Os Artistas Unidos estreiam na quinta-feira, no Salão Nobre da Assembleia da República, em Lisboa, a peça Nesta hora primeira – de novo, de Jacinto Lucas Pires, que testemunha a vida do país nos 50 anos da Constituição da República.
Mais do que um regresso a essa “hora primeira” da democracia, em que a Constituição foi elaborada e definida, a peça atravessa as últimas cinco décadas de vida do país. Combina vozes de cidadãos, de deputados, dá conta da mudança de discursos, de argumentação, de atitudes, num texto que procura levantar questões para o futuro e entender o que, passo a passo, ao longo dos anos, foi provocando um afastamento entre eleitores e eleitos, e “um fechamento [da política] às pessoas”, como o autor disse à agência Lusa.
Nesta hora primeira – de novo acontece no mesmo lugar, dez anos depois da estreia de Nesta hora primeira, de Jorge Silva Melo, fundador dos Artistas Unidos, que assinalou os 40 anos da Assembleia Constituinte revisitando “discursos, notícias soltas, falas da rua”, “acusações, convicções, hesitações”.
Uma década mais tarde, muito mudou. “Partimos dos Diários da Assembleia e chegámos a mais ‘hesitações’ e ‘convicções'”, dizem os Artistas Unidos para, no final, aterrarem “numa grande pergunta coletiva, virados para o futuro”.
Dezoito vozes sem nome dão corpo à peça, tantas quantas as que vão de A a R, as iniciais da Assembleia da República. São vozes de deputados, redatores, secretária e presidente da Assembleia Constituinte, quando da aprovação da Constituição da República Portuguesa, em 2 de abril de 1976; são também outras vozes que aí chegam, vozes de cidadãos, através de cartas recebidas na “casa-mãe” da democracia.
Trazem queixas, pedidos, denúncias do que falta: redes de distribuição de água, luz e esgotos, planos de urbanização e desinfestação de zonas de barracas e bairros degradados, a necessidade de resposta à mendicidade e à pobreza, de combate ao crime, de controlo de preços.
Nesta hora primeira – de novo segue o molde iniciado por Jorge Silva Melo, em 2016. Os Diários da Assembleia da República são ponto de partida a que juntou “o que acontecia nas ruas, o contexto histórico”, “alguma parte mais ficcional, de autor”. Na prática, o texto procura fazer “um panorama de vários anos da Assembleia da República e da democracia portuguesa naquele concentrado que é o parlamento”, disse Jacinto Lucas Pires à Lusa.
O processo foi trabalhoso, mas feito com gosto, na tentativa de mostrar “como é que uma história sobre a ‘casa mãe’ [da democracia] pode falar dos ‘filhos’, e todas as perguntas que isso levanta”, acrescentou o escritor.
A partir de discursos e intervenções que lhe pareceram “mais interessantes”, Jacinto Lucas Pires combinou “vozes que falam umas com as outras”.
Ao longo da peça vai-se assistindo a mudanças. E se no início transparece uma ligação “mais próxima” entre eleitores e eleitos, o mesmo não acontece à medida que a ação avança no tempo.
“Nos primeiros anos ainda havia um entusiasmo revolucionário generalizado”, “a política estava ali a acontecer à frente dos olhos dos cidadãos”, enquanto atualmente “conhece-se o líder de uma lista e depois surge um autocarro de desconhecidos”, disse o escritor.
Ao longo da ação também a retórica e a argumentação vão perdendo “um estilo quase literário”, do início, com o debate a tornar-se depois “cada vez mais enfadonho, mais técnico, cada vez menos político”.
Um discurso “cada vez menos esperançoso”, sintetizou, “cada vez menos conhecedor até dos livros ideológicos que cada área política devia representar ali”.
“E isso também fecha a porta da democracia às pessoas”, argumentou Jacinto Lucas Pires. Por isso, esta peça pretende levantar questões como os motivos que provocam “um fechamento [da política] às pessoas”, o afastamento dos cidadãos.
