O mercado petrolífero não irá normalizar-se nos próximos meses, mesmo que o cessar-fogo de duas semanas se mantenha e que exista um acordo que prolongue as tréguas por mais tempo. Os especialistas neste setor salientam que as perturbações logísticas não vão resolver-se “da noite para o dia” e os custos associados ao transporte não vão voltar ao que eram: os preços dos seguros podem subir de forma estrutural e se for introduzida uma “portagem” cobrada na passagem dos navios pelo Estreito de Ormuz isso pode fazer com que “o pior ainda venha aí” nos preços dos combustíveis.
O alerta é da HFI Research, uma consultora cujo rosto é Jon Costello, um dos mais influentes analistas do mercado energético mundial. “Se o Irão implementar um sistema de portagens, receio que possamos não ter ainda visto o pior [da turbulência] neste mercado“, admite o especialista, notando que “os sauditas nunca aceitarão pagar essa portagem” e “tanto eles como os Emirados Árabes Unidos prefeririam passar a exportar crude só através dos oleodutos Leste-Oeste (que atravessa a Arábia Saudita ligando os campos de petróleo no Golfo Pérsico Leste ao porto de Yanbu no Mar Vermelho Oeste) ou do Abu Dhabi”.
Mas Donald Trump reiterou nesta quarta-feira, em entrevista à ABC News, que tal portagem poderá, mesmo, ser uma realidade. “Estamos a pensar fazer isso como uma joint venture [parceria]”, afirmou o Presidente dos EUA, sem esclarecer se os países do Golfo aceitariam essa “portagem” caso os EUA estivessem envolvidos na sua cobrança.
“Será uma coisa linda“, rematou Trump, usando o mesmo tipo de adjetivos que sempre usou para falar nas taxas alfandegárias (tarifas). Segundo o Financial Times, a portagem poderá ser de um dólar por cada barril de petróleo e terá de ser paga através de criptomoedas. Tendo em conta que os maiores petroleiros costumam transportar cerca de dois milhões de barris por cada carga, isso significa que cada navio pagaria cerca de dois milhões de dólares por passagem.
Nas contas do think tank Bruegel, o impacto para os preços do petróleo não seria muito significativo – apenas entre 5 e 40 cêntimos de dólar por cada barril, em comparação com os valores praticados antes do conflito. Os grandes penalizados seriam os exportadores do Golfo Pérsico, inimigos do regime iraniano, que teriam de absorver entre 80% e 95% do custo adicional, o que poderia levar a um custo entre seis mil milhões e 14 mil milhões de dólares por ano.
Numa consideração estritamente financeira, mesmo assim os países do Golfo beneficiam do acordo porque, ainda que seja aplicada uma portagem, os custos de extração da matéria-prima nesses países “são extremamente baixos, em alguns poços chegam a ser de 10 dólares por barril”. “Em termos puramente racionais”, diz o Bruegel, uma pequena portagem “seria, ainda assim, uma opção melhor do que não conseguir exportar, de todo”, por via marítima.
Porém, salienta a HFI Research, para países como a Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos, um pagamento de portagem ao Irão “significaria uma crise existencial” porque “se o Irão puder aplicar uma portagem, isso significa, na prática, que irá ter um controlo sobre todas as exportações que passam pelo Golfo, o que não é aceitável para eles“.
Oleoduto Leste-Oeste atingido num ataque iraniano
O oleoduto Leste-Oeste, da Arábia Saudita, atualmente a sua única saída para as exportações de petróleo bruto do país, foi atingido num ataque iraniano, usando drones, disse uma fonte da indústria à Reuters nesta quarta-feira.
Este oleoduto tem vindo a desviar cerca de sete milhões de barris por dia do coração petrolífero do reino, a leste, para o porto de Yanbu, no Mar Vermelho. Admitiu-se que os caudais através do oleoduto fossem afetados mas os estragos não terão sido muito significativos e a infraestrutura não foi encerrada.
