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(A) :: A carreira profissional feita numa escada rolante

A carreira profissional feita numa escada rolante

Há muitas pessoas na “escada rolante” que se limitam a cumprir os mínimos, e a carreira faz-se, não propriamente pelo mérito, mas apenas pela espera

Pedro Afonso
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Há alguns anos, numa conversa com uma colega, após tê-la felicitado por ter conseguido conquistar uma vaga num hospital do SNS, perguntei-lhe que projetos é que pretendia pôr em prática no futuro próximo. A resposta foi surpreendente: “Não tenho projetos. Agora estou na escada rolante. Não preciso de fazer nada de especial. Basta-me esperar e a carreira faz-se por si própria”. Fiquei surpreendido com a resposta, mas com o passar dos anos compreendi o alcance da profecia: há muitas pessoas na “escada rolante” que se limitam a cumprir os mínimos, e a carreira faz-se, não propriamente pelo mérito, mas apenas pela espera.

É através do trabalho, do esforço e da inovação, que o homem deve contribuir para a elevação científica, tecnológica e cultural da sociedade. Mas este comportamento comporta riscos e obriga a um forte empenho individual que nem todos querem ter. A progressão automática nas organizações não é positiva, já que a antiguidade passa a valer mais do que o mérito. Pode pensar-se que este fenómeno é exclusivo do funcionalismo público, onde faltam muitas vezes os mecanismos de avaliação autênticos, justos e fiáveis, que estimulem a meritocracia. Mas tal não é verdade. Também o setor privado tem os seus problemas: verifica-se a ascensão profissional de um grupo de pessoas que vão ganhando poder — por vezes recorrendo a manobras de troca de favores —, apesar de serem os menos preparados, e avessos ao risco da inovação.

Os partidos políticos também não escapam, já que têm um autêntico séquito de aduladores na “escada rolante”. Não lhes são conhecidas ideias, causas, conhecimentos ou qualidades individuais de destaque na sua atividade política. Mas eles estão lá. Sossegados, à espera da sua vez para subirem na carreira. Um lugar numa empresa pública, num gabinete do governo, numa administração hospitalar; enfim, um sítio onde se possam instalar discretamente.

Chegados aqui,  chamo a atenção para um ponto que me parece essencial. O nosso país tem uma escada rolante demasiado comprida. Isto retira-nos competitividade, desincentiva a criatividade e a inovação, e contribui para o nosso atraso económico. Se olharmos para a nossa história, os períodos de maior afirmação de Portugal decorreram em épocas em que se destacaram homens corajosos, que arriscaram e se puseram a caminho, descobrindo novos mundos e horizontes. Estas virtudes humanas são cada vez mais raras. Não se escolhe o risco, escolhe-se a estagnação. A atual geração parece estar cada vez mais anestesiada pelo conforto da mediania, pelos direitos adquiridos, e por um status quo que não é compatível com um mundo competitivo e em permanente mudança.

A erosão da competência não é apenas institucional, mas também é cultural. As redes sociais democratizaram a expressão da opinião, mas também banalizaram a ilusão do conhecimento autêntico, assente no estudo e na reflexão. Nos tempos que correm, assistimos a um enorme paradoxo. Numa altura em que existe um acesso facilitado ao conhecimento, nunca houve tanta manifestação de ignorância. Por exemplo, uma grande parte das pessoas não lê as notícias, limitam-se a ler os títulos e a partir deles formulam de imediato uma opinião.  Como explicou Tom Nichols no seu livro “A Morte da Competência”,  citando o chamado efeito Dunning-Kruger, segundo o qual é pouco provável que pessoas desinformadas ou incompetentes sejam capazes de identificar a sua falta de conhecimento e a sua própria incompetência. Subsistem assim dois fenómenos que se potenciam reciprocamente. A falta de meritocracia, alimentada por um calculismo carreirista, e um desprezo aparente pelo conhecimento e pela excelência. A conjugação destes dois fatores conduz inevitavelmente à “morte da competência”.

Concluo com outro episódio que testemunhei. Numa reunião de serviço, um diretor admoestou severamente um jovem médico por publicar demasiado e ter muitas iniciativas científicas e de formação. Este, surpreso e algo acabrunhado, perguntou qual a razão dessa advertência, pois considerava que eram iniciativas boas para o serviço. O diretor respondeu com severidade: “Porque este comportamento é uma falta de respeito para com os seus colegas mais velhos”. Percebeu-se, com esta resposta, que ele se estava a referir àqueles que se encontravam na escada rolante. O trágico não está em que os medíocres não reconheçam o mérito; está em que se sintam ofendidos por ele.