Ben Roberts-Smith, o soldado vivo mais condecorado da Austrália, foi detido na terça-feira no Aeroporto de Sydney. É acusado de cinco crimes de guerra relacionados com o alegado assassinato de civis desarmados durante missões no Afeganistão, no âmbito de uma investigação conjunta da Polícia Federal da Austrália (AFP, sigla em inglês) e do Gabinete do Investigador Especial, que averigua alegados crimes de guerra de militares australianos no Afeganistão, escreve a Reuters.
“Terá sido alegado que as vítimas não estavam a participar nas hostilidades no momento dos supostos homicídios no Afeganistão”, afirmou a comissária da Polícia Federal da Austrália, Krissy Barrett, numa conferência de imprensa divulgada no Instagram da força policial.
A comissária da Polícia Federal da Austrália disse ainda aos jornalistas que há indícios de que as vítimas estariam “detidas, desarmadas e sob o controlo de membros das Forças de Defesa Australianas (ADF, sigla em inglês)” no momento em que foram mortas. As autoridades acreditam que foram baleadas pelo acusado ou por subordinados “que agiram sob as suas ordens e na sua presença”, segundo Krissy Barrett.
Roberts-Smith, antigo membro do Regimento de Serviço Aéreo Especial (SAS) da Austrália, foi aclamado como um herói nacional após ter recebido várias das mais altas condecorações militares, incluindo a Cruz Vitória, pelas suas ações ao longo de seis missões no Afeganistão, entre 2006 e 2012. De acordo com a CNN, o soldado tem negado sempre alegações de irregularidades e crimes durante o tempo em que cumpriu serviço militar e que foram abordadas pela primeira vez por jornais da emissora australiana Nine Entertainment em 2018.
Entre as acusações, constava a de que o soldado terá morto a tiro um adolescente afegão desarmado e pontapeado um homem algemado num penhasco antes de ordenar que fosse morto a tiro.
O militar contestou, sem sucesso, as alegações publicadas pela Nine Entertainment, num processso que viria a ser considerado o julgamento mais caro por difamação da Austrália. Segundo a Reuters, um juiz do Tribunal Federal decidiu em 2023 que os jornais tinham provado quatro das seis acusações que fizeram. Dois anos depois, um último recurso foi rejeitado pelo Tribunal Superior do país.
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Ross Barnett, diretor de investigações do Gabinete do Investigador Especial, afirmou que o processo foi complexo e demorado, uma vez que não foi possível às autoridades deslocarem-se ao Afeganistão para inspecionar os alegados locais dos crimes. “Não temos acesso aos locais dos crimes, não temos fotografias, plantas do local, medições, recuperação de projéteis, análise de salpicos de sangue, todas as coisas que normalmente obteríamos numa cena de crime”, afirmou na mesma conferência de imprensa, citado pela Reuters.
Para além de Roberts-Smith, segundo a mesma agência de notícias, também outro militar das forças especiais australianas deverá ser julgado por crimes de guerra. “Se as provas levarem à necessidade de acusar outras pessoas, podem ter a certeza de que isso vai acontecer”, acrescentou o diretor de investigações do Gabinete do Investigador Especial.
Numa publicação nas redes sociais, a Aministia Internacional Austrália escreveu que a detenção de Roberts-Smith foi um “passo crucial para a justiça global e para os esforços de responsabilização”. A organização considera ainda que as autoridades do país devem “garantir que todas as alegações são totalmente investigadas e, quando apropriado, processadas”.
A pena máxima na Austrália para cada uma das acusações que recaem sobre Ben Roberts-Smith é prisão perpétua. O advogado de militar, no âmbito do julgamento por difamação em 2023, não respondeu ao pedido de comentário da Reuters.