Caso seja introduzida, essa portagem será uma violação do Direito Internacional e, em particular, do tratado das Nações Unidas a respeito da Lei do Mar (do qual nem os EUA nem o Irão são signatários, mas têm vindo a seguir informalmente). Porém, embora seja algo que “iria completamente contra, o Direito Internacional não tem sido uma limitação muito efetiva a muitas coisas que têm acontecido nos últimos tempos”, afirma António Alvarenga, economista e professor da Nova SBE que leciona na área da estratégia.
O especialista alerta, até, que caso a portagem seja aplicada “isso poderá ser replicado” noutros pontos do globo em que existem passagens comparáveis à do Estreito de Ormuz que são importantes para os fluxos comerciais globais, como o Estreito de Malaca (Indonésia, Malásia e Singapura), o Estreito de Bab el-Mandeb (Iémen e Djibuti) e o Estreito da Turquia/Bósforo (Turquia), por onde passa o trigo da Ucrânia e da Rússia, além de petróleo russo e do Cáspio.
“Perturbações logísticas não irão desaparecer da noite para o dia”
Depois de os EUA e o Irão terem confirmado um cessar-fogo de duas semanas, condicional à “passagem segura” dos navios pelo Estreito de Ormuz, o vice-presidente dos EUA, JD Vance, frisou que estas tréguas – que descreveu como “frágeis” – implicam a reabertura do estreito. Por seu lado, o Irão afirmou que vai garantir a passagem segura dos navios “em coordenação com as suas forças armadas e tendo em conta as limitações técnicas”.
A meio da tarde desta quarta-feira, foi noticiado que o Estreito de Ormuz voltou a ser bloqueado pelo Irão, com o argumento de que Israel tem de parar os ataques ao Líbano (contra o Hezbollah) porque isso está previsto nos termos do cessar-fogo (algo que Telavive e Washington não veem da mesma maneira).
No entanto, durante a manhã, nas primeiras horas após a reabertura, houve sinais de que a circulação estava a ser retomada, embora muito vagarosamente. De acordo com o portal MarineTraffic, que monitoriza o fluxo de navios, houve um navio de bandeira grega que atravessou o estreito pelas 9h44 (hora de Lisboa). Algumas horas antes, pelas 7h59, outro navio, com bandeira da Libéria, também tinha cruzado o local sem problemas.
https://twitter.com/MarineTraffic/status/2041808362703093830
Segundo a mesma fonte, os dados disponíveis comprovam que permanecem “centenas de navios” na região, incluindo 426 que transportam petróleo e 34 carregados de gás natural, muitos dos quais têm passado as últimas semanas presos no local devido às tensões com o Irão.
Existem, neste momento, cerca de 180 milhões de barris de petróleo “bloqueados” no porão de navios que flutuam no Golfo Pérsico, calcula a HFI Research. “Este cessar-fogo temporário desbloqueia esses barris”, salienta a consultora, considerando que a redução dos preços do petróleo no mercado de futuros, nesta quarta-feira, é “em parte” relacionada com a expectativa de que esses barris vão atravessar o estreito e ficar, assim, disponíveis para o mercado físico.
Porém, o escoamento que agora terá de ser feito será uma operação complexa e gradual. Ao início da tarde desta quarta-feira, a marinha iraniana anunciou que os proprietários de navios têm de obter uma autorização para passar no Estreito de Ormuz, caso contrário as embarcações serão alvejadas e destruídas – o que atesta que este processo será tudo menos simples.
Por outro lado, “mesmo que os petroleiros consigam sair pelo Estreito de Ormuz [com mais ou menos facilidade], é preciso também haver petroleiros vazios que entrem na região e carreguem mais crude”, salienta a HFI Research, notando que esses petroleiros vazios “terão, primeiro, de carregar o petróleo que foi acumulado em terra – só depois os produtores podem começar a aumentar a produção”.