As pessoas “querem saber que sociedade é que vamos ter daqui a cinco anos; se os nossos filhos vão poder ser mais do que nós, o que significa Portugal fazer parte da União Europeia”, exemplificou.
Para Jacinto Lucas Pires, estas questões são tão mais importantes quanto alguns partidos querem rever a Constituição, algo que descarta: “devíamos era ler melhor a Constituição, aplicá-la mais profundamente e trazermos a política para todos os lugares”.
João Meireles, que encena a peça, partilha a opinião.
O objetivo do espectáculo, agora, relata, era “olhar para a Constituição e para estes 50 anos, não do ponto de vista do Jorge [Silva Melo] quando teria 20 e poucos anos em 1976, mas da perspetiva de quem tem agora 50 anos, como a Constituição, e sempre viveu neste contexto sociopolítico: o que é isto da Constituição, se este texto ainda nos serve, se esta lei fundamental ainda serve a sociedade em que vivemos”.
Recorrendo “ao mesmo dispositivo cénico e à mesma forma fragmentária” da produção anterior, a nova peça “acaba por jogar com o que está escrito e registado nos Diários da Assembleia da República, cruzando debates parlamentares, com observações, opiniões e coisas mais populares e mais de rua”, descreveu.
E se há 50 anos chegavam à Assembleia, “com muita facilidade e de uma forma muito imediata, os anseios populares, e eram publicados, lidos e tornadas públicas preocupações várias [dos cidadãos], hoje o que sinto quando olho um bocadinho para as nossas preocupações, é que andamos mais ou menos na mesma coisa. Mas não chegam lá [ao parlamento] com tanta clareza”, afirmou.
“O que me parece é que se alguma coisa aconteceu, infelizmente, [nestes 50 anos] foi esse divórcio grande entre o que se passa cá fora e o que se passa lá dentro – dentro desta bolha política que me parece que está tantas vezes alheada duma realidade mais quotidiana”, disse o encenador.
“Os debates parlamentares atuais não refletem o que as pessoas vivem realmente, nem o que as preocupa”.
“Vemos o debate ser sempre sobre uns assuntos que nós não sabemos exatamente porquê, para quê, qual é o alcance, em que é que aquilo nos toca”. Por isso a peça deixa também a interrogação sobre “o que estamos a fazer com esta Constituição”.
“Acho que devemos pensar todos muito seriamente sem modas, sem soundbites, sem ficarmos a consumir o que rapidamente nos passa nos instagrams e nos tik toks da vida; precisamos mesmo de pensar mais profundamente, de refletir mais consequentemente sobre o que queremos fazer enquanto comunidade”, defendeu.
Para João Meireles, “é fundamental dizer a estes nossos representantes que estamos aqui e que queremos contar, queremos ter voz, portanto oiçam-nos”.
E lembra a metáfora com que termina a peça que fala no transbordar do poço junto aos arquivos da Assembleia da República, e nas consequências que uma tempestade pode trazer para a democracia. Ou, pelo menos, para a sua história.
Nesta hora primeira – de novo tem interpretação de João Meireles, Andreia Bento, Nuno Nolasco, Gonçalo Carvalho, Antónia Terrinha, Pedro Caeiro, Hélder Braz, Tiago Matias, Rita Brütt, Nídia Roque, Vicente Wallenstein, Pedro Carraca, Paulo Pinto, Raquel Montenegro, Joana Calado, Rui Rebelo, António Simão e Inês Pereira, com os músicos João Cabrita e Miguel Tapadas e direção musical de Rui Rebelo.
A peça fica em cena no Salão Nobre da Assembleia da República de 9 a 12 de abril, com sessões às 19h00, na quinta-feira, às 21h00, na sexta e no sábado, e às 16h00, no domingo.
A entrada é livre, com marcação aqui.