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Mulher de soldado norte-americano libertada após ter sido detida pelo ICE

Ordem de deportação de 2005 afastou-a do marido, soldado norte-americano, pouco após o casamento. Algemada e detida pelo ICE, Annie Ramos, que chegou aos EUA com 22 meses, tornou-se num caso nacional.

Manuel Conceição Carvalho
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O casamento entre Matthew Blank e Annie Ramos em nada fazia antever que, passados poucos dias, a noiva estaria num centro de detenção do ICE. O sonho de formar família e passar o resto da vida juntos parecia ter sido destruído: Annie foi detida ao tentar obter documentação para ter direitos especiais por ser agora mulher de um soldado norte-americano. Tudo ficou resolvido esta terça-feira com a sua libertação depois de cinco dias à guarda dos serviços de imigração, num centro de detenção no Louisiana, a cerca de 300 quilómetros de Houston, onde cresceu, e mais tarde casou com Matthew.

“Mal posso esperar para levar a minha mulher para casa e começar a nossa vida juntos”, disse ao The New York Times Matthew Blank, militar dos Estados Unidos da América (EUA) que já foi destacado para missões no Médio Oriente e na Europa. “Estou pronto para servir o nosso país. E este também é o país dela”, afirmou.

https://observador.pt/2026/04/06/estados-unidos-ice-detem-mulher-de-22-anos-poucos-dias-apos-o-casamento-com-militar-e-impede-regularizacao-da-situacao/

O alívio e o entusiasmo de agora contrastam com a tristeza que assolou a família de Matthew, quando foi informada que Annie ia ser detida, dias depois do casamento, que se realizou no final de março. No dia 2 de abril, os recém-casados deslocaram-se à base militar de Fort Polk, no Louisiana, para que Annie obtivesse o seu cartão de identificação de cônjuge militar para ativar benefícios como o seguro de saúde e de vida. Foi durante este processo que lhe perguntaram sobre o seu estatuto migratório nos EUA e quando começou o pesadelo.

Vinda das Honduras, Annie chegou aos EUA sem documentação, quando tinha apenas 22 meses de vida. Em 2005, a família faltou a uma audiência de um tribunal de imigração e, por isso, no mesmo ano, foi emitida uma ordem de deportação à revelia dos hondurenhos. No entanto, a jovem de 22 anos permaneceu em território norte-americano até aos dias de hoje e até tentou em 2020 obter proteção legal, ao abrigo de um programa que protege da deportação jovens trazidos para os EUA como crianças, entretanto suspenso pela administração Trump para novas candidaturas, como a de Annie. O facto de agora se casar com um cidadão norte-americano tornou-a elegível para um visto de residência permanente. Era isso que o advogado do casal estava prestes a submeter, um formulário de obtenção do visto.

Foi tudo isto que Annie explicou na base militar. “Vamos resolver”, disse um funcionário que atendeu o casal, antes de começar a fazer muitas chamadas telefónicas. Apesar das palavras de confiança, Matthew sentiu que o atendimento estava “a ser arrastado”. A demora transformou-se em tensão e Annie, nervosa, começou a chorar. O mau pressentimento da mulher confirmou-se quando oficiais da polícia militar chegaram às instalações e algemaram Annie.

A mulher foi levada numa viatura da polícia militar para outro edifício dentro de Fort Polk. Matthew Blank e os seus pais, que também estavam presentes, seguiram a viatura no seu próprio carro. Nesse segundo edifício, Annie foi colocada numa sala que Matthew descreveu como “sala de interrogatórios”. Três agentes do ICE (sigla de Immigration and Customs Enforcement, o serviço de imigração dos EUA) chegaram ao local. Antes de entrarem na sala onde Annie estava, foram ter com os pais de Matthew, pediram desculpa pela situação, mas afirmaram que “não tinham escolha” e que estavam apenas a respeitar ordens superiores: iam levá-la.

Annie foi transportada para um centro de detenção do ICE em Basile, Louisiana, onde esteve cinco dias. Este local alberga centenas de mulheres que aguardam a deportação. Era isso que Matthew queria evitar e, por isso, tentou visitá-la para que Annie assinasse os documentos que lhe permitissem obter o visto, mas os guardas não o deixaram entrar com os papéis.

A família e os amigos do casal tentaram agir pelos próprios meios e na manhã de segunda-feira começaram a ligar constantemente para os escritórios do ICE, para que Annie não fosse deportada, mas sem grande sucesso. Até que se envolveu Mark Kelly, senador democrata do Arizona, estado natal da família do militar. Nessa tarde, Kelly conseguiu entrar em contacto com o secretário da Segurança Interna, Markwayne Mullin, e pressioná-lo para a libertação da mulher de Matthew. De acordo com o mesmo jornal, o secretário já estava a par do caso quando foi contactado.

“Tínhamos de acreditar que ia dar certo”, recorda a mãe de Matthew, quando soube que Mark Kelly tinha ligado a Mullin. O caso começou a ganhar notoriedade mediática e passou, inclusive, na televisão. Annie foi uma das espectadoras da peça sobre o seu próprio caso e foi, um dia depois, libertada.

As autoridades fundamentaram a detenção de Annie Ramos com base na ausência de um estatuto legal para a sua permanência nos Estados Unidos, invocando uma ordem final da ordem de deportação emitida em 2005. O Departamento de Segurança Interna reforçou que não podia ignorar o “Estado de Direito” perante uma ordem de expulsão judicial, justificando-a com o facto de Annie ter tentado entrar na base militar onde tentava obter os documentos de cônjuge de militar.

O pesadelo de uma separação não consentida, logo após o casamento, chegou ao fim. Apesar do “alívio” que Matthew Blank sente, agora que tem a sua mulher de volta, o militar garante que estes foram os piores dias da sua vida.

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