Mesmo que todos os petroleiros saíssem amanhã, levariam entre 30 e 45 dias a chegar aos seus destinos e, aí, descarregar. A Índia, aqui, estaria numa posição melhor, dada a proximidade geográfica em relação ao Estreito, mas países como a China terão de esperar até 45 dias”, calcula a HFI Research.
O problema é que, não sendo nesta altura garantido que o cessar-fogo irá manter-se após as duas semanas do acordo (ou até mesmo que o cessar-fogo temporário se mantenha sem interrupções relevantes), esse tempo pode não chegar para que este processo se faça. Num país como o Iraque, por exemplo, “duas semanas está muito longe de ser suficiente para retomar a produção”, escreve a consultora de Jon Costello.
“Dado que o Iraque vende numa base free on board (FOB), em que o comprador assume todos os riscos de transporte, seguro e frete assim que o crude é carregado no navio-tanque, não creio que alguém vá querer correr o risco de ficar retido no Estreito novamente”, acrescenta a consultora, advogando que, “na prática, este cessar-fogo não altera a matemática do bloqueio da produção” de petróleo, de forma significativa.
Para Jon Costello, “o engarrafamento logístico vai impedir que a produção bloqueada regresse. O Golfo Pérsico vai precisar de muitos petroleiros para, primeiro, drenar o crude que está armazenado em terra e só quando houver um fluxo regular de navios é que a produção pode ser retomada”. “Não se pode, simplesmente, iniciar a produção uma semana depois – não é, de todo, assim que estas coisas funcionam (fisicamente)“, remata o especialista.
Cessar-fogo faz mercados preverem menos de duas subidas da taxa de juro na zona euro
O cessar-fogo anunciado pelos EUA e o Irão fez os mercados de taxas de juro passarem a prever que o Banco Central Europeu (BCE) irá subir as taxas de juro apenas uma vez ao longo de 2026, no máximo duas vezes – o que significa que as expectativas variam entre um cenário em que, no final de 2026, a taxa estará entre os 2,25% e os 2,50%.
No pico das tensões no Médio Oriente, a perspetiva de um conflito prolongado no tempo levou os analistas a admitirem o risco de um novo surto inflacionista que pudesse levar o BCE a ter de subir as taxas de juro pelo menos três vezes este ano.
“O cessar-fogo dá aos bancos centrais globais tempo para avaliar as implicações para o crescimento e a inflação deste último choque na oferta, reduzindo o risco de subidas das taxas de juro já este mês”, afirma Christian Schulz, economista-chefe da Allianz Global Investors.
Ainda é “prematuro” tentar calcular descida dos combustíveis
O mesmo tipo de cálculos é feito por Ray Sharma-Ong, um dos principais responsáveis pela estratégia de investimento do Aberdeen Investments, que antecipa que os preços do petróleo irão “afastar-se dos níveis mais stressados atuais desde que o cessar-fogo não seja interrompido e os fluxos sejam autorizados no Estreito de Ormuz”. Porém, acautela, “não acreditamos que o preço do petróleo vá regressar aos níveis pré-conflito, porque “as perturbações logísticas e físicas não irão desaparecer da noite para o dia“.
“Além disso, os custos de transporte mais elevados, [o aumento dos preços dos] seguros para risco de guerra, os atrasos e congestionamentos, as ineficiências ao nível do redirecionamento das rotas, a acumulação de stocks por precaução e, de um modo geral, um aumento do prémio de risco geopolítico” irão, de acordo com Ray Sharma-Ong, da Aberdeen, “manter os preços do petróleo acima dos níveis anteriores por algum tempo”.

Nesta quarta-feira, os preços do petróleo corrigiram de forma acentuada, em reação ao cessar-fogo que o vice-presidente dos EUA descreveu como “frágil”. O valor do barril de Brent caiu 15% para menos de 95 dólares, um movimento que tenderá a ser amplificado nas refinarias (e nas bombas) europeias pelo facto de também o dólar, divisa em que a negociação do petróleo é feita, ter desvalorizado quase 1% face ao euro.
