar votações simbólicas que ofendem precisamente os países que pagam as contas. A instituição entra em crise financeira severa ao mesmo tempo que desperdiça o que resta da sua autoridade moral em activismo político travestido de história. É uma estratégia que tem a virtude da coerência: é exactamente o que Guterres fez com o cozinheiro em 2017.
Os portugueses que se orgulham de ver um compatriota à frente das Nações Unidas deveriam perguntar-se: orgulho de quê, exactamente? De uma instituição que não consegue parar uma guerra na Ucrânia, uma guerra em Gaza, uma guerra no Sudão, cujo secretário-geral encontrou tempo, a 11 de Fevereiro de 2026, para enviar calorosas felicitações ao presidente iraniano pelo 47.º aniversário da Revolução Islâmica, gesto que a ONU classificou como protocolar, o que é precisamente o problema, e que usa os seus recursos políticos para debater o que aconteceu há quatrocentos anos? De um secretário-geral que sobreviveu ao mandato sem reformar nada de substancial, sem confrontar ninguém com poder real, e cuja contribuição mais memorável para o debate global foi uma fotografia de fato molhado numa ilha que, ao contrário do prometido, continuou a crescer?
Na entrevista ao Financial Times, Guterres citou Jean Monnet: “Não sou optimista, não sou pessimista, sou apenas determinado.” É uma frase bela para quem tem poder. Para quem apenas assiste, é a definição mais elegante que conheço de irrelevância persistente. O cozinheiro continua no lugar. O peixe continua insípido. A ONU afunda. Tuvalu, essa, continua a crescer.
Há, porém, um motivo genuíno para gratidão nacional: Marcelo Selfie de Sousa terminou o mandato em 2026. Guterres podia ter regressado. Não regressou. É, reconheça-se, o seu maior serviço a Portugal.
Pudera.