Porém, António Comprido, secretário-geral da associação EPCOL – Empresas Portuguesas de Combustíveis e Lubrificantes, afirmou à Rádio Observador que ainda é “prematuro” tentar antecipar qual poderá ser o impacto das cotações do petróleo (e do fator cambial) na evolução dos preços dos combustíveis.
O anúncio do cessar-fogo “teve efeito imediato” mas “há que ter em conta os aspetos psicológicos [associados às tensões geopolíticas, que se mantêm] e os aspetos físicos do trânsito do crude e dos produtos refinados”, salienta o responsável, lembrando que mesmo que se assuma um desimpedimento do Estreito de Ormuz, “o produto não chega imediatamente às refinarias mundiais”.
“A situação é um pouco mais complexa do que isso”, afirma António Comprido, acrescentando que “em Portugal a refinaria fornece os produtos a um preço que é baseado na média das cotações da semana anterior“, sendo que ainda só existem as cotações de quarta-feira e de terça-feira (dia em que ainda não tinha havido o cessar-fogo), já que “o mercado inglês esteve fechado na segunda-feira de Páscoa”.
https://observador.pt/programas/explicador/cessar-fogo-o-preco-dos-combustiveis-vai-descer/
O secretário-geral da EPCOL garante que é um “mito” que as gasolineiras sejam mais rápidas a subir os preços do que a descer. “Se as pessoas quiserem seriamente olhar para os números da ERSE e da DGEG, verifica-se que as subidas e descidas acompanham ao mesmo ritmo as cotações dos produtos”, afirma António Comprido, repetindo que a ideia contrária “é um mito, uma perceção” e é daqueles casos em que “uma mentira repetida muitas vezes acaba por se tornar não uma verdade mas um mito“.
Ainda assim, António Alvarenga, da Nova SBE, salienta que neste mercado não existe um mecanismo “completamente simétrico” entre subidas e descidas. “Nas bombas o mecanismo de subida tem a ver com o preço que se pagará na reposição de stocks, ao passo que o mecanismo de descida tem mais a ver com quanto é que a gasolineira pagou por aquilo que está a vender” – por isso é que tende a subir mais rápido do que desce, na leitura deste economista.

Mas a EPCOL afirma que “continua a existir um risco de escassez, principalmente nos combustíveis para aviação e o gasóleo”. “Portugal estará um bocadinho melhor do que a média europeia porque a produção da nossa refinaria praticamente consegue garantir as necessidades do nosso mercado, embora em situações de pico ainda tenhamos de importar cerca de 20%”, afirma António Comprido – porém, o risco de abastecimento não desapareceu porque “mesmo que o Estreito reabra os produtos só chegam ao destino dentro de algumas semanas”.
A abertura do Estreito é uma excelente notícia, a confirmar-se, mas não vai eliminar o problema de um momento para o outro. Isto é uma guerra que irá ter algumas consequências de média duração, alguns meses, e todo o ano de 2026 será um ano atípico neste mercado. Se a guerra acabar e não houver grande destruição da estrutura, os mercados irão acalmar mas os efeitos ainda estarão aí para se fazerem sentir”, avisa António Comprido.
No entanto, a vice-presidente da Associação Nacional de Revendedores de Combustíveis (ANAREC), Mafalda Trigo, antecipou que o preço dos combustíveis possa baixar na próxima semana. “Neste momento, [os combustíveis] já estão com uma previsão de baixa, mas ainda não temos valores. Se formos a ver os mercados internacionais, supõe-se que vai baixar“, disse ao jornal Eco a vice-presidente da associação que reúne os postos de abastecimento.
Também ouvido pela Rádio Observador, o ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, não quis fazer comentários sobre o impacto deste cessar-fogo nos preços dos combustíveis. Mas garantiu que, “com certeza, o Governo não deixará de, no tempo próprio, tratar de todas as questões” relacionadas com este tema.
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